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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A QUESTÃO CULTURAL

Há alguns anos, li esta crônica do Ziraldo e acho pertinente publicá-la nesse momento político pelo qual atravessamos. Confira:


A QUESTÃO CULTURAL
Ziraldo
(Estado de Minas - sexta-feira , 27/09/2002, Caderno EM Cultura, pág. 12)
Dando seguimento à minha viagem pelas palavras com as quais implico, aqui estou com uma palavra nova. Aliás, não implico com as palavras, implico - isto sim - é com o mau uso delas. Aquele negócio de não saber do que se está falando.

Vivo repetindo, e já devo ter dito aqui, que palavra não é grunhido, não é um som qualquer, inventado assim, sem mais nem menos. A palavra, quase sempre, contém nela mesma um universo de informação.

Se prestássemos mais atenção nelas, iríamos ver quanto economizaríamos de mal-entendidos, quanto ganharíamos na compreensão das coisas, como nos comunicaríamos melhor.

Isto, porém, é munição pra outro papo cabeça, vamos falar da palavra de hoje: cultura.

Ah, a cultura! Quanta bobagem se diz em seu nome.

Nesta eleição, então, tem candidato aí deitando e rolando.

O problema todo é que cultura é uma palavra de definição muito ampla. Ela vem do verbo latino colere, que significa, antes de tudo, colher. Nunca estou bem certo se a palavra primordial é o substantivo ou o verbo, se o que nasce primeiro é a coisa ou a ação que se refere a ela.

Em momentos de dúvida como este, tenho sempre a quem pedir socorro e um bom motivo para telefonar para os três maiores intelectuais da minha vasta família. Primeiro, o poeta, meu tio Ivo Barroso (tão jovem quanto eu, apesar de meu tio), que me ensinou tudo o que sei de literatura. Depois, o desembargador Silvio Teixeira Moreira, que se casou com minha irmã Santinha (passeando pela Europa, num congresso de juízes, ele se entendia com seus pares europeus, não em inglês ou esperanto, mas em latim) e, last but not least, o doutor Elson Pimentel (marido de outra minha irmã, Bebete) que, folgadamente, ocupo para as minhas dúvidas filosóficas já que ele, depois de uma longa carreira como físico nuclear, resolveu formar-se em filosofia, vocês aguentam?

Não queria contar pra ninguém, mas revelo o meu segredo: tudo o que digo aqui e que pode fazer-me parecer um homem culto é pura esperteza minha. Se não fossem eles...

Mas falando em culto, volto ao assunto. Estava justamente querendo entendera razão do amplo significado da palavra tema de hoje. E, depois de um tempão ao telefone com o jovem desembargador, decidimos que vamos pesquisar bastante para saber porque, do verbo latino colere, nasceu esta vasta palavra chamada cultura. Pelo que entendi, o particípio passado de colere é cultus, a, um, o que quer dizer "o que fez boa colheita'. Já cultura, culturus, a, um, é a forma passiva do futuro: "o que será cultivado". Que chegou até a língua portuguesa, contudo, como o nome do que se está cultivando.

Sílvio e eu nos prometemos - como já disse - que vamos aprofundar nossos estudos para descobrir os caminhos que esta palavra percorreu no tempo para representar para nós, hoje - a grosso modo - quatro coisas distintas: plantação, acúmulo de conhecimento, criação e criatividade de um povo (arte) e veneração (na forma culto e no verbo cultuar). No primeiro caso - plantação - cultura é o que será colhido (futuro). Tudo bem. No segundo caso, tendo colhido o que plantou, no sentido metafórico (retirar das fontes o fruto do conhecimento), o homem adquiriu cultura. Tomou-se culto. O quarto caso - cultuar, venerar - não nos interessa aqui. Fico, portanto, com o terceiro caso: o da "cultura" de um povo. Que é o que nos interessa neste momento em que vamos trocar de governo, na esperança de que chegue lá em cima alguém que entenda do riscado e se interesse por ele.

Já repeti aqui que os discursos dos candidatos, todos, sobre a questão cultural brasileira são, além de escassos, inteiramente equivocados. Nenhum deles tem uma resposta satisfatória porque nenhum deles está, realmente, preocupado com a questão.

Ora, o ser humano tem que respirar, tem que beber e comer, tem que defecar, tem que andar, tem que dormir e tem que se reproduzir.

Usando nossos cinco sentidos, estas são as nossas ações vitais. Organizado em sociedade, o ser humano tem que criar condições para que estas ações sejam satisfeitas. 

Para realizar essas ações, basta ao homem seu instinto de sobrevivência.

Ele não necessita qualquer auxílio da razão ou da inteligência para sobreviver.

Agora, por exemplo, quando cria odores para ter prazer em respirar; quando inventa o vinho ou descobre um modo especial de fazer sua comida;quando inventa um modo criativo de se locomover, quando descobre que pode dançar, cantar, pintar, reproduzir sua imagem; quando descobre que pode sonhar sem dormir, aí ele está fazendo cultura. Uma coisa que não é necessário ser feita para que ele não morra. Mas que lhe é fundamental! E necessária para que sua vida se aproxime mais de Deus, a sua maior criação.

