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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CAUSO 6: O BOI DA MANTA



O BOI DA MANTA

Tadeu Oliveira

Zé Rico foi um grande apaixonado pelo carnaval de Corinto. Num dos carnavais da década de 1970, ele criou o bloco da Lídia, uma boneca negra imensa vestida de chita, bem ao estilo daquelas bonecas do carnaval do Recife.

No carnaval seguinte, Zé Rico apareceu com um outro personagem, o Cabeção. Como o próprio nome sugere, era um boneco de cabeça enorme e que desfilava cortejando a sua amada Lídia.

Lídia e Cabeçao 2010 - Foto: Tadeu Oliveira
A partir de então, a cidade foi tomada de tamanha alegria a ponto de o povo já não conter a ansiedade até o carnaval seguinte para acompanhar o bloco e ver o que Zé Rico aprontaria. E assim aconteceu. Mais outro ano e a Lídia e o fiel parceiro Cabeção apareceram com o Cabecinha, primeiro filho do casal de bonecos. E no quarto ano consecutivo, foi a vez de Lidinha, também filha do casal.

Percebendo que a cada ano o bloco crescia, Zé Rico apareceu com mais uma novidade: colocou um boi para abrir alas. Conhecido como Boi da Manta, uma variação do Bumba-meu-boi, o novo personagem investia sobre a multidão para abrir alas para o Bloco da Lídia e do Cabeção desfilar arrastando os seus passistas ao batuque dos ritimistas.

O Boi, assim como os bonecos, era constituído por uma armação feita de papel machê pintado de preto sobre uma estrutura trançada de arame e muito bem compacto. Na verdade, parecia mais um enorme touro negro com uma espécie de parangolés a enfeitá-lo. A parte de baixo era aberta e cabia uma pessoa que se encarregava de conduzí-lo pela rua afora.

O Boi da Manta era uma atração à parte para a molecada. O prazer dos meninos era cutucá-lo na expectativa de vê-lo investindo sobre a multidão que fugia em polvorosa.

Deu-se que o Bloco da Lídia, do Cabeção e sua filharada se preparava para mais um desfile. Todo mundo eufórico: os passistas se esmerando nas indumentárias, os ritimistas afinando o couro dos instrumentos e Zé Rico dando os retoques finais.

Quando já se encaminhavam para as bandas da Rua do Footing, local de aglomeração dos blocos, alguém gritou que o boi ficara para trás. Para sair debaixo das bonecas era uma disputa danada. Mas para sair debaixo do Boi da Manta, poucos se arriscavam. O boi sempre sobrava para Mossorongo, alcunha de Vicente Conceição Magalhães, um sujeito simples, funcionário de um açougue local. Mossorongo sempre adorou carnaval e era sempre cogitado para empurrar os carros alegóricos ou os carrinhos que transportavam os tambores treme-terra, botijões de gás e outros instrumentos percussivos. (Em Corinto, o botijão de gás vazio era peça fundamental nas baterias de escola de samba).

E assim, correram lá no barracão do fundo da casa de Zé Rico e trouxeram o boi colocando-o sobre Mossorongo já a caminho da Rua do Footing. Como havia cerca de um ano que o boi estava encostado, arrumaram um molambo e bateram sobre ele a fim de retirar o excesso de poeira.

O Boi da Manta em 2010 - Foto: Tadeu Oliveira
Quando o bloco entrou na Rua do Footing, ali perto da ponte sobre a linha da estação ferroviária, o boi já estava todo espevitado, fazendo acrobacias nunca dantes imaginadas. Ao ganhar a metade da Rua do Footing, o Boi da Manta dava pinotes e mais pinotes sobre a multidão que se instalara para ver o desfile passar. Nunca, nos anos anteriores, se vira o boi tão bravo. Moleque nenhum arriscou mexer com ele. Na verdade, ninguém se aventurou ficar a menos de dez metros do boi, pois este fazia malabarismos tresloucados.

