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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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domingo, 9 de junho de 2013

FÉ NA VIDA

Frei Chico lança dicionário com 8,5 mil verbetes sobre a religiosidade popular
brasileira. Obra surgiu da relação do padre holandês com a gente simples do Vale
do Jequitinhonha
Sérgio Rodrigo Reis

Em 1967, quando frei Chico veio da Holanda para o Vale do Jequitinhonha, aquela região de Minas Gerais era considerada um dos três lugares mais pobres do mundo. Diante de tanta miséria, o holandês descobriu riqueza cultural sem precedentes. “Aquilo deu sentido à minha permanência no Brasil”, revela o frade franciscano. Em seus 10 anos como pároco da diocese de Araçuaí, ele contabilizou 15 mil folhas de registros da cultura do povo relacionada à fé e à experiência espiritual. Somado a pesquisas realizadas na Europa, esse vasto material foi a base de um ambicioso projeto, o Dicionário da religiosidade popular: cultura e religião no Brasil. Com 1.150 páginas, a obra de referência chega agora ao público, reunindo 8,5 mil verbetes, 6 mil notas de rodapé e 350 ilustrações.

Lançado pela Editora Nossa Cultura, o livro surgiu por acaso na vida de Francisco van der Poel, o popular frei Chico. “Para poder servir, havia de conhecer aquele povo”, resume ele. A inspiração veio do canto de Filó, a cozinheira da casa paroquial, em Araçuaí. Era algo belo e incomum. “Filó gostava de cantar e resolvi gravar as músicas em fitas cassete, as mesmas que serviram para o repertório do Coral dos Tangarás. Há 43 anos, tive a honra de fundar o grupo, que continua até hoje”, orgulha-se ele.

As viagens a municípios da região de Araçuaí – “em lombo de burro velho, nos fins de semana” – trouxeram novas descobertas. A amizade com a ceramista Maria Lira Marques está entre elas. “Lira abriu as portas da sabedoria popular para mim, o estrangeiro que acabara de chegar”, conta o religioso. Frei Chico viveu 10 anos naquela região. Nesse período, cuidou de registrar as peculiaridades do povo simples com olhar antropológico e visão humanista. “Quando cheguei a Araçuaí, tudo era tão diferente da minha terra, a língua, a cultura, a maneira de tratar as doenças... Ouvia aquela gente se referir a problemas de saúde como carne quebrada, vento virado, espinhela caída e mau-olhado. Comecei a ficar curioso”, diz frei Chico. Cada nova descoberta dava origem a uma anotação.

O Dicionário da religiosidade popular: cultura e religião no Brasil reúne essas descobertas. “Não tinha parâmetro para ele, não há outro livro parecido. Precisei inventar uma fórmula. Coloquei, por exemplo, todo o depoimento do povo – entrevistas, cantos e histórias – em itálico para o leitor perceber onde está a parte mais importante”, informa. À medida que o projeto ganhou consistência, o frade percebeu que em Minas não havia pesquisadores com interesse semelhante. A certeza do pioneirismo do dicionário se confirmou depois da aproximação de Chico com o folclorista Câmara Cascudo e com Carlos Rodrigues Brandão, antropólogo da Universidade de Campinas (Unicamp), responsável pela introdução do livro.

Inicialmente, frei Chico pensou em escrever um manual da religiosidade popular. Tentou esboçar algo nessa linha, mas concluiu que não seria possível sintetizar cultura tão vasta. Assim surgiu o dicionário. “A função do dicionarista não é resolver problemas, mas registrar. Aprendi que não é a lógica que manda, mas o bom senso e a busca de coerência. Preocupei-me não em fazer uma síntese, mas algo orgânico”, detalha. A intenção é conduzir o leitor por uma espécie de viagem rumo ao universo do povo. “As pessoas começam a ler e, de repente, já estão com os 10 dedos no dicionário, marcando links de interesses”, afirma.

Nos últimos 40 anos, frei Chico pesquisou dentro e fora do país assuntos ligados à cultura e fé popular. Chegou à Europa, vasculhou antigos arquivos de Portugal em busca de pistas que pudessem elucidar questões ligadas aos saberes do povo humilde do Vale do Jequitinhonha. “Consultei livros de história, de farmacopeia medieval e até de bruxaria. Reuni 2 mil volumes. Quando concluí o dicionário, doei esse material para a biblioteca da PUC Minas, em Belo Horizonte”, informa o frade.

A pesquisa demorou, mas o livro ficou do jeito que frei Chico sonhou. “Continuo dizendo: o resultado é apenas o começo do princípio de alguma coisa”, garante ele. “Passei por uma reciclagem de ideias. Deparei-me com saberes marcantes e eles mudaram a minha noção de historiografia, a maneira de me relacionar com Deus e com o próprio significado da palavra cultura.” Não é à toa que os verbetes preferidos dele explicam o significado de simples e de sabedoria.