Esta é a cultura que precisa ser entendida pelos governantes. Assim como eles sabem que têm que fazer estradas para que o homem se locomova, esgoto para que se livre de seus miasmas, hospitais para que suas excrescências não o matem; assim como os dirigentes sabem que têm que criar condições para que seus governados tenham formas objetivas de sobrevivência, eles têm que criar, também, condições - tão substantivas quanto - para que o homem realize sua cultura.

E isto porque esta cultura é tão importante para o ser humano quanto o ar que ele respira.

Quanto a esta cultura que é a aquisição de informações suficientes para fazer de cada um dos nossos cidadãos um homem culto - que compreenderia melhor este papo -, os governos têm estado,mal ou bem,aparelhados para resolver a questão.


Agora é hora de o presidente que viera nos governar entender que não adianta fazer uma escola para criar uma população culta se a outra cultura - a da criação - não tiver, no contexto, a mesma importância. Pra simplificar, não existe educação sem cultura. Não esta, aquela.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

MÚSICA NAS ESQUINAS E NAS PRAÇAS


Há exatamente dez anos, o poeta e cronista Fernando Brant escrevia esta crônica citando a participação do Coral Vozes das Veredas no 2º Festival de Corais de Belo Horizonte/2004. Esta crônica, que reproduzo abaixo, com certeza contribuiu imensamente para dar visibilidade ao trabalho junto à Adecave e abriu novas possibilidades para o coral de Veredinha. Confira:

MÚSICA NAS ESQUINAS E NAS PRAÇAS(*)
Por Fernando Brant

"As vozes de Três Corações, Itabirito, Uberaba, Veredinha, Belo Horizonte e do grupo Equale, do Rio de Janeiro, soaram em várias praças de nossa cidade"

A cidade foi invadida por vozes de meninos e meninas, de moças e rapazes, homens e mulheres. É só questão de idade e sexo, pois eu poderia dizer, e estaria certo, que Belo Horizonte foi possuída pelo canto de brasileiros vindos do interior, de fora de Minas e da capital. Pelo segundo ano seguido, os corais tomaram conta de nossas praças e espalharam harmonia, melodia e poesia por nosso novembro. Não sei se os meios de comunicação se interessaram, como deveriam, pelo acontecimento, mas quem soube, e apareceu para ver e ouvir, teve a oportunidade de se emocionar com a diversidade e beleza do canto coletivo.

O canto que bateu aqui veio de lugares distantes; de Veredinha, por exemplo. Mais de 30 crianças, a maioria meninas, colocaram em estado de graça o público que assistiu ao som e aos gestos de sua apresentação. Não sei se vocês sabem de Veredinha. É uma pequena cidade fincada no meio do Vale do Jequitinhonha, que tem Diamantina como porta de entrada e desfila povoações com nomes singelos como Capelinha, Minas Novas, Turmalina e Carbonita. Pois foi de lá, do fundo mais fundo do vale, pobre materialmente e rico em cultura, que o maestro Tadeu Oliveira trouxe o sublime cantar de suas meninas e meninos. Ouvir Itamarandiba, minha e do Milton Nascimento, cantada e interpretada por pequenos anjos negros, foi de arrepiar.


São coisas de responsabilidade do maestro Lindomar Gomes, um singelo encantador de notas musicais e de pessoas, que leva a vida sonhando e realizando sonhos. As idéias, sempre boas, surgem em sua cabeça, ele se entusiasma e logo sai à luta para torná-las fatos concretos. Não é de hoje que ele espalha música popular brasileira pelas igrejas de Minas. Diante do altar da religiosidade, as pessoas simples do povo ouvem com devoção as canções dos criadores populares de sua terra. O lugar de orar vira o lugar de cantar e essa é uma reza que sabemos fazer muito bem.


Tem asas o nosso maestro. O engraçado é que sua calma e sua voz mansa não parecem combinar com o empreendedor que ele é. É que nos acostumamos a encontrar, no mundo amalucado em que vivemos, a competência empresarial ser associada a pessoas que berram, atropelam os semelhantes e desrespeitam todas as normas mínimas de educação. Lindomar é da delicadeza e da eficiência. Rege sua turma com a fineza do maestro que é. Sua equipe de produção funciona como um naipe de vozes afinadas. Por ser tranqüilo e por liderar com sabedoria, os moços e moças que trabalham ao seu redor estão sempre alegres, dispostos e, por isso, belos.

As vozes de Três Corações, Itabirito, Uberaba, Veredinha, Belo Horizonte e do grupo Equale, do Rio de Janeiro, soaram em várias praças de nossa cidade, no último fim de semana. A beleza vale a pena. Ano que vem tem mais.

(*) Fonte: Esta crônica foi originalmente publicada no caderno EM Cultura do Jornal Estado de Minas do dia 01/12/2004. 
Também o integra o livro "Casa Aberta", que reúne diversas crônicas de Fernando Brant, publicado pela Editora Edubolsinho, Sabará-MG, 2012.