Os policiais que faziam a segurança através de um cordão de isolamento começaram a ficar preocupados porque nem mesmo o mais respeitado e temido soldado do pelotão corintiano, o João Preto, deu jeito no Boi. Este, audaciosamente, chegou a desferir-lhe uma chifrada na altura do baixo ventre. Aí foi demais!

O pessoal do bloco começou a estranhar, afinal Mossorongo era um sujeito pacato. Não era dado a estripulias e nem bebia a ponto de sair do normal. No entanto, ele estava indócil e incontido.

E ali, na esquina da Rua do Footing com a Capitão Altino, quase de frente a antiga loja do Disco Brasa, pararam o desfile para verificar o que se passava com Mossorongo.

Após muita peleja e safanões, enfim o dominaram. Houve alguma dificuldade ao tentarem retirar a armação de cima de Mossorongo porque ela se enganchara em sua cabeça. Quando enfim o livraram do boi, para surpresa de todo bloco, a cabeça de Mossorongo estava num inchaço só, emendando as bochechas com as orelhas e o pescoço. 

Como o boi ficara quase um ano guardado lá nos fundos do barracão de Zé Rico, foi o bastante para que marimbondos construíssem uma casa dentro do corpo do boi. Quando Mossorongo meteu a cabeça boi adentro, esmagou a caixa de marimbondos com o cocuruto. A dificuldade de se ver livre daquele boizão pesado por si só e o barulho do batuque impediram que o bloco ouvisse seus pedidos de socorro. O desespero foi tão grande que Mossorongo se debatia em vão. Explica-se, portanto, tamanha animação e acrobacias do Boi da Manta.

Fonte da ilustração: Blog do Chico de Paula

domingo, 2 de janeiro de 2011

CAUSO 5: O CASO DOS TAMANQUINHOS

O CASO DOS TAMANQUINHOS

Tadeu Oliveira


Essa quem me contou foi o meu amigo Barrão. Diz ele que, tempos atrás, havia dois prósperos comerciantes em Capelinha que vendiam de tudo que se possa imaginar. Para quem não conhece a cidade, ela é dividida ao meio pelo histórico Córrego do Areão, veio dágua escolhido por Manuel Luiz Pego para se instalar, após perseguição dos índios Aranãs, fato que deu origem à cidade.

Um dos comerciantes ficava instalado do lado de lá do córrego, na famosa rua das Flores, e o outro do lado de cá, ali pelas bandas da rua Getúlio Vargas, salvo-me do engano.

Deu-se que o comerciante do lado de cá havia comprado um estoque de tamancos que, segundo o meu amigo Barrão, dava para abastecer os pés das mulheres de uma cidade do tamanho de São Paulo. (Barrãozinho é assim, meio exagerado). 

Com o passar do tempo, depois de vender um par tamancos de vez em quando e outro de quando em vez, o comerciante do lado de cá viu que a mercadoria encalhara em definitivo. Foi quando teve a feliz ideia de contratar um bando de moleque para ir de hora em hora na loja do concorrente do lado de lá do córrego para perguntar se lá tinha tamanquinhos. É claro que o sujeito endoidou o cabeção.

Numa visita esporádica de fim de tarde ao concorrente do lado de cá, o concorrente do lado de lá comentou que ultimamente estava tendo um procura danada de tamanquinhos na loja dele. Mal o sujeito fechou a boca o comerciante do lado de cá ofereceu adjutório: lascou conversa, dizendo que realmente o produto estava saindo que era uma beleza, coisa e tal, mas que se ele quisesse arrumava uma parte do estoque para o comerciante do lado de lá, até ele comprar do viajante que não tardaria a passar.

