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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A QUESTÃO CULTURAL

Há alguns anos, li esta crônica do Ziraldo e acho pertinente publicá-la nesse momento político pelo qual atravessamos. Confira:


A QUESTÃO CULTURAL
Ziraldo
(Estado de Minas - sexta-feira , 27/09/2002, Caderno EM Cultura, pág. 12)
Dando seguimento à minha viagem pelas palavras com as quais implico, aqui estou com uma palavra nova. Aliás, não implico com as palavras, implico - isto sim - é com o mau uso delas. Aquele negócio de não saber do que se está falando.

Vivo repetindo, e já devo ter dito aqui, que palavra não é grunhido, não é um som qualquer, inventado assim, sem mais nem menos. A palavra, quase sempre, contém nela mesma um universo de informação.

Se prestássemos mais atenção nelas, iríamos ver quanto economizaríamos de mal-entendidos, quanto ganharíamos na compreensão das coisas, como nos comunicaríamos melhor.

Isto, porém, é munição pra outro papo cabeça, vamos falar da palavra de hoje: cultura.

Ah, a cultura! Quanta bobagem se diz em seu nome.

Nesta eleição, então, tem candidato aí deitando e rolando.

O problema todo é que cultura é uma palavra de definição muito ampla. Ela vem do verbo latino colere, que significa, antes de tudo, colher. Nunca estou bem certo se a palavra primordial é o substantivo ou o verbo, se o que nasce primeiro é a coisa ou a ação que se refere a ela.

Em momentos de dúvida como este, tenho sempre a quem pedir socorro e um bom motivo para telefonar para os três maiores intelectuais da minha vasta família. Primeiro, o poeta, meu tio Ivo Barroso (tão jovem quanto eu, apesar de meu tio), que me ensinou tudo o que sei de literatura. Depois, o desembargador Silvio Teixeira Moreira, que se casou com minha irmã Santinha (passeando pela Europa, num congresso de juízes, ele se entendia com seus pares europeus, não em inglês ou esperanto, mas em latim) e, last but not least, o doutor Elson Pimentel (marido de outra minha irmã, Bebete) que, folgadamente, ocupo para as minhas dúvidas filosóficas já que ele, depois de uma longa carreira como físico nuclear, resolveu formar-se em filosofia, vocês aguentam?

Não queria contar pra ninguém, mas revelo o meu segredo: tudo o que digo aqui e que pode fazer-me parecer um homem culto é pura esperteza minha. Se não fossem eles...

Mas falando em culto, volto ao assunto. Estava justamente querendo entendera razão do amplo significado da palavra tema de hoje. E, depois de um tempão ao telefone com o jovem desembargador, decidimos que vamos pesquisar bastante para saber porque, do verbo latino colere, nasceu esta vasta palavra chamada cultura. Pelo que entendi, o particípio passado de colere é cultus, a, um, o que quer dizer "o que fez boa colheita'. Já cultura, culturus, a, um, é a forma passiva do futuro: "o que será cultivado". Que chegou até a língua portuguesa, contudo, como o nome do que se está cultivando.

Sílvio e eu nos prometemos - como já disse - que vamos aprofundar nossos estudos para descobrir os caminhos que esta palavra percorreu no tempo para representar para nós, hoje - a grosso modo - quatro coisas distintas: plantação, acúmulo de conhecimento, criação e criatividade de um povo (arte) e veneração (na forma culto e no verbo cultuar). No primeiro caso - plantação - cultura é o que será colhido (futuro). Tudo bem. No segundo caso, tendo colhido o que plantou, no sentido metafórico (retirar das fontes o fruto do conhecimento), o homem adquiriu cultura. Tomou-se culto. O quarto caso - cultuar, venerar - não nos interessa aqui. Fico, portanto, com o terceiro caso: o da "cultura" de um povo. Que é o que nos interessa neste momento em que vamos trocar de governo, na esperança de que chegue lá em cima alguém que entenda do riscado e se interesse por ele.

Já repeti aqui que os discursos dos candidatos, todos, sobre a questão cultural brasileira são, além de escassos, inteiramente equivocados. Nenhum deles tem uma resposta satisfatória porque nenhum deles está, realmente, preocupado com a questão.

Ora, o ser humano tem que respirar, tem que beber e comer, tem que defecar, tem que andar, tem que dormir e tem que se reproduzir.