Leia também: 

O CANTO QUE VEIO DO FUNDO MAIS FUNDO DO VALE

ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (1ª PARTE)


ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (2ª PARTE)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RODA PIÃO, BAMBEIA PIÃO


Fernando Brant

Estou na cozinha da casa de Vera Brant, cercado, como é de hábito, por gente sensível, inteligente e criativa. Lá fora, na noite, o flamboyant impera. Tenho ao meu lado, no melhor lugar de todas as casas, o maestro Jobim e Gonzaguinha. Diante de quem tem o que dizer, e pensa com profundidade mesmo as coisas do cotidiano, prefiro falar pouco e ouvir.

A cerveja molha as gargantas e os bolinhos de feijão nos alimentam. A música, a poesia, as pessoas e o mundo eram nossos assuntos e o tempo parecia não existir. Mas estou agora ouvindo uma seresta à frente de nossa casa, em Caldas, Minas Gerais, na véspera do dia em que meu pai, juiz da comarca, se despedia da cidade para assumir o mesmo cargo em Diamantina. As imagens são nubladas quando me lembro do ocorrido. Não tinha completado 5 anos. Ficaram os sons da saudade dos que ficavam e da gratidão dos que partiam.

E agora estou, de calças curtas e mirando o presente, pisando nas pedras capistranas do Tijuco com minhas sandálias de sola de pneu, que nunca acabam. Vou comprar a revista O Cruzeiro para meus pais e aproveito e adquiro o primeiro exemplar brasileiro da Luluzinha e sua turma.

O Zé Aparecido me leva para jantar com ele no Palácio dos Buritis. Eu e o Hildebrando Pontes nos surpreendemos com a presença iluminada e bem-humorada do Oscar Niemeyer. Foi uma alegria sem precedentes, dessas que só o Zé tinha capacidade e generosidade de oferecer aos amigos.

No Bar Scotelaro, em Belo Horizonte, rompo a madrugada bebendo cerveja com Dedé, Caetano Veloso e minhas irmãs Vina e Ana. Ali mesmo iniciara, numa noite de novembro, a comemoração pelo nascimento de minha primeira filha e, mais tarde, da segunda.

Com paletó do Toninho Horta, calça preta minha e gravata borboleta de não sei quem, subo ao palco do Maracanãzinho entupido de gente para, a seu lado, assistir ao meu parceiro, Milton Bituca do Nascimento, cantar a nossa Travessia, que abria todos os horizontes para nós.

No meio de todo esse rodopio temporal e geográfico, a memória me leva e traz pelos caminhos de minha existência. Não me lembro como começou nem sei como se encerrará. Mas aprendi muito, disso tenho certeza. Quando olho para os que me cercam, a vontade que tenho é de gritar ao mundo que é com afeto, compreensão, carinho que seremos saudáveis parceiros na construção de um mundo mais justo.

A consciência de que podemos conviver em harmonia e a sede de beleza que só a amizade, o amor e a cultura podem nos ofertar me embala a fazer rodar o pião que vai encantar as crianças do mundo.

Fonte: EM Cultura - Jornal Estado de Minas, 12/12/2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

GONZAGA, PAI E FILHO


Os anos se passaram e nos tornamos amigos absolutos

Por Fernando Brant

Na tela explodem corações. Na plateia, lágrimas pela história comovente e canto silencioso pelas belíssimas canções. Dois talentos da música popular brasileira, que a vida juntou pelo sangue e desuniu no dia a dia da carreira de um e do crescimento do outro. Desencontros familiares levados ao extremo.

Um era o Luiz Gonzaga, ídolo maior de gerações de brasileiros. Este, quando as astúcias cruéis do mercado acenavam com o ostracismo, teve as mãos do filho para trazê-lo de volta aos palcos com o nome de Gonzagão para contrastar com o filho, Gonzaguinha. Para voltar a ser considerado grande teve que se unir ao moleque.

O Luizinho eu conheci, lá pelos idos de 1968, batendo na porta de um apartamento em Copacabana. Queria falar com o Milton Nascimento para lhe pedir que cantasse sua música, O trem, num festival estudantil da antiga TV Tupi. Mas o Milton estava em Minas por alguns dias. Eu e a namorada passávamos um tempo no pequeno apartamento da Travessa Angrense. Depois de três tentativas ele desistiu e resolveu cantar ele mesmo a canção. Assisti pela televisão à sua vitória e ao início de seu sucesso.

Os anos se passaram e nos tornamos amigos absolutos. Morou primeiro em minha casa, na Cachoeirinha, já com intenção de morar em Minas. Depois, com a companheira mineira, fez sua própria casa, lugar de encontro, por 10 anos, de muitos amigos da vida cultural de Belo Horizonte. Na cozinha de minha casa, sentávamos ele, eu e minha mulher em uma pequena mesa de pequenas cadeiras, de minhas filhas, e passávamos horas em conversas sobre o mundo, o Brasil, a vida e tudo o mais. Assisti ao constante aprimoramento de sua delicadeza. Sua história era repleta de mágoas, injustiças. Mas ele guardou bem o amor e a generosidade de Dina e Xavier, que o criaram no Morro de São Carlos. Foi tecendo aos poucos sua obra original, conquistou multidões, embalou corações.