DICIONÁRIO DA RELIGIOSIDADE POPULAR: CULTURA E RELIGIÃO NO BRASIL
De Francisco van der Poel (frei Chico)
Ilustrações: Lira Marques
Editora Nossa Cultura, 1.150 páginas, R$ 290
Informações: www.nossacultura.com.br

FRUTOS DA TERRA
Frei Chico convidou a ceramista Maria Lira Marques, sua mentora na viagem pelo imaginário popular do Vale do Jequitinhonha, para ilustrar o dicionário. Em 350 desenhos surgidos de pigmentos extraídos das diferentes tonalidades de terra da região, a artista imortalizou personagens populares, festas, emoções e curiosidades. “Os desenhos reforçam o caráter da obra. Lira desenha com terra. Se fosse simbolizar o livro, seria com algo como o chão. Aprendi uma coisa lá atrás com o Paulo Freire: para ajudar o povo, é preciso, em primeiro lugar, valorizar o que ele já tem – cultura, história, ideias, lideranças”, ensina frei Chico.

Saiba mais

O MISSIONÁRIO
Francisco Van der Poel nasceu na Holanda, na área rural de Zoeterwoude, e entrou para o convento em 1960. Dois anos depois, ingressou no internato diocesano. Naquela época, havia 1.234 frades holandeses e um terço trabalhava como missionário em países como Índia, Paquistão, Indonésia, Japão e Brasil. O jovem frade ouviu relatos da experiência dos colegas nas Américas. Francisco chegou ao Brasil em 1967. Em Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata mineira, assistiu pela primeira vez a um desfile de carnaval. Em São João del-Rei, participou das celebrações da semana santa. Nomeado pároco de Araçuaí, morou 10 anos no Vale do Jequitinhonha.


Fonte: Jornal Estado de Minas, caderno Pensar, publicação: 08/06/2013.

domingo, 23 de setembro de 2012

27º FESTUR DESTACOU TRADIÇÃO E REFERÊNCIA CULTURAL DA REGIÃO

Elba Ramalho no Festur -
Foto: Tadeu Oliveira

A arte e difusão cultural já fazem de Turmalina, 18 mil habitantes, Alto Jequitinhonha, uma referência regional em eventos de cultura popular e um artesanato singular, que também tem impulsionado o seu desenvolvimento destacando o município como um dos maiores indicies de crescimento econômico de Minas.

Uma marca desse dinamismo foi a realização do 27º Festival da Canção de Turmalina – Festur, nos dias 3 a 9 de setembro, uma parceria da Casa de Cultura e Prefeitura Municipal, com grande participação popular, cerca de 15 mil pessoas, participaram ativamente da programação de agenda seleta com oficinas, palestras, debates, feira de artesanato, mostra folclórica e shows musicais destacados, como a Banda Detonautas, Elba Ramalho, Coral das Lavaderias de Almenara, Carlos Farias, Corporação Euterpe Homero Maciel e Celso Soares, Noite de Talentos - Festival de Música Gospel, Antônio Carlos e Renato, Bandas Ritmia, Bloc Kebrae, Batukaê e o tradicinal festival da canção nas categorias MPB e Sertaneja, já renomado e de âmbito nacional, que tem revelando talentos regionais e do país a cada edição.

Turismo cultural

Comissão Organizadora do Festur tendo à frente a Secretária de Cultura Luzia
Foto: Tadeu Oliveira
Uma política de turismo cultural desenvolvida pelo prefeito Zailson Godinho tem nas festas populares e tradições do município um calendário efetivo de eventos como o Galope Show, em maio, a Festa do Divino, em julho, o Festur em setembro, e a Festa do Rosário, em outubro, que além do lazer, preservação e difusão da cultura popular e entretenimento a população, também assegura grande movimentação financeira, a promoção e aquecimento da economia municipal.

O festival

Vencedor da Categora MPB: o baiano Laércio Beethoven
Foto: Ana Rita Rocha
O festival da canção a atração especial e cobiçado pelos participantes em face de sua repercussão e impulso na carreira artística, teve em 25 canções na noite de sexta-feira, 7 de setembro, sob a apresentação do poeta-cantador Gonzaga Medeiros, uma mostra fidedigna do potencial da cultura popular regional e do bom nível dos concorrentes, cabendo na MPB a Laércio Beethoven, de Salvador, com a canção “Dança dos Rios”, o 1º lugar; “História do Negro”, com Taquinho de Minas, de Belo Horizonte, em 2º lugar, e “Não é pecado”, com Aislan Rodrigues e Ana Angélica, de Padre Paraíso, a terceira colocação,  e o prêmio “Cidade de Turmalina”, ficando com Lucas de Oliveira, com “Meu Mundo”. Na Categoria Sertaneja, foram premiados, “Voz dos pássaros”, de Osmar Lins, de Minas Novas, com o 2º lugar para “Realidade” de Isidoro Gomes, de Turmalina. As premiações do festival somam R$15 mil.

Vencedor da Categoria Serteneja: o minasnovense Osmar Lins
Foto: Ana Rita Rocha

Sustenta o poeta e jurado do festival Cláudio Bento, que “o Festur é uma festa cultural de alta qualidade em sua programação, a presença solar da cantora Elba Ramalho foi o grande boom do evento, além do show da banda de rock Detonautas e também da apresentação de música regional representada por Carlos Farias e o belíssimo Coral das lavadeiras”.