Usando nossos cinco sentidos, estas são as nossas ações vitais. Organizado em sociedade, o ser humano tem que criar condições para que estas ações sejam satisfeitas. 

Para realizar essas ações, basta ao homem seu instinto de sobrevivência.

Ele não necessita qualquer auxílio da razão ou da inteligência para sobreviver.

Agora, por exemplo, quando cria odores para ter prazer em respirar; quando inventa o vinho ou descobre um modo especial de fazer sua comida;quando inventa um modo criativo de se locomover, quando descobre que pode dançar, cantar, pintar, reproduzir sua imagem; quando descobre que pode sonhar sem dormir, aí ele está fazendo cultura. Uma coisa que não é necessário ser feita para que ele não morra. Mas que lhe é fundamental! E necessária para que sua vida se aproxime mais de Deus, a sua maior criação.

Esta é a cultura que precisa ser entendida pelos governantes. Assim como eles sabem que têm que fazer estradas para que o homem se locomova, esgoto para que se livre de seus miasmas, hospitais para que suas excrescências não o matem; assim como os dirigentes sabem que têm que criar condições para que seus governados tenham formas objetivas de sobrevivência, eles têm que criar, também, condições - tão substantivas quanto - para que o homem realize sua cultura.

E isto porque esta cultura é tão importante para o ser humano quanto o ar que ele respira.

Quanto a esta cultura que é a aquisição de informações suficientes para fazer de cada um dos nossos cidadãos um homem culto - que compreenderia melhor este papo -, os governos têm estado,mal ou bem,aparelhados para resolver a questão.


Agora é hora de o presidente que viera nos governar entender que não adianta fazer uma escola para criar uma população culta se a outra cultura - a da criação - não tiver, no contexto, a mesma importância. Pra simplificar, não existe educação sem cultura. Não esta, aquela.

domingo, 12 de junho de 2016

ESCRITOR DE TURMALINA LANÇA LIVRO NO SEMINÁRIO VISÕES DO VALE X

O multifacetado artista Gilmar Souza lançará do livro “Entre a arte e a peleja”  
em Belo Horizonte


Gilmar Souza e o seu livro
Mais um grande momento na vida de arte e de peleja de Gilmar Souza. A sua grande façanha dessa vez, será no Seminário Visões do Vale X, nos dias 13 e 14 de junho, cujo tema definido para o evento deste ano é “Vale do Jequitinhonha: Desafios da urbanização”, realização do Programa Polo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha. 

Na oportunidade, o multifacetado artista Gilmar Souza lançará o livro "Entre a Arte e a Peleja". Esta sessão está prevista para o dia 14 de junho, às 11 horas, no auditório 1 da Faculdade de Ciências Econômicas (FACE), no Campus Pampulha.

Nascido em no Distrito de São Sebastião de Boa Vista, município de Chapada do Norte, esse trovador e contador de prosas e lorotas não falava nem andava até os cinco anos de idade. Diziam os curiosos que ele estava era inventando na surdina para soltar a língua mais tarde.

Professor de Ensino Religioso, Literatura E História, lecionou nas Escola Estadual Américo Antunes de Oliveira, CEART, EFAT e na Escola Municipal São João Batista.

Radialista, poeta cordelista, trovador, ator, estre de Folia de Reis, membro da Marujada de Nossa Senhora do Rosário Gilmar Souza é também apresentador de eventos e voluntário nos movimentos culturais e em várias instituições que prestam serviços socais.



Gilmar Souza com a lamparina na abertura das OlimPiadas
Espirituoso, Gilmar Souza tem passado a lamparina por algumas cidades do Vale do Jequitinhonha, uma vez que a tocha olímpica não alcançou alguns rincões. Ele diz que a cidade que quiser receber as "OlimPiadas" pode requisitar a passagem da lamparina.

Quando se vai a Turmalina não é difícil destacá-lo: sempre com seu chapéu na cabeça e o embornal do lado, ele vai ganhando o mundo com suas boas conversas, sempre levando, nas suas lorotas e prosas bem contadas, o nome da cidade de Turmalina. Afinal, segundo a escritora turmalinense Janeuce Cordeiro, um contador de prosas é sempre um ladrão de sorrisos, uma sementeira de alegria.