Ao mesmo tempo, foi costurando a abertura do livro de sua vida, começando por gravar uma série de diálogos ásperos e elucidadores com o pai Gonzaga. Romperam-se todos os diques e, sem nenhuma psicanálise, foram os dois compondo um acerto de contas com o passado comum.

Das trevas do desentendimento foram surgindo pequenas luzes de compreensão, de respeito, peitos abertos para o que viesse. E o que veio foi a união dos dois diante de um tempo novo. E os dois cantaram juntos a canção imortal de brasilidade e beleza. E o povo cantou com eles: é a vida, é a vida, é a vida. Minha vida é andar por esse país pra ver se um dia me encontro feliz.

Obrigatório assistir ao filme Gonzaga, de pai para filho.

Fonte: Caderno EM Cultura - Jornal Estado de Minas - 28/11/2012

A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 2


Somos frutos das brincadeiras e dos jogos da nossa meninice

Por Fernando Brant

Eu estava ali, avô, entre as prateleiras da loja de brinquedos. Tinha um objetivo: comprar algo que fosse do agrado da Clara e do Lucas. Mas viajei pra longe no tempo, indo parar na contemplação de jogos que nem existem mais. Olhando as novidades de hoje, antes de me afastar mentalmente para época tão distante, eu quis mesmo foi refletir sobre minha entrada no mundo dos pais, quando se deixa de ser recebedor passando a comprador de presentes.

Uma matéria em um jornal falava de um museu de brinquedos, de pessoas que colecionam e consertam o que se brincava nos anos 70 e 80 do século passado. Fiquei com uma vontade forte de saber a localização de tais lugares.

Principalmente por querer rever uma usina de ritmo e alegria que um dia dei para minhas filhas. Era um carrinho a pilha, com um palhaço tocando um bumbo. Ao ser ligado, o carro se movimentava livremente pelo ambiente, o palhaço tocava e o som ritmado era uma festa para a criançada. As meninas dançavam e pulavam, sorrisos abertos. E o pai vibrava.

Várias vezes tentei comprá-lo para presentear outras crianças. Mas ele sumiu do mercado. Elas certamente se divertiram mais com as bonecas, os cadernos e os lápis coloridos, as massas para modelar e a diversidade de jogos que as fábricas inventam para a felicidade da meninada. Mas eu me lembro mesmo é dele, do “tatac”, nome que recebeu em nossa casa.

Voltando à realidade, naquele universo de ofertas, eu deveria escolher algo que agradasse minhas crianças de hoje. Não pode ser muito barulhento, para não encher o saco dos pais. Não pode ter peças pequenas, para que o veloz garoto de um ano e meio não ponha na boca e engula. Tem que ter o selo que indica que o produto não é tóxico. Mas tem de ser algo que seja bom para eles. A sensibilidade de avô pede ajuda ao menino que fui para poder me desempenhar bem da tarefa. Claro que com a ajuda da avó, que reclama que eu não tenha falado no dia dela, na primeira parte desta crônica, quando me referi às varias datas comemorativas que o comércio e a tradição criaram.

Vida de criança tem de ser brincadeira. Brincando, elas aproveitando o melhor de suas vidas e alegram a nossa. Essa manobra imaginária que fiz, esse ir e vir no tempo, de minha infância à das minhas filhas e delas para os dias de Clara e Lucas, me ajudou a me esmerar nas escolhas.

Não foi, no fim, difícil encontrar o que procurava, sem saber antes exatamente o que seria. A prova do acerto é que desconfio que o presente foi amado pelos pequenos, mas não só por eles. Vi interesse nos olhos dos adultos. Pois, enfim, somos frutos das brincadeiras e dos jogos que marcaram nossa meninice. E quem brincou está sempre disposto a voltar a brincar, o que torna mais suportável contemplar o lado cruel do nosso mundo.

“Há um menino, há um moleque, morando sempre em meu coração.”

Fonte: Caderno EM Cultura - Jornal Estado de Minas - 24/10/2012

LEIA TAMBÉM: A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 1

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

FIM DE SEMANA EM DIAMANTINA



Fernando Brant

Chovia, na estrada e na cidade. Voltar à terra em que passei parte importante da infância é sempre bom para mim. Ainda mais que a maioria das casas, das ruas e o cenário pouco mudaram,passados tantos anos.Essa é a vantagem de se viver em cidades tombadas pelo Patrimônio Histórico. O certo é que sempre que posso, e posso menos do que mereço,pego o carro e me dirijo às pedras capistranas de Diamantina.

O motivo desta vez era o Diamantina Gourmet, festival gastronômico que se realiza ali por duas semanas. Os diamantinos são muito criativos, não gostam de copiar o que existe.Assim é que, ao contrário de muitas festividades desse tipo, em que se costuma chamar os grandes mestres da culinária para exibir seu saber na arte de cozinhar, ali se partiu de um outro princípio.

Os mestres foram convidados, com antecedência,para ministrar cursos para os profissionais de lá.O intercâmbio trouxe o conhecimento de fora, que foi incorporado às habilidades próprias da gente do lugar. Os vários restaurantes do velho Tijuco podem agora nos presentear com o sabor e a riqueza da insuperável cozinha mineira, acrescida da ciência que se adquiriu nos cursos. O Clube da Esquina foi o homenageado da festa deste ano.

