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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RODA PIÃO, BAMBEIA PIÃO


Fernando Brant

Estou na cozinha da casa de Vera Brant, cercado, como é de hábito, por gente sensível, inteligente e criativa. Lá fora, na noite, o flamboyant impera. Tenho ao meu lado, no melhor lugar de todas as casas, o maestro Jobim e Gonzaguinha. Diante de quem tem o que dizer, e pensa com profundidade mesmo as coisas do cotidiano, prefiro falar pouco e ouvir.

A cerveja molha as gargantas e os bolinhos de feijão nos alimentam. A música, a poesia, as pessoas e o mundo eram nossos assuntos e o tempo parecia não existir. Mas estou agora ouvindo uma seresta à frente de nossa casa, em Caldas, Minas Gerais, na véspera do dia em que meu pai, juiz da comarca, se despedia da cidade para assumir o mesmo cargo em Diamantina. As imagens são nubladas quando me lembro do ocorrido. Não tinha completado 5 anos. Ficaram os sons da saudade dos que ficavam e da gratidão dos que partiam.

E agora estou, de calças curtas e mirando o presente, pisando nas pedras capistranas do Tijuco com minhas sandálias de sola de pneu, que nunca acabam. Vou comprar a revista O Cruzeiro para meus pais e aproveito e adquiro o primeiro exemplar brasileiro da Luluzinha e sua turma.

O Zé Aparecido me leva para jantar com ele no Palácio dos Buritis. Eu e o Hildebrando Pontes nos surpreendemos com a presença iluminada e bem-humorada do Oscar Niemeyer. Foi uma alegria sem precedentes, dessas que só o Zé tinha capacidade e generosidade de oferecer aos amigos.

No Bar Scotelaro, em Belo Horizonte, rompo a madrugada bebendo cerveja com Dedé, Caetano Veloso e minhas irmãs Vina e Ana. Ali mesmo iniciara, numa noite de novembro, a comemoração pelo nascimento de minha primeira filha e, mais tarde, da segunda.

Com paletó do Toninho Horta, calça preta minha e gravata borboleta de não sei quem, subo ao palco do Maracanãzinho entupido de gente para, a seu lado, assistir ao meu parceiro, Milton Bituca do Nascimento, cantar a nossa Travessia, que abria todos os horizontes para nós.

No meio de todo esse rodopio temporal e geográfico, a memória me leva e traz pelos caminhos de minha existência. Não me lembro como começou nem sei como se encerrará. Mas aprendi muito, disso tenho certeza. Quando olho para os que me cercam, a vontade que tenho é de gritar ao mundo que é com afeto, compreensão, carinho que seremos saudáveis parceiros na construção de um mundo mais justo.

A consciência de que podemos conviver em harmonia e a sede de beleza que só a amizade, o amor e a cultura podem nos ofertar me embala a fazer rodar o pião que vai encantar as crianças do mundo.

Fonte: EM Cultura - Jornal Estado de Minas, 12/12/2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

FIM DE SEMANA EM DIAMANTINA



Fernando Brant

Chovia, na estrada e na cidade. Voltar à terra em que passei parte importante da infância é sempre bom para mim. Ainda mais que a maioria das casas, das ruas e o cenário pouco mudaram,passados tantos anos.Essa é a vantagem de se viver em cidades tombadas pelo Patrimônio Histórico. O certo é que sempre que posso, e posso menos do que mereço,pego o carro e me dirijo às pedras capistranas de Diamantina.

O motivo desta vez era o Diamantina Gourmet, festival gastronômico que se realiza ali por duas semanas. Os diamantinos são muito criativos, não gostam de copiar o que existe.Assim é que, ao contrário de muitas festividades desse tipo, em que se costuma chamar os grandes mestres da culinária para exibir seu saber na arte de cozinhar, ali se partiu de um outro princípio.

Os mestres foram convidados, com antecedência,para ministrar cursos para os profissionais de lá.O intercâmbio trouxe o conhecimento de fora, que foi incorporado às habilidades próprias da gente do lugar. Os vários restaurantes do velho Tijuco podem agora nos presentear com o sabor e a riqueza da insuperável cozinha mineira, acrescida da ciência que se adquiriu nos cursos. O Clube da Esquina foi o homenageado da festa deste ano.

Um dia, estava eu quieto em minha casa em Beagá, e fui acionado pela Mariana, da Pousada do Garimpo. Ela tinha escolhido uma música, San Vicente, minha e do Milton, para ser o tema do prato que ela queria oferecer aos convidados. Conversamos sobre a letra e, findo o telefonema, fiquei imaginando como ela resolveria em comida o que dissera em palavras a respeito de um tempo conturbado do nosso continente sul-americano. Ela me surpreendeu agradavelmente, juntamente com o chef Vandeca, com a compreensão do sentido mais profundo da canção: a integração entre os povos aqui do nosso lado da América,mensagem implícita, em meio à dor daquele tempo.

Coma chuva e o frio me dediquei às melhores qualidades de Diamantina: bebida, comida, amizade e música. O meu prato ficou supimpa. Entrada: ceviche peruano agregado aos nossos surubim e abacate manteiga e insumos orgânicos. Prato principal:lombo ao vinho com virado de quinoa (originário do Peru, Colômbia e Chile) e couve mineira e batatas ao molho huncaina da Venezuela. Na sobremesa, quiseram se alimentar de nós. Fernando, Milton e Mercedes Sosa foi o nome que deram à combinação de doce de leite, queijo, compotas e pastelzinho.

Até domingo você pode ir até lá, curtir Diamantina e comer outras delícias como a esfiha de carne moída e ora-pro-nóbis. Recomendo essas e outras alegrias diamantinas.

P.S.: Diante de minha queixa, a Copasa veio à minha casa e resolveu todas as questões expostas por mim na semana passada. Eles estão alertas e eu satisfeito.

Fonte: Caderno EM Cultura, Jornal Estado de Minas, 14/11/2012.