Reforça Bento que positiva também no evento foi a apresentação do projeto Prata da Casa, “onde compositores locais puderam mostrar suas produções musicais.”

Para o médico e agente cultural, Hugo Jansem, o Festur é o ponto de encontro de Turmalina com os visitantes, “nos propicia troca de informações e conhecimentos, mostramos o nosso fazer e aprendemos, em contrapartida, fazeres diferente. O 27º Festur congregou valores dos anteriores sabendo que estamos em tempos outros, portanto, conseguimos atingir os jovens que serão
os responsáveis pelo seu prosseguimento”, ressaltou.

Já com que calendário e programação pré-definida, as sugestões de mudanças no Festur para alguns participantes se referem a feira de artesanato, deveria ser mais plural e diversificada, como a descentralização das ações do festival valorizando também outros pontos da cidade.

Fonte do texto: Jornal Tribuna do Norte - Ano XXI - Edição nr. 215 - 05 a 20 de setembro de 2012.
Fotos: Tadeu Oliveira e Ana Rita Rocha

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O EGOÍSTA E O SOLIDÁRIO


Fernando Brant

Gente existe que pensa que tem o rei no umbigo. Anda pela vida como se fosse o maioral, um deus a quem todos devem reverência. Pisa em quem estiver à frente, o que importa é que seus desejos sejam satisfeitos. Houve um tempo em que pensei que isso fosse exclusividade do capitalismo, que exacerba o individualismo e a competição desenfreada. Aprendi que não importa o nome do regime e que por baixo de discursos de desprendimento e compreensão coletiva se escondem farsas, mentiras e violência. É fácil amar a humanidade, essa abstração presente nas palavras dos sinceros e dos demagogos.

Difícil é, no dia a dia, no cara a cara com as pessoas, respeitar de fato as pessoas com quem convivemos nos lugares em que realmente habitamos: a casa, a rua, nossa cidade. Fala-se muito que padecemos de uma herança colonial que acostumou os que eram, e ainda se sentem, senhores a mandar e desmandar de acordo com sua conveniência. E que nem a independência e a proclamação da República apagaram essa mácula que nos acompanha até hoje.

A igualdade de todos perante o coletivo se apaga, o sociólogo Roberto da Matta nos lembra sempre, diante da frase abominável que ainda se ouve, infelizmente, em nosso país: “Você sabe com quem está falando?”. Quem diz isso é um idiota, que não compreende sua insignificância diante dos semelhantes e, muito mais, diante da vastidão do planeta, que é um grão de areia em relação ao que conhecemos do universo.

Sabemos de inúmeros exemplos de pessoas que se dedicam à solidariedade, à ajuda desinteressada aos outros. Eles são essenciais, embora pareça uma ilusão a ideia de que algum dia, pela tecnologia e pelo esforço de todos, se chegue a uma desigualdade menor, uma igualdade possível. Mas vamos, cada um, fazendo a sua parte. Nas relações do dia a dia em casa, no trânsito, no trabalho, na escola.

E é necessário que se lembre que a generosidade que existe no mundo vem muito mais de pessoas comuns, aquelas que vivem e sofrem o mesmo que seus vizinhos. Não de quem quer se promover, sair nos jornais e postular posições na política ou na sociedade.

Os egoístas são falastrões e pretendem ser os eternos mandões, mesmo que seu mandato tenha se encerrado e, mais importante, que ele seja apenas mais um na multidão. A democracia é o poder de todos, e ninguém manda em ninguém. Os solidários entendem isso, mas preferem se calar por recato.

A cultura, tão desprezada por nossos governos, nos traz sensibilidade, aguça a inteligência, abre caminhos para que compreendamos melhor o barro de que somos feitos. A razão e a falta dela estão com o Oriente e o Ocidente. Os bons não estão só de um lado, nem os maus. O ser humano é complexo, mas vale a pena.

Fonte: Jornal Estado de Minas, Caderno EM Cultura - 19/09/2012

domingo, 5 de agosto de 2012

OLIMPÍADAS, OS EXTREMOS



Por Affonso Romano de Sant'Anna

Primeiro esta observação quase estapafúrdia: as Olimpíadas derivam dos ritos funerários 700 anos antes de Cristo Parece um paradoxo: a excelsa celebração do corpo é um contraponto à decomposição do próprio corpo. É a vida vingando-se da morte. Todas as culturas têm ritos sofisticadíssimos para exorcizar a morte. Segundo um ditado antigo: os mortos governam os vivos. Segundo os maldosos: alguns governantes já morreram há muito, apenas se esqueceram de deitar o caixão.

Seja como for, a Olimpíada é o momento de esplendor da vida. É o momento em que o herói, por um instante, é imortal. Por isto, lhe conferem o ouro – o brilho, a perenidade, a glória. E nós assistimos a isso porque queremos ver a superação de nossas deficiências. Até os deficientes físicos têm sua Olimpíada. Eles, todos nós nos superamos por meio do outro.