Um dia, estava eu quieto em minha casa em Beagá, e fui acionado pela Mariana, da Pousada do Garimpo. Ela tinha escolhido uma música, San Vicente, minha e do Milton, para ser o tema do prato que ela queria oferecer aos convidados. Conversamos sobre a letra e, findo o telefonema, fiquei imaginando como ela resolveria em comida o que dissera em palavras a respeito de um tempo conturbado do nosso continente sul-americano. Ela me surpreendeu agradavelmente, juntamente com o chef Vandeca, com a compreensão do sentido mais profundo da canção: a integração entre os povos aqui do nosso lado da América,mensagem implícita, em meio à dor daquele tempo.

Coma chuva e o frio me dediquei às melhores qualidades de Diamantina: bebida, comida, amizade e música. O meu prato ficou supimpa. Entrada: ceviche peruano agregado aos nossos surubim e abacate manteiga e insumos orgânicos. Prato principal:lombo ao vinho com virado de quinoa (originário do Peru, Colômbia e Chile) e couve mineira e batatas ao molho huncaina da Venezuela. Na sobremesa, quiseram se alimentar de nós. Fernando, Milton e Mercedes Sosa foi o nome que deram à combinação de doce de leite, queijo, compotas e pastelzinho.

Até domingo você pode ir até lá, curtir Diamantina e comer outras delícias como a esfiha de carne moída e ora-pro-nóbis. Recomendo essas e outras alegrias diamantinas.

P.S.: Diante de minha queixa, a Copasa veio à minha casa e resolveu todas as questões expostas por mim na semana passada. Eles estão alertas e eu satisfeito.

Fonte: Caderno EM Cultura, Jornal Estado de Minas, 14/11/2012.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 1


Fernando Brant

Dia das crianças, dias das mães e dos pais, dia do índio, dia da mulher, dia do negro. Uns foram criados pelo comércio, ávido de aumentar seu faturamento. Outros lembram lutas centenárias. Mas confesso não assimilar bem essas efemérides. Todo dia é dia da criança, da mãe e do pai. Todo dia é dia do índio, da mulher e do negro. Todo dia é dia de todo mundo. Para que inventaram isso? – eu me pergunto.

Começo com a data em que as crianças são festejadas. Penso nos brinquedos que já comprei e nos que comprarei. No tempo em que minhas filhas eram pequenos amores a enfeitar a minha vida, eu dedicava a elas todo o meu calendário. Beijos, abraços e carinhos. Presença, muita presença, o que era bom para elas e para mim. Minha profissão, sem burocracia nem horários rígidos, ajudava. E assim, estamos aqui, respirando uma cumplicidade que é fonte para a minha existência.

Comprei para elas brinquedos que nunca imaginara ter. Quando eu era a criança, tudo era mais artesanal. Já existiam, ó modernos, bicicletas, velocípedes e os melhores jogos de mesa. Nem sonhava com os aparatos tecnológicos de hoje. Mas o que eu gostava mesmo era de brincar na rua com os amigos. Futebol, bente altas, finca, bolinha de gude. Fora as doideiras, quem não malucou quando criança? Ficava horas em frente à basculante da janela de casa imaginando que era motorneiro de bonde.

Percorria em pensamento todo o percurso, rua após rua, parando a cada ponto de embarque e desembarque, que eram chamados de abrigos, apesar de serem descobertos e não proteger os passageiros nem do sol nem da chuva. Como eu viajei pelas ruas de Belo Horizonte na imaginação. Imitava a cada movimento todos os barulhos que a máquina fazia. Pois eu era um conhecedor daquele veículo, amigo dos que trabalhavam na minha linha.

Anos mais tarde, a lembrança forte do que foi o meu maior amigo entre os que conduziam o bonde do Bairro da Serra, me deu a ideia de escrever uma das minhas canções que mais me agradam: Saudades dos aviões da Panair – Conversando no bar.

Ao lado do Zé Motorneiro, admirando os movimentos de acelerar e frear que ele executava, eu ouvia suas histórias sobre a 2ª Guerra Mundial. O frio da Itália, as batalhas e perigos que viu e enfrentou, o tiro que ele não levou.

O que eu sou hoje devo muito aos Zés motorneiro, açougueiro, barbeiro e sapateiro. Os zés e as marias que povoaram minha infância me ajudaram a acreditar na simplicidade, no trabalho, na honestidade, no carinho e na alegria diante da vida, esse presente que recebemos para compartilhar com muito amor.

Fonte: EM Cultura, Jornal Estado de Minas -17/10/2012

LEIA TAMBÉM: A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 2

sábado, 6 de outubro de 2012

OS CANDIDATOS SÃO TODOS IGUAIS


“Estamos sujeitos ao governo do nascimento à morte. Política não é como jiló ou ópera. Ficar indiferente a ela tem um preço: ser refém do governante da vez”

Frei Betto

Época de eleição é época de emoção. A razão entra em férias, a sensibilidade fica à flor da pele. Em família e no trabalho, todos manifestam as suas opiniões.