O LIVRO "ENTRE A ARTE E A PELEJA

Prefaciado pelo turmalinense Dr. João Valdir Alves de Souza, Professor Associado de Sociologia da Educação na UFMG e Vice-Diretor da Faculdade de Educação (FAE-UFMG), o livro de Gilmar Souza é recheado de prosas, trovas e potocas, folguedos e fanfarras. Gilmar também não se descuida do pedacinho do sertões que cruzou e nem da sua Turmalina, Turmalinda. Tradição, fé e religiosidade popular que permeia o Vale do Jequitinhonha que vale a pena viver e conhecer também são muito bem retratados por este poeta popular que nunca deixa de voltar às suas raízes. 


Se Gilmar Souza abusa das estórias hilárias que compõe o imaginário popular e de personagens singulares do Vale do Jequitinhonha, ele também nos leva a reflexões sobre temas como meio ambiente, inclusão social, a luta do dia-a-dia empreendida pelo povo da sua terra e da influência tecnológica sobre a cultura popular.

Dr. João Valdir diz que Entre a Arte e a Peleja, mais que o vocativo próprio de um título, traz duas palavras que suscitam ampla reflexão. Uma dela é a arte, que como muitas outras, é uma palavra polissêmica. De muitos significados e de variadas formas de combinação de seus usos, desde seu entendimento como travessura e traquinagem de meninos desinibidos até as mais elaboradas criações de profissionais que se dedicam, como artistas, a dar forma ao que há de mais sofisticado no pensamento humano.

Por outro lado, a palavra peleja, que deriva de pêlo, é uma palavra que remete a batalha, combate, contenda, labuta. Labutar é produzir arte com o próprio suor, mediante sacrifício, expondo a pele, o pêlo e o couro. E isso é o que faz Gilmar Souza na vida e no seu belo livro que ele passa a dividir agora com todos nós.

Outras informações sobre o evento estão disponíveis em nosso portal: www.ufmg.br/polojequitinhonha.
Solicitamos confirmar presença pelo e-mail:
polojequitinhonhaufmg@gmail.com

quinta-feira, 18 de junho de 2015

FERNANDO BRANT, O MENINO SENTINELA DAS ESQUINAS

by Rafael Senra (*) 
“Morte vela sentinela sou / do corpo desse meu irmão que já se vai / Revejo nessa hora tudo que ocorreu / memória não morrerá”.


Diante da perda de Fernando Brant, autor de algumas das mais emblemáticas canções do Clube da Esquina, me vem à mente uma de suas mais belas letras, “Sentinela”, e que uso aqui como metáfora para pensar a relevância e a perenidade do que ele e sua obra significam para a música popular brasileira.
“Sentinela” foi talvez a primeira letra em todo o lastro de canções do Clube a assumir um viés memorialista. De acordo com Brant:
“Sentinela” foi uma viagem imaginária, onde aproveitei uma referência pessoal para falar também da realidade política brasileira daquele momento, final dos anos 1960. A letra é um pouco anterior ao AI-5. Em princípio, eu tinha falado com o Bituca que iria fazer uma homenagem ao Seu Francisco, que servia café lá no Juizado de Menores, onde eu trabalhava. Para mim o Seu Francisco era um tipo de pessoa que significava um monte de coisas, um sábio. Era um cara do povo que estava vivo e forte, mas imaginei a história dele mais para frente, o dia de sua morte, o velório, e o que aquilo representava para mim. (…) Mas por isso mesmo, por ele ser esse irmão querido, eu tinha que continuar, ser fiel à memória dele (BRANT. Apud: VILARA, 2006, p.67).

Ainda no início do Clube da Esquina, um jovem Fernando Brant já se atentou para o fato de que a memória não é apenas algo estanque, cristalizada em livros de história e bustos de generais. Um dos mais fecundos legados da memória da humanidade está na oralidade, nas histórias passadas de geração por geração oralmente. Tanto é que mesmo culturas que não se amparam tanto na escrita quanto outras culturas ditas “civilizadas” tem também seu lastro de memória.

Um narrador de esquinas

Dentro do Clube da Esquina, acredito que as letras de Brant foram as que mais se propuseram ao dever de erigir mitos e documentos de seu universo (Minas Gerais). Ele acabou por encarnar o mesmo arquétipo de “narrador” que enxergara em Seu Francisco, personagem principal de “Sentinela”. Através do suporte da letra de canção popular, Brant se propôs a legar para as futuras gerações uma série de dados culturais de Minas Gerais que não poderiam se perder no tempo.