Daí que as Olimpíadas sejam o momento em que os extremos se encontram, se chocam, se abismam e nos levam às alturas ou nos prostram aterrados. Ali está, por exemplo, aquela coreana lutadora de esgrima. Derrotada. Bastou um segundo para desgraçar-lhe quatro anos de preparação, destruir o sonho com o extasiante ouro olímpico. Ela está sentada com o florete abatido, inútil. Perplexa. A derrota a assombrou. Os juízes dizem que a oponente venceu, que ela tem que sair do pódio. Ela não sai. Fica ali 45 minutos. Destroçada. O estádio inteiro, as televisões do mundo inteiro de olho nela, esperando que assimile a derrota.

Ela tem razão, a derrota não é aceitável. Derrota é morte. E ela foi ali pela vida.

E ficamos divididos.

Se as Olimpíadas fossem só um festival de vitórias, seria um tédio. Onde a surpresa? O imprevisto? Onde o fracasso? O fracasso nos interessa, nos fascina. O fracasso nos torna novamente humanos.

Às vezes, por um instante, somos deuses. A chinesinha vem, dá aqueles saltos ornamentais fabulosos e temos certeza que ela é de borracha. Não é possível que um ser humano dê tantas piruetas e caia com a precisão de um objeto ou como se fosse uma figura projetada pelo computador. Estamos em êxtase. 

Mas vem outra atleta. E parece que está tudo bem, e está. Por enquanto. De repente, ela dá um salto sobre aquela barra de 10 centímetros e se estabaca como um mamulengo. Tornou-se um ser humano falível, desprezível, irremediável. E temos pena dela. Temos pena de nós mesmos. Por um momento fomos deuses. E fracassamos.

As multidões vão aos estádios festivamente, mas estão à mercê desse paradoxo. Mesmo os que parecem olhar desatentos a televisão num bar ou restaurante estão de olho no acaso. Eles querem testar, no outro, seus próprios limites. Quando alguém bate um recorde, provou-me que posso ir além de mim mesmo. Quando alguém fracassa, ensinou-me que não sou deus, sou um reles mortal. Sou, como dizia Eça de Queirós, “um pobre homem de Póvoa de Varzim”, ou, como disse Fernando Pessoa, “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Dizem que na Grécia antiga havia quatro instituições que organizavam a vida social: a política, a religião, a poesia e o atletismo. E o herói que recebesse mais prêmios na Olimpíada merecia um poema de Píndaro. Certa vez um desses poemas foi eternizado em ouro no Templo de Minerva. Pois bem. Lá vem o Michael Phelps com o peito cheio de medalhas. O homem é ouro puro. Destronou uma russa que era campeã de vitórias e hoje é avó.

Digam-me: se perguntasse a ele, em plena pós-modernidade, se quer um poema, o que ele diria?

Fonte: Jornal Estado de Minas - Caderno EM Cultura - 05/08/2012

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

LIVRO "GERAES" É UMA REALIDADE NO JEQUITINHONHA

Por Tadeu Oliveira


Cumprindo com o cronograma proposto e divulgado neste e em diversos outros blogs, apesar de não ter acontecido em Diamantina por dificuldade de articulação local, os fundadores do Jornal GERAES Tadeu Martins, Aurélio Silby e George Abner lançaram na noite de terça-feira, 09, o livro “GERAES – A realidade do Jequitinhonha”, na cidade de Turmalina.


Público presente

A sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Turmalina recebeu um público que, embora pequeno, recebeu com expectativa e alegria o tão esperado livro. Além de diversas pessoas que atuaram e atuam no movimento cultural e social da cidade anfitriã, havia gente de Veredinha, Chapada do Norte, Minas Novas e Capelinha representando diversas entidades. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Capelinha e Angelândia esteve representado pelo Secretário Geral Expedito Peçanha de Oliveira e pelo funcionário Carlos, enquanto eu representei o programa/blog Canta Minas e o Coral Vozes das Veredas, da cidade de Veredinha MG.

Ênio e Julinho
Por volta das 19h30, o evento foi aberto por uma cantoria feita pelos turmalinenses Ênio e Julinho. Em seguida, formou-se a mesa com a presença de representantes das entidades locais,  do economista Aurélio Silby (Ponto dos Volantes), do jornalista Geroge Abner (Pedra Azul) e do engenheiro e contador de ‘causos’ Tadeu Martins (Itaobim), todos fundadores do jornal Geraes há mais de 30 anos, juntamente com Carlos Figueiredo, que não estava presente.


Aurélio Silby
Os três fundadores presentes fizeram o uso da palavra e Aurélio Silby discorreu sobre a fundação do jornal quando, em 1978, ele, Tadeu Martins, Geoge Abner e Carlos Figueiredo juntaram “as ideias e as conversas” e resolveram “fundar um jornal para o Vale do Jequitinhonha que não fosse um jornal qualquer”, mas  “um contraponto, uma alternativa, algo novo que abrisse espaço para as pessoas que moravam no Vale, que viviam aqui no Vale”, embora os fundadores não vivessem na região por terem ido morar em Belo Horizonte para dar continuidade aos estudos.