Para encurtar a conversa, Barrãozinho me falou que até hoje o comerciante do lado de lá não pode ouvir a palavra tamanco que o sujeito dá nó na tripa, pois não sabe o que fazer com o seu estoque de tamanquinhos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CAUSO 4: FUTEBOL EM CONTRIA



FUTEBOL EM CONTRIA

Tadeu Oliveira

Em fins da década de 1960, eu era apenas uma criança que vivia correndo atrás de uma bola de meia no fundo do quintal da nossa casa em Corinto, fruto de influência futebolística dos irmãos mais velhos. Meu pai, embora fosse um homem de princípios rígidos e não aceitasse de modo algum que os seus filhos jogassem “pelada”, era complacente quando se tratava das equipes de futebol da cidade.
Natural do pequenino distrito de Contria, incrustado no caminho entre Corinto e Pirapora, meu pai se revelava um amante do esporte bretão. Torcia pelo Cruzeiro e quando era indagado sobre se já havia jogado futebol, ele pigarreava e deixava escapar um sorriso maroto dizendo que não, mas que assistiu lá em Contria, uma das maiores goleadas já vista no futebol.
O meu pai contava que, por ocasião da expansão do ramal ferroviário para Pirapora, não tardou para que o futebol chegasse ao lugarejo, talvez por obra dos funcionários da Central do Brasil.
Assim, os habitantes locais começaram a praticar rachões chegando, inclusive, a formar um escrete local.
E para preencher o vazio e a morosidade com que o tempo passa nas tardes dos domingos, convidaram um time de Corinto, salvo-me do engano, para fazer um amistoso com o escrete recém-formado.
Eis que chegou o grande dia! Logo cedo, marcaram o campo de terra batida com cal, passaram uma mão de sebo nas chuteiras para amaciar e encheram a bola de couro G18. Ainda contaram com a cortesia do time visitante, que emprestou o jogo de camisas do segundo quadro para os titulares locais e arrumaram uma pessoa que entendia das regras para ser o juiz.
Meu pai fazia um suspense e já ia direto para o final da partida. O resultado? 42 a 0 para o time de Corinto. 
Se considerarmos que os dois tempos equivalem a 90 minutos, dividindo pelo número de gols tomados, teremos que o time de Contria tomava um gol a cada dois minutos e oito segundos. Bastava por a bola no meio de campo, tirar a saída e logo logo o goleiro do time da casa corria mato adentro para buscar a bola, pois não havia redes no gol. Papai soltava uma sonora gargalhada e dizia que o placar só não foi maior por causa da luta empreendida pelo goleiro com as macambiras ao buscar a bola no meio do mato, atrás do gol.

Fonte da ilustração: Wildhagen, Cid [org.]. Almanarte: Saberes e Fazeres da Cultura Popular. Belo Horizonte: IDENE / Ed. Crisálida, 2010.

domingo, 5 de dezembro de 2010

CAUSO 3: DE PENTE E DE CORTE



DE PENTE E DE CORTE
Tadeu Oliveira

Os meninos, todas as tardes, chegavam em casa empoeirados após os treinos no campo de terra do Guarany Atlético Clube ou do  time do Botafoguinho, treinado por seu Biduca.
Como não havia chuveiro elétrico, os que chegavam à frente iam logo pegando a água quente do fogão à lenha e temperando com água fria no chuveiro-balde. Enquanto iam se revesando para o banho, alguns deles discutiam acaloradamente cada lance do treino utilizando aqueles termos do futebol, herdados da língua inglesa:
─ Sabe aquela bola que você dividiu comigo lá na linha de fundo da grande área? ─ Dizia um.  ─ Então,foi córner. O treinador errou e ainda me expulsou do treino, seu chorão!
─ Qualé!  ─ retrucava o outro. ─  Você entra por baixo, faz a falta e quase quebra minha perna, seu covarde! Foi pênaltiiii!!!
─ Foi córner!!!
─ Foi pênalti!!!
─ Foi córner!!!
─ Pênaltiii!!!
─ Córnerrr!!!
E assim, iam nessa discussão toda até que mamãe, embora semi-analfabeta, mas de espírito vivaz (e quase sempre impaciente, é verdade), interferia no bate-boca:
─ Olhe aqui, "ocês" parem com essas discussões "boba" e vão logo tratar de tomar banho. Nunca vi!!! Todo dia "cês" vem com essa besterira de ficar discutindo esses “trem” de jogo... é um tal de “pente” e de “corte” que nunca vi! Que coisa mais besta!