O tom varia do palavrão a desqualificar toda a árvore genealógica do candidato à veneração acrítica de quem o julga perfeito. Marido briga com a mulher, pai com o filho, amigo com amigo, cada um convencido de que possui a melhor análise sobre os candidatos...

Um terceiro grupo insiste em se manter indiferente ao período eleitoral. Todos os candidatos são considerados corruptos, mentirosos, aproveitadores ou demagogos (ou tudo ao mesmo tempo).

Mas não há saída: estamos todos sujeitos ao Estado. Ficar indiferente é passar cheque em branco, assinado e de valor ilimitado, ao candidato vitorioso. Governo e Estado são indiferentes à nossa indiferença, aos nossos protestos individuais.

É compreensível uma pessoa não gostar de ópera, de jiló ou da cor marrom. E mesmo de política. Impossível é ignorar que todos os aspectos de nossa existência, do primeiro respiro ao último suspiro, têm a ver com política.

A classe social em que cada um de nós nasceu decorre da política vigente no país. Houvesse menos injustiça e mais distribuição da riqueza, ninguém nasceria entre a miséria e a pobreza. Como nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que veio a este mundo, somos todos filhos da loteria biológica. O que não deveria ser considerado privilégio por quem nasceu nas classes média e rica, e sim dívida social para com aqueles que não tiveram a mesma sorte.

Somos ministeriados do nascimento à morte. Ao nascer, o registro segue para o Ministério da Justiça. Vacinados, ao da Saúde; ao ingressar na escola, ao da Educação; ao arranjar emprego, ao do Trabalho; ao tirar habilitação, ao das Cidades; ao aposentar-se, ao da Previdência Social; ao morrer, retorna-se ao Ministério da Justiça. E nossas condições de vida, como renda e alimentação, dependem dos ministérios da Fazenda e do Planejamento.

Em tudo há política. Para o bem ou para o mal.

O Brasil é o resultado das eleições de outubro. Para melhor ou para pior. E os que o governam são escolhidos pelo voto de cada eleitor.

Faça como o Estado: deixe de lado a emoção e pense com a razão. As instituições públicas são movidas por políticos e pessoas indicadas por eles. Todos os funcionários são nossos empregados. A nós devem prestar contas. Temos o direito de cobrar, exigir, reivindicar, e eles o dever de responder às nossas expectativas.

A autoridade é a sociedade civil. Exerça-a. Não dê seu voto a corruptos nem se deixe enganar pela propaganda eleitoral. Vote no futuro melhor de seu município. Vote na justiça social, na qualidade de vida da população, na cidadania plena.

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, 67, o Frei Betto, frade dominicano, é escritor, assessor de movimentos sociais e autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros

Fonte: Folha de São Paulo, 14/09/2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

PÁSSAROS POEMAS

Fernando Brant


Queria falar da felicidade, do desejo consciente e inconsciente de ser feliz. É algo que se traz da infância, do companheirismo com a meninada, dos jogos de rua, da molecagem diária. Quanto mais o tempo passa para mim, mais me convenço de como é necessário que todos busquemos ser felizes.

São sentimentos para guardar por todo o nosso tempo.

A vida real, com suas tragédias e guerras, com o ódio e competição sem freios, parece nos levar para longe desse objetivo. Não que se diga “dane-se” ao mundo. Vivemos nele e não devemos nos eximir de responsabilidades.

Mas a bandeira que carrego, e vejo que muitos dos que amo e admiro também a empunham, é a procura de harmonia na vida pessoal, familiar e social. Para alcançar esse oásis em meio ao deserto não é necessário pisar em ninguém nem violentar qualquer princípio essencial.

Esse orientar-se no rumo da vida boa e plena nada tem de egoísta. Ao contrário, torcemos para que mais pessoas se juntem a esse nosso anseio. Quantos mais participarem dessa jornada, mais a boa-nova se espalhará. Não é ser irracional ou ignorar o mundo. É ter certeza de que o certo é gozar o dia, a existência.

Tem menino que é igual passarinho. Essa é uma impressão que trago de longe, desde que ouvia num parque em Diamantina a voz de Luiz Vieira cantando “sou menino passarinho com vontade de voar.” Sei de um, especial, Tavinho Moura, que acaba de tirar do forno um trabalho de mais de quatro anos: o livro Pássaros poemas – Aves na Pampulha. Sabe e pode muito esse criador excepcional, craque em tudo em que se aventura.

Inventor de belezas, estamos acostumados a ouvir suas canções de harmonias, palavras e melodias inusitadas, de carga lírica mineira, brasileira e universal. Violonista e violeiro, carpinteiro de mão cheia. Amigo para toda hora. Conhece peixes e árvores, plantas, frutas e doces. Principalmente, dá aulas, naturalmente, sobre passarinho.

Quantas vezes fiquei emocionado com suas descrições das aves que encontrou na meninice da Zona da Mata e com as que vai dando notícia por todos os cantos em que anda, em todos os livros que lê. Geralista dos melhores, escreveu a história da Maria do Matué, uma riqueza.