Aurélio lembrou ainda que, no início, eles não tinham uma ideia muito clara sobre o caminho que o jornal tomaria, mas lembrou que já haviam certos princípios básicos e o primeiro deles era a independência política; o segundo, era abrir espaços para que as pessoas do Vale pudessem ocupar, utilizando o jornal para se manifestar, reivindicar, protestar, divulgar as lutas sociais e políticas e as suas expressões culturais.  Lembrou também das dificuldades iniciais, que passavam pelas finanças, pela necessidade de se construir uma forma organizativa e pela falta de periodicidade do jornal.

 
George Abner
O jornalista George Abner afirmou que o GERAES foi “uma ideia e continua sendo a ideia de uma sociedade livre, de uma sociedade que construa uma igualdade que não seja essa imensa diferença que ainda é o nosso país, com 10 milhões de miseráveis e pobres... ou muito mais... claro que depende dos pobres e dos oprimidos para construir essa sociedade, não devemos ser paternalistas. (...) A luta do GERAES é uma ideia a ser construída com a participação de todos”.  

Mas o ponto forte do discurso de Abner ocorreu quando lembrou da luta empreendida por Vicente Nica, um camponês que se tornou um atuante líder sindical da cidade de Turmalina ao lutar pela terra no momento em que as chapadas do alto e médio Jequitinhonha eram ocupadas pelo eucalipto.

A lembrança da figura emblemática de Vicente Nica levou George Abner a se emocionar ao afirmar, como os olhos cheios de lágrimas: “O Geraes não existiria sem Vicente Nica. Ele é parte de Turmalina... Vicente Nica significa este sindicato, as terras de são Miguel e Mato Grande... significa o CAV... significa uma mudança na estrutura de poder dessa cidade. Então, não podemos esquecê-lo, mas principalmente a sua ideia de uma sociedade justa, que ele viveu e lutou por ela. Não é nenhum sentimentalismo, mas uma lembrança para que a cidade de Turmalina saiba disso. Ele foi a base disso, foi a base de trazer um pensamento novo para uma sociedade nova. Não faço uma homenagem póstuma, pois o seu pensamento está vivo”.


Tadeu Martins
Em seguida, Tadeu Martins lembrou porque nasceu o GERAES: “nos preocupava muito naquele período negro que a ditadura militar massacrava o povo, impedindo sua organização... a exploração era muito grande... a miséria andava solta, o Jequitinhonha era conhecido como Vale da Miséria, Vale da Fome, Vale do Marcha-ré... Eram os nomes que o Jequitinhonha tinha e nos intrigava muito como uma região tão rica (...) vivia com um povo tão pobre, tão oprimido e massacrado por um poder que massacrava toda sociedade brasileira... mas aqui no Vale a miséria era tão grande numa região tão rica, (...) [e ainda] hoje uma das regiões mais ricas do Estado e importante em todos os aspectos”.

Dito isto, Tadeu Martins discorreu sobre a história de Minas Gerais e da região, passando pelo garimpo, pelo genocídio dos índios da região, falou do rio e da barragem de Irapé, lembrou das estradas com asfaltos por fazer há mais de 40 anos e terminou reivindicando:  “que haja um respeito maior com essa região e mais organização para haver este respeito”.

Logo após, a equipe de produção do livro GERAES distribuiu diversos exemplares para as instituições e entidades presentes, cujos representantes fizeram o uso da palavra franca.



        Hugo Jansen (Mov. Cultural), Elias Nica (filho de Vicente Nica),
     Aurélio Silby, Tadeu Martins, José Antonio de Andrade (FETAEMG),
                                    Boaventura (CAV) e George Abner

POR QUE O PROJETO DO LIVRO?

Jane Orsine
Os idealizadores do projeto são unânimes em enumerar que se deve a: 1º) todas as edições do jornal se perderam; 2º) porque na memória de grande parte das pessoas não há mais o registro desse momento em que o jornal esteve presente no Vale, de 1978 até 1985; 3º) resgatar as edições para passar às novas gerações esse momento importante para a História regional e, 4º) oferecer ao Vale do Jequitinhonha esse documentário histórico.

Dr. Hugo Jansen

Em novembro, os produtores do jornal passaram por diversos lugares do Vale com o objetivo de fazer uma edição nova do jornal com o objetivo de se fazer uma comparação crítica do passado com o presente. Diante disso, Tadeu Martins, Aurélio Silby e George Abner esperam que se cumpra o objetivo proposto pelo jornal desde a sua fundação, que é o de servir ao povo do Vale  como ele sempre serviu, agora como um processo de estudo, de reflexão, bem como a análise de sua importância nessa trajetória.

Uma coisa é certa: o GERAES foi importante ao retratar em suas páginas os assuntos mais importantes para o Vale naquele momento da história. O jornal teve papel fundamental no surgimento de diversos sindicatos rurais, a exemplo do Sindicato de Turmalina. Poetas, músicos, escritores tiveram voz através do jornal. E assim sendo, foi uma das células para o surgimento do Festivale.