Essa figura do narrador foi muito bem descrita por Walter Benjamin, em seu ensaio Experiência e Pobreza:
“Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes com narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?” (BENJAMIN, 1993, p.114).

Documentos poéticos
Fernando Brant
Em 2008, quando entrei no mestrado em letras disposto a pesquisar as canções do Clube da Esquina, encontrei nas letras de Brant toda a profundidade que eu precisava. Como o mestrado da UFSJ se pautava pelo campo teórico conhecido como Estudos Culturais – que tratam de temas relacionados a memória, identidade, colonialismo, multiculturalismo, gêneros, etc. – , pude assim encontrar um viés bem adequado com a metodologia que iria aplicar.

Se fizermos um recorte das letras escritas por Fernando Brant, diversas delas apresentam um aspecto de narrativa, e, mesmo quando tratam de utopia, sempre partem do real (passado ou presente). Essa veia de “documentarista-poético” dos contextos vividos ou ouvidos guarda uma relação com o papel de um diretor de cinema, como nos relata o próprio Brant:
“Lembro-me que toda vez que saía de casa para ir a Biblioteca Pública, na praça da Liberdade, eu descia a Aimorés e subia a Brasil fazendo filmes, enquadrando tudo o que via. Meus olhos eram uma câmera. Na verdade, eu não tinha olhos, carregava o tempo todo uma câmera no rosto (BRANT, Fernando. In: VILARA, Paulo. Op.cit. pág.37).

Guardião da memória
O Clube da Esquina em Diamantina.
Da esq para a dir.: Lo Borges, Fernando Brant,
Juscelino Kubitschek, Márcio Borges
e Milton Nascimento.
O caminho estético que marcou Fernando Brant no Clube da Esquina teve similares na literatura. De acordo com Wander Melo Miranda, diversos escritores de Minas Gerais – como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes ou Pedro Nava – produziram textos memorialistas no período da ditadura militar. Sua intenção era a de evidenciar alguns traços valiosos da cultura que ameaçavam ser extintos através do projeto modernizador dos militares.

Diversas letras de Brant funcionam como rochas líricas que guardam estes monumentos perdidos da identidade mineira. Em Beco do Mota, ele fala de uma rua boêmia de Diamantina, e utiliza o fim dessa zona como metáfora para a repressão da ditadura.

Em Aqui Óh, ele fala dos nostálgicos “namorinhos de portão”, ao mesmo tempo em que discute também o caráter desconfiado e esquivo dos mineiros.

Em Nos Bailes da Vida, podemos sentir toda a emoção e a sinestesia da sofrida vida dos músicos que cumprem sua vocação, mesmo em condições pouco glamorosas.

Em Ponta de Areia, ele transforma em letra de canção uma matéria que fez quando era repórter da revista O Cruzeiro, sobre uma linha de trem que ligava os estados de Minas Gerais e Bahia. Em todo o circuito percorrido pelo trem, ele elenca diversos traços culturais que ameaçavam se perder em meio ao propósito militar (a começar pelo próprio transporte ferroviário).

Em Maria Maria, ele nos mostra a doída beleza da mulher humilde, da face feminina de um Brasil trabalhador, maternal, forjado na simplicidade.

Um sentinela no interior do Clube
É importante aqui pensar no que significa as letras de Fernando Brant dentro do Clube da Esquina. Se pegarmos o movimento como um todo, é possível notar um enfoque mais introspectivo da lírica geral. Há sempre um eu-lírico em primeira pessoa, que observa não só os fenômenos a seu redor, mas também narra seus próprios devaneios e utopias. As letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Murilo Antunes e outros se beneficiam bastante desse tipo de perspectiva. São fluidas, subjetivas, misteriosas.

O estilo de Brant guarda algumas diferenças com seus parceiros. É essa diversidade de panoramas (apesar de um ângulo lírico comum) que sedimentou a assinatura e a glória do Clube da Esquina. Porém, enquanto os outros letristas caminhavam de olho em nuvens ciganas, nascentes, ou mesmo girassóis da cor de cabelos, Brant mantinha o foco no chão.
Arriscando aqui um exercício metafórico, se eu fosse compor a paisagem lírica do Clube da Esquina, pensaria em Ronaldo Bastos como o vento, Márcio Borges como a água, e Fernando Brant como a pedra (não a toa, seu nome completo é Fernando Rocha Brant). É este último o mais atento na dimensão palpável e concreta do seu entorno.