Eis que ele resolveu fazer um livro sobre os pássaros que circulam pela nossa Pampulha. Tratou, em primeiro lugar, de aprender e esmerar na fotografia. As fotos que ele criou para seu livro são de espantar, beleza sem medida. Escreveu poemas passarinheiros invejáveis. E ainda convidou amigos escritores para colaborarem com ele. O projeto gráfico de Mariana Hardy e as aquarelas de Sandra Bianchi completam a maravilha.

Salve, salve a felicidade.

Fonte: Caderno EM Cultura - Jornal Estado de Minas, 26/09/2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O EGOÍSTA E O SOLIDÁRIO


Fernando Brant

Gente existe que pensa que tem o rei no umbigo. Anda pela vida como se fosse o maioral, um deus a quem todos devem reverência. Pisa em quem estiver à frente, o que importa é que seus desejos sejam satisfeitos. Houve um tempo em que pensei que isso fosse exclusividade do capitalismo, que exacerba o individualismo e a competição desenfreada. Aprendi que não importa o nome do regime e que por baixo de discursos de desprendimento e compreensão coletiva se escondem farsas, mentiras e violência. É fácil amar a humanidade, essa abstração presente nas palavras dos sinceros e dos demagogos.

Difícil é, no dia a dia, no cara a cara com as pessoas, respeitar de fato as pessoas com quem convivemos nos lugares em que realmente habitamos: a casa, a rua, nossa cidade. Fala-se muito que padecemos de uma herança colonial que acostumou os que eram, e ainda se sentem, senhores a mandar e desmandar de acordo com sua conveniência. E que nem a independência e a proclamação da República apagaram essa mácula que nos acompanha até hoje.

A igualdade de todos perante o coletivo se apaga, o sociólogo Roberto da Matta nos lembra sempre, diante da frase abominável que ainda se ouve, infelizmente, em nosso país: “Você sabe com quem está falando?”. Quem diz isso é um idiota, que não compreende sua insignificância diante dos semelhantes e, muito mais, diante da vastidão do planeta, que é um grão de areia em relação ao que conhecemos do universo.

Sabemos de inúmeros exemplos de pessoas que se dedicam à solidariedade, à ajuda desinteressada aos outros. Eles são essenciais, embora pareça uma ilusão a ideia de que algum dia, pela tecnologia e pelo esforço de todos, se chegue a uma desigualdade menor, uma igualdade possível. Mas vamos, cada um, fazendo a sua parte. Nas relações do dia a dia em casa, no trânsito, no trabalho, na escola.

E é necessário que se lembre que a generosidade que existe no mundo vem muito mais de pessoas comuns, aquelas que vivem e sofrem o mesmo que seus vizinhos. Não de quem quer se promover, sair nos jornais e postular posições na política ou na sociedade.

Os egoístas são falastrões e pretendem ser os eternos mandões, mesmo que seu mandato tenha se encerrado e, mais importante, que ele seja apenas mais um na multidão. A democracia é o poder de todos, e ninguém manda em ninguém. Os solidários entendem isso, mas preferem se calar por recato.

A cultura, tão desprezada por nossos governos, nos traz sensibilidade, aguça a inteligência, abre caminhos para que compreendamos melhor o barro de que somos feitos. A razão e a falta dela estão com o Oriente e o Ocidente. Os bons não estão só de um lado, nem os maus. O ser humano é complexo, mas vale a pena.

Fonte: Jornal Estado de Minas, Caderno EM Cultura - 19/09/2012

domingo, 5 de agosto de 2012

OLIMPÍADAS, OS EXTREMOS



Por Affonso Romano de Sant'Anna

Primeiro esta observação quase estapafúrdia: as Olimpíadas derivam dos ritos funerários 700 anos antes de Cristo Parece um paradoxo: a excelsa celebração do corpo é um contraponto à decomposição do próprio corpo. É a vida vingando-se da morte. Todas as culturas têm ritos sofisticadíssimos para exorcizar a morte. Segundo um ditado antigo: os mortos governam os vivos. Segundo os maldosos: alguns governantes já morreram há muito, apenas se esqueceram de deitar o caixão.

Seja como for, a Olimpíada é o momento de esplendor da vida. É o momento em que o herói, por um instante, é imortal. Por isto, lhe conferem o ouro – o brilho, a perenidade, a glória. E nós assistimos a isso porque queremos ver a superação de nossas deficiências. Até os deficientes físicos têm sua Olimpíada. Eles, todos nós nos superamos por meio do outro.

Daí que as Olimpíadas sejam o momento em que os extremos se encontram, se chocam, se abismam e nos levam às alturas ou nos prostram aterrados. Ali está, por exemplo, aquela coreana lutadora de esgrima. Derrotada. Bastou um segundo para desgraçar-lhe quatro anos de preparação, destruir o sonho com o extasiante ouro olímpico. Ela está sentada com o florete abatido, inútil. Perplexa. A derrota a assombrou. Os juízes dizem que a oponente venceu, que ela tem que sair do pódio. Ela não sai. Fica ali 45 minutos. Destroçada. O estádio inteiro, as televisões do mundo inteiro de olho nela, esperando que assimile a derrota.