Expedito, Noraldino e Carlos

Tadeu Martins, George Abner, Tadeu Oliveria e Aurélio Silby

Para saber sobre a programação de lançamento nas cidades do Vale, acesse: http://cantaminas.blogspot.com/2011/08/vem-ai-o-lancamento-do-livro-geraes.html

 Para saber mais sobre o Jornal Geraes, leia artigo escrito por mim neste blog, intitulado Jornal Geraes: veículo de resistência, denúncia e cultura ou acesse o blog do Jornal Geraes: http://blogdogeraes.blogspot.com/ .

Fotos: Tadeu Oliveira

sábado, 6 de agosto de 2011

VEM AÍ O LANÇAMENTO DO LIVRO GERAES: A REALIDADE DO JEQUITINHONHA

Livro que reúne todas as edições do jornal Geraes tem lançamento programado em 10 cidades do Jequitinhonha com debates sobre temas específicos



Edição especial lançada em maio/2011
 
Depois de terem publicado a edição especial do Jornal Geraes em maio deste ano, os idealizadores do projeto “Geraes: a realidade do Jequitinhonha” cumprem com a promessa de lançar o livro que recuperará todas as edições do Jornal Geraes, o que possibilitará recuperar o registro histórico dee um período das lutas, da vida e da cultura do Vale do Jequitinhonha, conforme noticiaram ontem os blogs do Banu e do Movimento Muda Capelinha.

O projeto “LIVRO GERAES” é idealizado por Aurélio Silby, Carlos Figueiredo, George Abner e Tadeu Martins e está sendo executado com base na Lei Federal de Incentivo à Cultura, em parceria com a ADP – Associação de Desenvolvimento de Projetos e patrocínio do Banco BMG.

Segundo o Blog do Banu, os responsáveis pelo projeto de publicação da edição histórica do jornal Geraes programaram para os próximos dias uma série de lançamentos do livro em 10 cidades do Vale do Jequitinhonha. Tanto a  Edição Especial do jornal quanto o Livro terão distribuição gratuita, sendo que este será entregue de forma priorizada aos Centros Culturais, bibliotecas, centros de pesquisa, arquivos, sindicatos, ONG,s e como reconhecimento coletivo, a todas as pessoas que cooperaram diretamente com o jornal GERAES.

Em cada cidade, haverá debate sobre temas de suma importância para o desenvolvimento da região. Veja a programação abaixo:

  • 08 de agosto – segunda-feira – Diamantina - A universidade e o Jequitinhonha;

  • 09 de agosto – terça-feira - Turmalina – Eucalipto e organização sindical;

  • 10 de agosto – quarta-feira - Minas Novas - Mecanização nas lavouras de cana e café - Impacto na questão sócio-econômica do Vale;

  • 11 de agosto – quinta-feira - Berilo - Comunidades Quilombolas e a sua organização;

  • 12 de agosto – sexta-feira - Virgem da Lapa - Integração e manifestação das comunidades quilombolas, com participação de representante dos quilombolas de Minas Novas, Chapada do Norte, Berilo, Francisco Badaró e Araçuaí.

  • 13 de agosto – sábado - Araçuaí – Movimentos culturais e política pública

  • 15 de agosto – segunda-feira - Rubim (História e cultura do Vale nas escolas da região).

  • 16 de agosto – terça-feira - Almenara - Rio Jequitinhonha, política municipal, estadual e federal de meio ambiente;

  • 17 de agosto – quarta-feira - Jequitinhonha - Rio Jequitinhonha, política municipal, estadual e federal de meio ambiente;

  • 18 de agosto – quinta-feira - Itaobim - Novos rumos para o Festivale.

  • 06 de setembro – Belo Horizonte - Tema livre.

O Jornal Geraes circulou no Vale do Jequitinhonha entre os anos de 1978 e 1985. Um grupo de estudantes do Vale, moradores de Belo Horizonte, idealizou o jornal mensal, de resistência à ditadura militar, de combate ao coronelismo político e de valorização das manifestações populares do Jequitinhonha. Daí surgiu o grande movimento cultural do Vale do Jequitinhonha.

No lançamento do livro GERAES Edição Histórica estarão presentes os fundadores do jornal e do Festivale: Aurélio Silby (Santana do Araçuaí - Ponto do Volantes), Carlos Figueiredo (Itaobim), George Abner (Pedra Azul) e Tadeu Martins (Itaobim).

Para saber mais sobre o Jornal Geraes, leia artigo escrito por mim neste blog, intitulado Jornal Geraes: veículo de resistência, denúncia e cultura ou acesse o blog do Jornal Geraes: http://blogdogeraes.blogspot.com/ .

Comentário: Chega em muito boa hora esta publicação que pretende reunir todas edições do Jornal Geraes num único livro. Isto facilitará tanto aos pesquisadores quanto ao público em geral o acesso a todos os números do jornal num único volume, uma vez que os mesmo anda tão escassos ou mesmo raros. Além disso, possibilitará o aprofundamento das pesquisas sobre o Vale do Jequitinhonha num período importante da História Regional e até mesmo da História do Brasil. O jornal Geraes foi um veículo de comunicação muito importante num dado momento da afirmação político-cultural do Vale do Jequitinhonha e merece ser analisado com mais profundidade por todos aqueles que participam da luta para a construção de uma região com mais qualidade de vida e com as mesmas oportunidades que são dadas a outras regiões mineiras.