Fonte da ilustração: Wildhagen, Cid [org.]. Almanarte: Saberes e Fazeres da Cultura Popular. Belo Horizonte: IDENE / Ed. Crisálida, 2010.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

CAUSO 02: A PRIMEIRA CHUTEIRA

A PRIMEIRA CHUTEIRA

Tadeu Oliveira

Geraldo Pé Roda nasceu e foi criado praticamente dentro do campo do Guarany Atlético Clube. Desde pequeno, já engalobava a mãe dizendo que ia catar gravetos para acender fogo e fugia para o campo. Foi lá que ganhou o apelido. Sempre que treinava com a turma, costumava chutar a bola de bicuda e ela saia rodando, dando capotes sobre si mesma, rente ao campo de terra batida. Daí, a turma começou a chamá-lo de Pé Roda. Consequentemente, a inabilidade com a bola o levou a assumir a titularidade do gol no segundo quadro do alvinegro corintiano.
Naquele tempo, a rigorosidade dos pais era demasiada e com dona Luíza, mãe de Geraldo, não era diferente. Família por criar, ela preferia que os filhos trabalhassem para ajudar em casa ao invés de ficarem correndo atrás da bola. Além disso, os times não tinham condições de ajudar os jogadores e muitos deles tinham que comprar seu próprio material, o que ela achava um desperdício.
Geraldo Pé Roda trabalhava de servente de pedreiro e entregava todo o dinheiro para a mãe. Quando precisava das coisas ela passava a quantia necessária, mas tinha de saber timtim por timtim para que era aquele dinheiro.
Certa ocasião, o sapato de Geraldo furou e ela retirou uma quantia do dinheiro guardado e mandou que ele fosse lá na loja de fulano de tal comprar um calçado. Como o sonho de Pé Roda era ter a sua primeira chuteira, tentou dobrar a velha na tentativa de comprar um par no lugar do sapato. Após muita conversa ele conseguiu botar na cabeça dela que aquilo era um calçado moderno que poderia ser usado em todas as horas, em qualquer situação, sem nenhum problema. E assim, depois de muita luta Geraldo chegou em casa com o tal calçado.
Naquela época, ir à missa todo domingo de roupa de linho e paletó era obrigação de toda família cristã e temente a Deus. Dona Luíza, católica fervorosa, convocou a família para a missa dominical e tomou o rumo da igreja matriz tendo os filhos a acompanhá-la. Geraldo, que  seguia mais atrás todo arrumado e calçado com a chuteira, andava como se tivesse a pisar em ovos para ninguém desconfiar de nada. Quando entraram na igreja que se encontrava num silêncio sagrado foi que a coisa desandou. A chuteira fazia o maior barulhão: crap... crap... crap... o que levou os fiéis a se virarem  para verificar de onde vinha aquele barulho esquisito.
À medida que Geraldo adentrava o templo religioso percebeu que aquilo escorregava como quiabo e num átimo...  bufff!!! Escorregou e caiu sentado no chão.
Dona Luíza, vendo a cena,  ficou possessa. O mínimo que ela fez para amenizar a vergonha e o prejuízo foi ordenar a Geraldo que cortasse as travas da chuteira.
A partir daquele dia, a primeira chuteira de Geraldo Pé Roda ficou sendo o seu calçado de passeio e de jogar bola.

Adaptação feita por Tadeu Oliveira sobre entrevista concedida por Geraldo Fernandes (vulgo, Geraldo Pé Roda) a Maurílio Xavier no Jornal O Panorama, edição 56 de novembro de 2008, Corinto MG.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CAUSO 01: O RETRATO DA JANELA