Pedra mineira
Remetendo a Drummond, a letra de “Itamarandiba” (do disco de Milton Nascimento Sentinela (1980), diz: “No meio do meu caminho / sempre haverá uma pedra / Plantarei a minha casa / numa cidade de pedra”.

Ao buscar guardar a memória de Minas Gerais através das letras, Brant empreendeu um mergulho raical na própria essência desse alicerce cultural. Nesse movimento, creio que ele acabou se deparando com o universo da infância, com os valores primordiais da criança, sempre abertas para a amizade e o amor.

O próprio ethos do Clube da Esquina, já a partir do nome do movimento, trata exatamente desse encontro descompromissado da juventude, dessa amizade que não pede nada em troca, que apenas celebra a vida de maneira pura e jovial.

Se Fernando Brant era um alquimista da pedra filosofal da mineiridade, ele encontraria nos vestígios moleculares dessa rocha algumas verdades fundamentais. Ali, ele pôde ler que um amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves. Ou que o medo de amar é o medo de ser livre.

O Brant que conheci
Pude perceber, no breve contato pessoal que tive com Fernando Brant, que seu compromisso com a amizade era não só um pressuposto de estilo de escrita, mas também uma ética de vida.

Entrei em contato com ele em meados de 2010, depois de saber que ele se interessou em ler minha dissertação de mestrado. Ao enviar meu trabalho, perguntei se ele teria disponibilidade e interesse em redigir um prefácio para um futuro livro que eu cogitava publicar.

Ele não só escreveu um texto fantástico para o livro, como compareceu pessoalmente ao lançamento, que aconteceria em 2013. Foi uma surpresa vê-lo entrar na Livraria Quixote, em BH, com seu jeito discreto e simples.

No alto de tudo que aquele homem representa para a cultura brasileira, fiquei muito honrado e admirado de perceber que ele se encontrava aberto para comungar seu saber com um jovem pesquisador que lançava seu primeiro livro. A coerência entre a vida e a obra de Brant é um valioso ensinamento que levo comigo.
Eu e minha família transbordando de alegria ao encontrar Fernando Brant. 2013.
O menino
Em 2004, falecia o escritor mineiro Fernando Sabino, que deixara instruções para o epitáfio escrito em sua lápide: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. Dentre as coincidências que ligam os Fernandos Sabino e Brant (ambos mineiros, artistas, e morreram de câncer de fígado), há também o olhar especial para a infância em suas obras.

Porém, diferente de Sabino, que alega ter rejuvenescido ao longo de toda a vida (para então constatar sua “meninice” apenas nos anos derradeiros), acho que Fernando Brant nunca deixou de preservar seu feitio de criança, no melhor sentido do termo.

Desde a primeira vez em que bati o olho numa foto do compositor do Clube da Esquina, pensei comigo que ele tinha cara de menino. Diversas letras suas tratam do universo infantil: Bola de Meia, Bola de Gude é, talvez, a mais famosa delas.

Em entrevista ao jornalista Paulo Vilara, Brant dissertou sobre a importância de se observar com os olhos da criança que foi. Para ele, o adulto deveria honrar a criança que foi um dia.
Nesse momento de tristeza, quando nos deparamos com a “travessia” final desse ser humano cuja obra é tão importante para tanta gente, acredito que seu objetivo se cumpriu de maneira exemplar. Os que ficam são capazes de enxergar na figura de Fernando Brant a criança, e também o sentinela. Diante desse nosso irmão que que já se vai, revemos nessa hora tudo que ocorreu, com a certeza de que a memória não morrerá.

Referências
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.
VILARA, Paulo. Palavras Musicais – Letras, processo de criação, visão de mundo de 4 compositores brasileiros: Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, Chico Amaral. Belo Horizonte: S.ed., 2006.

(*) Rafael Senra é natural de Congonhas (MG) e atualmente em São João Del Rei (MG). Graduado em Letras e mestre em Letras pela UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei); doutorando em Letras pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Atualmente, além da tese, desenvolve artigos e ministra cursos e palestras. Também se dedica à literatura (contos, romances, poemas), ilustrações e quadrinhos, composições musicais e gravações.

Fonte: http://rafaelsenra.com/fernando-brant-o-menino-sentinela-das-esquinas/