Neste sentido, a proposta de se lançar o livro em diversas cidades do Vale realizando debates sobre temas importantes para a região é também uma atitude louvável. Dada a extensa região que compreende o Vale do Jequitinhonha, além de sua heterogeneidade e complexidade, os temas foram muito bem escolhidos, porém na minha opinião entendo que os temas sobre política, cultura e meio ambiente deveriam estar presentes em todos os debates e cidades por terem problemas comuns em todo Vale do Jequitinhonha.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

JORNAL GERAES: VEÍCULO DE RESISTÊNCIA, DENÚNCIA E CULTURA

Tadeu Oliveira (*)

Imagem cedida por José Caludionor
Em fins da década de 1970, o quadro político nacional permitiu o surgimento e fortalecimento da imprensa alternativa, possibilitando aos estudantes e trabalhadores do Vale do Jequitinhonha que migraram para Belo Horizonte e outros centros urbanos o contato com várias destas publicações. Alguns destes estudantes militavam nos movimentos de esquerda durante o período mais crítico da ditadura.  Influenciados pelas idéias dos movimentos sociais, estudantis, políticos e culturais emergentes veiculadas nas páginas da imprensa alternativa, idealizaram juntamente com outros jovens residentes no Vale, a criação de um jornal alternativo.

Assim, em março de 1978, nascia o jornal Geraes. Inicialmente, a idéia dos fundadores era que sua circulação fosse restrita à região de Pedra Azul, Araçuaí, Almenara, Padre Paraíso, Jequitinhonha, Itaobim e cidades circunvizinhas. Entretanto, uma reportagem feita no jornal O Estado de São Paulo[1], sobre o Vale do Jequitinhonha fez este grupo mudar de idéia, conforme consta em diversos estudos sobre o tema.

A principal bandeira do Geraes era proporcionar ao povo do Vale um veículo onde se pudesse discutir os problemas da região, escutando e dando voz a todos que viviam em condições subumanas como forma de buscar “o melhor caminho para uma vida mais justa e humana”. Propunha ser uma “ferramenta de denúncia” frente à ditadura militar e desestruturar as organizações políticas instituídas com base no ranço coronelista. A estratégia era a divulgação das “formas de manifestações e organização” que surgiam “no Vale do Jequitinhonha (comunidades, associações, sindicatos)”. Outra estratégia utilizada era a interatividade com os leitores ao criar uma “rede de informações para construção e circulação do jornal” que contribuiu inclusive para cravar o conceito de homogeneidade à região.

Impresso em Belo Horizonte, o jornal era distribuído de forma gratuita. Jornal independente, posteriormente buscou se manter através de assinaturas de leitores residentes em algumas cidades do Vale e de patrocínios de algumas empresas e comerciantes regionais.  O período de vigência do jornal foi de 1978 até o ano de 1985, através de 23 edições (não havendo consenso sobre este número), o que compreende o fim do período ditatorial e início da abertura democrática da política brasileira.

Festivale: o Geraes na trilha da cultura

A partir de 1977, com a volta do movimento estudantil às ruas e, a partir de 1978, com o advento das grandes greves promovidas pelo movimento operário do ABC paulista, novos ventos sopraram sobre a discussão política e a luta pela democracia. No campo da cultura, entre os artistas e intelectuais de esquerda, renovou-se a vontade de uma participação política mais intensa, passando de uma fase de resistência para outra mais crítica e agressiva. Assim, os artistas tiveram participação decisiva junto aos movimentos de luta pela democracia. Por este período, a televisão já tinha se tornado um poderoso veículo de comunicação que, além de consolidar sua vocação para a teledramaturgia, promoveu a socialização e massificação da cultura.

Nesse contexto, muitos desses movimentos alternativos[2] influenciaram os editores e leitores do jornal Geraes, forjando o embrião do Festivale.  Era o que faltava para dar a forma do movimento cultural do Vale como um movimento alternativo.

 
Edição histórica do Jornal Geraes
Foto: Vilmar Oliveira

Cabe ressaltar dois fatos marcantes que antecederam ao surgimento do Festivale e que podem ser compreendidos como elementos catalisadores que impulsionou o jornal Geraes dar uma guinada estratégica para a cultura do Vale. Trata-se do lançamento do álbum Jequitinhonha – Notas de Viagem e o I Encontro de Compositores do Vale do Jequitinhonha. Com relação ao álbum, Luiz Santiago descreve, no seu livro O Vale dos Boqueirões – História do Vale do Jequitinhonha (1999), que ouviu-se falar “primeira vez em cultura do Vale do Jequitinhonha no fim de ’79. Estávamos no Palácio das Artes,. (...) Encontramos Leri, da dupla Leri e Melão. Ele contou que viajara pelas barrancas do Jequitinhonha, pesquisando música popular na região, que é fantástica – ele disse. Desde menino, já conhecíamos algumas cidades por ele mencionadas; a partir daí (...) a cultura do vale passou a nos interessar. Mais tarde, com o material reunido, mais alguma gravação em estúdio, a dupla Leri e Melão lançou o disco Notas de Viagem, que contou com a participação do Boi de Janeiro, de Itaobim, e dos tamborzeiros do Rosário, de Araçuaí” (pág. 325).