O RETRATO DA JANELA

Tadeu Oliveira

Chegou sorrateiro, espiando meio macambúzio pelas frestas dos olhos a algazarra no terreiro da casa. Pelos pés descalços, rachados e sujos de bosta de boi, via-se logo o seu jeito matuto de ser. Era um ser tão minúsculo e insignificante, que passou despercebido da atenção dos presentes, entretidos em posar de frente a uma máquina fotográfica que alguém segurava.
Se achegou devagarinho, postou pesados embornais e um saco de aniagem no chão, no que ouviu-se um cacarejo de frango, destampou a cabeça do chapéu puído e desvestiu-se do paletó de casimira encardida, na certa herdado de alguém. Passou a mão sobre os olhos, como a querer desanuviá-los e, vacilante, procurou pela dona da casa num espicho de olho, mas a vergonha era maior que a visão.
Tão logo deram conta da sua presença, alguém se aproximou com presteza: uma bela moça, indagando-o sobre o que desejava, o que fê-lo consumir-se no simplório da sua vergonha. Ensaiando um sorriso acanhado e jocoso, deixou realçar os cacos de dentes pretos e os sulcos nas faces chupadas, revelando o xadrez das rugas e o sofrimento do sertão dos gerais. Por um instante pensou em arrepender de encontrar-se ali. Com voz titubeante, quase um sibilo, perguntou pela comadre, prima em primeiro grau, que a consideração trazia-lhe em visita. A moça vistosa antecipou-lhe as honras da casa, revelando ser pessoa fina nos modos e nos tratos, que o deixou mais precavido. A beleza da moça aumentava o seu constrangimento, mas no seu íntimo, imperava um enorme desejo em saber de quem se tratava tão singela criatura.
Anunciado à comadre, esta veio ao encontro do primo abrindo-se em sorrisos e perguntando notícias dos seus. Colocando em dia a prosa, entremeada de respostas monossílabas do compadre, a dona da casa convidou-o a entrar, no que foi incisivo em negar, sob a alegação de que os pés estavam muitos sujos. A comadre insistiu e ele preferiu acomodar-se do lado de fora, enviesando a conversa pelo batente da janela da cozinha.
Servido o café com broa de fubá, foi a vez do visitante fazer agrados à comadre, entregando-lhe produtos agrários produzidos pela prole lá na sua glebinha de terra. Rapadura, queijo, polvilho, farinha de mandioca, beiju, além da encomenda especial de todas as vezes: um frango caipira.
Os agrados chamaram a atenção da moça grã-fina. Curiosidade despertada, como é do costume das pessoas da cidade, foi aí que o matuto veio a saber que se tratava da sobrinha do marido da comadre, oriunda de São Paulo e que há anos não se aventurava por aquelas paragens.
O homem, então, perguntou pelo regresso da moça para as terras paulista, prometendo que, antes da partida, traria um lote especial de iguarias para ela, o que o deixou mais à vontade fazendo com que a modéstia aos poucos escapulisse do seu controle.
Após algumas considerações a bela moça valeu-se de uma máquina fotográfica e pôs-se a registrar os produtos depositados sobre o fogão “de lenha”. Afinal, sempre que vinha visitar a parentela, fazia questão de coletar lembranças e traduzir em recordações nos pequenos quadrados de papel em preto e branco. Depois, fotografou a dona da casa guardando os agrados e o capiau foi ficando cada vez mais intrigado com tal engenhoca. A sua curiosidade levou-o a perguntar se era aquilo que fazia retratos e depois de minuciosas explicações, a moça retirou de uma bolsa uma maço de fotografias de diversas pessoas e lugares, passando à mão do matuto num gesto de simpatia. Deleitou-se, encantado com as fotografias.
Decorrido algum tempo, a linda moça convidou-o para tirar uma chapa com ela no que ele, encabulado, prontificou-se a atender. Após batida a fotografia, perscrutou o ambiente e num lampejo, adentrou-se pela casa a persignar-se, esquecendo-se da timidez e da sujeira dos pés, postando-se um tanto pilhérico, num misto de acocoramento e genuflexão, por detrás da janela da cozinha, estufou o peito raquítico e com voz embargada de alegria e emoção pediu para a formosa moça que tirasse um retrato dele naquela posição, entre o esquadrado da janela, “focando os peitos pra riba”, modo este que sinalizou com um gesto de mãos, pois há muito queria fazer seus documentos, mas nunca tinha surgido a possibilidade de conseguir um retrato três por quatro.

(Texto vencedor do 3.º lugar no Concurso Literário “Grandes Escritores de Minas Gerais”, promovido pela Litteris Editora – RJ e publicado no Livro de Antologias do referido concurso em 1999)