Ela tem razão, a derrota não é aceitável. Derrota é morte. E ela foi ali pela vida.

E ficamos divididos.

Se as Olimpíadas fossem só um festival de vitórias, seria um tédio. Onde a surpresa? O imprevisto? Onde o fracasso? O fracasso nos interessa, nos fascina. O fracasso nos torna novamente humanos.

Às vezes, por um instante, somos deuses. A chinesinha vem, dá aqueles saltos ornamentais fabulosos e temos certeza que ela é de borracha. Não é possível que um ser humano dê tantas piruetas e caia com a precisão de um objeto ou como se fosse uma figura projetada pelo computador. Estamos em êxtase. 

Mas vem outra atleta. E parece que está tudo bem, e está. Por enquanto. De repente, ela dá um salto sobre aquela barra de 10 centímetros e se estabaca como um mamulengo. Tornou-se um ser humano falível, desprezível, irremediável. E temos pena dela. Temos pena de nós mesmos. Por um momento fomos deuses. E fracassamos.

As multidões vão aos estádios festivamente, mas estão à mercê desse paradoxo. Mesmo os que parecem olhar desatentos a televisão num bar ou restaurante estão de olho no acaso. Eles querem testar, no outro, seus próprios limites. Quando alguém bate um recorde, provou-me que posso ir além de mim mesmo. Quando alguém fracassa, ensinou-me que não sou deus, sou um reles mortal. Sou, como dizia Eça de Queirós, “um pobre homem de Póvoa de Varzim”, ou, como disse Fernando Pessoa, “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Dizem que na Grécia antiga havia quatro instituições que organizavam a vida social: a política, a religião, a poesia e o atletismo. E o herói que recebesse mais prêmios na Olimpíada merecia um poema de Píndaro. Certa vez um desses poemas foi eternizado em ouro no Templo de Minerva. Pois bem. Lá vem o Michael Phelps com o peito cheio de medalhas. O homem é ouro puro. Destronou uma russa que era campeã de vitórias e hoje é avó.

Digam-me: se perguntasse a ele, em plena pós-modernidade, se quer um poema, o que ele diria?

Fonte: Jornal Estado de Minas - Caderno EM Cultura - 05/08/2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012

COTIDIANO BRASILEIRO

Fernando Brant

A cada dia precisa-se acordar mais cedo para ir em direção ao trabalho. Mora-se mais longe, o transporte público é uma lástima e quem disse que se trabalha oito horas por dia? E o tempo que se gasta da casa para o trabalho e do trabalho para casa não conta? Se não influi no salário, prejudica muito a vida das famílias dos brasileiros.

Os passageiros circulam pelas ruas da cidade como se estivessem em latas de sardinha. Se essas pessoas pudessem abandonar seus empregos, o que não fazem pela necessidade de sobreviver, a cidade, o estado e o país parariam. E quero ver de onde viria o dinheiro para sustentar as mordomias e inutilidades encenadas pelos legisladores e administradores públicos.

 Recente pesquisa do Superior Tribunal Federal (STF) indicou que cerca de 90% do que é aprovado pelas câmaras municipais, estaduais e federais é anulado por ser inconstitucional. Isso deveria ser uma preocupação básica de qualquer servidor público: ler e aprender o que diz a nossa Constituição. Ela é a bíblia, a referência maior da cidadania. Nela estão inscritos os direitos e garantias do cidadão, que não podem ser negados nem violados. E também as obrigações nossas e dos que alcançam os cargos políticos.

 Mas canso de ler as propostas absurdas que são apresentadas às comissões e aos plenários. Perda de dinheiro que é nosso e não pode ser rasgado pela incompetência e má-fé dos que se elegem pelo voto popular. Cada projeto desses deveria ser punido com desconto nos salários de quem gasta o que não é seu com tamanho destemor e irresponsabilidade.

 O mais lamentável é que não se enxerga uma saída para essa situação. Os governos, em sua maioria, são medíocres, não conseguem vislumbrar um palmo além de seus narizes insensíveis. Qual é o projeto de Brasil que está sendo debatido neste momento, ou que foi discutido em tempos recentes ou remotos? Não há pensamento, reflexão, lucidez. Vivemos de remendos, de tapar os buracos surgidos depois da tempestade.

 E haja cachoeiras de escândalo e roubo descarado de dinheiro público para desanimar de vez o brasileiro trabalhador. Vestem máscara de honradez os vampiros da nacionalidade.

Há muito boas perspectivas para o país e para os brasileios. Mas será que dessa vez vamos mesmo romper as fronteiras que nos separam do verdadeiro desenvolvimento com justiça social, saúde, educação e cultura? Não basta desejar, torcer, fazer fé. Precisamos de ação lúcida e consequente, que raramente encontramos em nossos governantes. Não suportamos mais esperar o paraíso e permanecer no risco de nos transformar em um grande Maranhão.

P.S.: Para ter certeza de que a presidente deve vetar ou não o Código Florestal, precisaria conhecê-lo bem. Todos os que estão se manifestando, a favor ou contra, leram o catatau?

Fonte: Caderno EM Cultura - Jornal Estado de Minas, 16/05/2012