E ao promover, em 1979, o I Encontro de Compositores do Vale do Jequitinhonha, na cidade de Itaobim, que também sediou o primeiro Festivale em 1980, o movimento cultural usou da criatividade ao se apropriar de estratégias utilizadas pela ditadura militar para divulgar o evento. Para isso, fixaram cartazes em faculdades, bares e ruas do centro de Belo Horizonte, com cerca de quinze fotos três por quatro ampliadas e o título de “Procurados”, copiando o modelo das “peças de propaganda antiterroristas do regime militar”. Observando o cartaz de perto, percebia-se que os “procurados” eram “acusados de fazer música do Vale do Jequitinhonha e de serem desconhecidos do grande público (SANTIAGO, 1999)”. Em tempos marcados pela censura e pela perseguição política, o audacioso cartaz chamou a atenção da imprensa mineira, o que contribuiu para a divulgação do Encontro.

O sucesso do encontro de compositores serviu para que os artistas participantes “excursionassem” por diversas cidades do Vale do Jequitinhonha e Mucuri e também por Belo Horizonte. O mais importante foi que nesse encontro definiu-se o nascimento do I Festivale como um evento cultural anual e itinerante, com participação restrita a compositores nascidos ou residentes no Vale. Outro fato importante nesse encontro foi a criação do CCVJ - Centro Cultural do Vale do Jequitinhonha que, juntamente com o jornal Geraes se encarregaram de organizar o movimento cultural do Vale. Porém, movimentos de dissidência provocaram a criação de outras entidades representativas. Mas isso é uma outra história.

[1] Trata-se da reportagem O progresso chegando ao Vale da fome, assinada por Ricardo Kotscho e publicada no jornal O Estado de São Paulo, no dia 28 de agosto de 1977, p. 28. Esta informação foi retirada do livro de Luís Santiago, “Vale dos Boqueirões: História do Vale do Jequitinhonha”, Edições Boca das Caatingas (1999) e a citação da reportagem, inclusive com parte do trecho da mesma, pode ser lida no livro  de Dalva M. Oliveira, “A Arte de Viver: Riqueza e Pobreza no Médio Jequitinhonha. 1970-1990”, Editora da PUC-SP – EDUC (2007).

[2] Desses movimentos, os de maiores destaques foram: a vanguarda paulista, em São Paulo; grupos e músicos individuais com o Boca Livre, Luli e Lucina, Jacques Morelembaum, no Rio de Janeiro; Antônio Nóbrega e o Movimento Armorial proposto por Ariano Suassuna, em Pernambuco e Paraíba; a cultura serteneza proposta por Elomar e Xangai, na Bahia; e em Minas Gerais nomes como Titane, Dorothy e Dércio Marques, o próprio movimento cultural do Vale entre outros. Os movimentos dos estados nordestinos foram os que mais influenciaram o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha. Nomes de MPB como Chico Buarque, Geraldo Vandré, João Bosco, Luiz Gonzaga dentre outros, também influciaram os artistas do movimento. NAPOLITANO (2008, pág. 125).

 
(*) Este texto é uma adaptação do capítulo 2 que integra a minha monografia, conforme indicação bibliográfica abaixo:

SANTOS, Geraldo Tadeu de Oliveira. Movimento Cultural do Vale do Jequitinhonha: imprensa alternativa e cultura popular na formação da identidade regional (1978-1990). FAFIDIA/FEVALE/UEMG. Capelinha, 2009. Sem publicação.


Para saber mais sobre o assunto indico alguns livros e textos listados abaixo:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARAÚJO, Maria Paula Nascimento. A utopia fragmentada: as novas esquerdas no Brasil e no mundo na década de 1970. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000.

GERAES. Belo Horizonte, ano I, n. 1, maio 1978, p. 2. In LANA, Jonas Soares. Os FESTIVALEs e os movimentos sociais do Vale do Jequitinhonha: canção, mediação cultural e identidade regional (1978-1989). Belo Horizonte, 2008.



RAMALHO, Juliana Pereira & DOULA, Sheila Maria. O Jequitinhonha nas páginas do jornal Geraes: cultura e territorialidade. Contemporâneos: Revista de Artes e Humanidades (Online), v. 4, p. 1-20, 2009.

SANTIAGO. Luís. O Vale dos Boqueirões – História do Vale do Jequitinhonha. Almenara: Edições Boca das Caatingas, 1999.

SILVA, Dalva M. Oliveira. . A Arte de Viver: Riqueza e Pobreza no Médio Jequitinhonha. 1970-1990. São Paulo: Editora da PUC-SP - EDUC, 2007. v. 1.

NAPOLITANO, Marcos. Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980). São Paulo: Contexto, 2008.