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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

FERNANDO BRANT, O MENINO SENTINELA DAS ESQUINAS

by Rafael Senra (*) 
“Morte vela sentinela sou / do corpo desse meu irmão que já se vai / Revejo nessa hora tudo que ocorreu / memória não morrerá”.


Diante da perda de Fernando Brant, autor de algumas das mais emblemáticas canções do Clube da Esquina, me vem à mente uma de suas mais belas letras, “Sentinela”, e que uso aqui como metáfora para pensar a relevância e a perenidade do que ele e sua obra significam para a música popular brasileira.
“Sentinela” foi talvez a primeira letra em todo o lastro de canções do Clube a assumir um viés memorialista. De acordo com Brant:
“Sentinela” foi uma viagem imaginária, onde aproveitei uma referência pessoal para falar também da realidade política brasileira daquele momento, final dos anos 1960. A letra é um pouco anterior ao AI-5. Em princípio, eu tinha falado com o Bituca que iria fazer uma homenagem ao Seu Francisco, que servia café lá no Juizado de Menores, onde eu trabalhava. Para mim o Seu Francisco era um tipo de pessoa que significava um monte de coisas, um sábio. Era um cara do povo que estava vivo e forte, mas imaginei a história dele mais para frente, o dia de sua morte, o velório, e o que aquilo representava para mim. (…) Mas por isso mesmo, por ele ser esse irmão querido, eu tinha que continuar, ser fiel à memória dele (BRANT. Apud: VILARA, 2006, p.67).

Ainda no início do Clube da Esquina, um jovem Fernando Brant já se atentou para o fato de que a memória não é apenas algo estanque, cristalizada em livros de história e bustos de generais. Um dos mais fecundos legados da memória da humanidade está na oralidade, nas histórias passadas de geração por geração oralmente. Tanto é que mesmo culturas que não se amparam tanto na escrita quanto outras culturas ditas “civilizadas” tem também seu lastro de memória.

Um narrador de esquinas

Dentro do Clube da Esquina, acredito que as letras de Brant foram as que mais se propuseram ao dever de erigir mitos e documentos de seu universo (Minas Gerais). Ele acabou por encarnar o mesmo arquétipo de “narrador” que enxergara em Seu Francisco, personagem principal de “Sentinela”. Através do suporte da letra de canção popular, Brant se propôs a legar para as futuras gerações uma série de dados culturais de Minas Gerais que não poderiam se perder no tempo.

Essa figura do narrador foi muito bem descrita por Walter Benjamin, em seu ensaio Experiência e Pobreza:
“Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes com narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?” (BENJAMIN, 1993, p.114).

Documentos poéticos
Fernando Brant
Em 2008, quando entrei no mestrado em letras disposto a pesquisar as canções do Clube da Esquina, encontrei nas letras de Brant toda a profundidade que eu precisava. Como o mestrado da UFSJ se pautava pelo campo teórico conhecido como Estudos Culturais – que tratam de temas relacionados a memória, identidade, colonialismo, multiculturalismo, gêneros, etc. – , pude assim encontrar um viés bem adequado com a metodologia que iria aplicar.

Se fizermos um recorte das letras escritas por Fernando Brant, diversas delas apresentam um aspecto de narrativa, e, mesmo quando tratam de utopia, sempre partem do real (passado ou presente). Essa veia de “documentarista-poético” dos contextos vividos ou ouvidos guarda uma relação com o papel de um diretor de cinema, como nos relata o próprio Brant:
“Lembro-me que toda vez que saía de casa para ir a Biblioteca Pública, na praça da Liberdade, eu descia a Aimorés e subia a Brasil fazendo filmes, enquadrando tudo o que via. Meus olhos eram uma câmera. Na verdade, eu não tinha olhos, carregava o tempo todo uma câmera no rosto (BRANT, Fernando. In: VILARA, Paulo. Op.cit. pág.37).

Guardião da memória
O Clube da Esquina em Diamantina.
Da esq para a dir.: Lo Borges, Fernando Brant,
Juscelino Kubitschek, Márcio Borges
e Milton Nascimento.
O caminho estético que marcou Fernando Brant no Clube da Esquina teve similares na literatura. De acordo com Wander Melo Miranda, diversos escritores de Minas Gerais – como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes ou Pedro Nava – produziram textos memorialistas no período da ditadura militar. Sua intenção era a de evidenciar alguns traços valiosos da cultura que ameaçavam ser extintos através do projeto modernizador dos militares.

Diversas letras de Brant funcionam como rochas líricas que guardam estes monumentos perdidos da identidade mineira. Em Beco do Mota, ele fala de uma rua boêmia de Diamantina, e utiliza o fim dessa zona como metáfora para a repressão da ditadura.

Em Aqui Óh, ele fala dos nostálgicos “namorinhos de portão”, ao mesmo tempo em que discute também o caráter desconfiado e esquivo dos mineiros.

Em Nos Bailes da Vida, podemos sentir toda a emoção e a sinestesia da sofrida vida dos músicos que cumprem sua vocação, mesmo em condições pouco glamorosas.

Em Ponta de Areia, ele transforma em letra de canção uma matéria que fez quando era repórter da revista O Cruzeiro, sobre uma linha de trem que ligava os estados de Minas Gerais e Bahia. Em todo o circuito percorrido pelo trem, ele elenca diversos traços culturais que ameaçavam se perder em meio ao propósito militar (a começar pelo próprio transporte ferroviário).

Em Maria Maria, ele nos mostra a doída beleza da mulher humilde, da face feminina de um Brasil trabalhador, maternal, forjado na simplicidade.

Um sentinela no interior do Clube
É importante aqui pensar no que significa as letras de Fernando Brant dentro do Clube da Esquina. Se pegarmos o movimento como um todo, é possível notar um enfoque mais introspectivo da lírica geral. Há sempre um eu-lírico em primeira pessoa, que observa não só os fenômenos a seu redor, mas também narra seus próprios devaneios e utopias. As letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Murilo Antunes e outros se beneficiam bastante desse tipo de perspectiva. São fluidas, subjetivas, misteriosas.

O estilo de Brant guarda algumas diferenças com seus parceiros. É essa diversidade de panoramas (apesar de um ângulo lírico comum) que sedimentou a assinatura e a glória do Clube da Esquina. Porém, enquanto os outros letristas caminhavam de olho em nuvens ciganas, nascentes, ou mesmo girassóis da cor de cabelos, Brant mantinha o foco no chão.
Arriscando aqui um exercício metafórico, se eu fosse compor a paisagem lírica do Clube da Esquina, pensaria em Ronaldo Bastos como o vento, Márcio Borges como a água, e Fernando Brant como a pedra (não a toa, seu nome completo é Fernando Rocha Brant). É este último o mais atento na dimensão palpável e concreta do seu entorno.


Pedra mineira
Remetendo a Drummond, a letra de “Itamarandiba” (do disco de Milton Nascimento Sentinela (1980), diz: “No meio do meu caminho / sempre haverá uma pedra / Plantarei a minha casa / numa cidade de pedra”.

Ao buscar guardar a memória de Minas Gerais através das letras, Brant empreendeu um mergulho raical na própria essência desse alicerce cultural. Nesse movimento, creio que ele acabou se deparando com o universo da infância, com os valores primordiais da criança, sempre abertas para a amizade e o amor.

O próprio ethos do Clube da Esquina, já a partir do nome do movimento, trata exatamente desse encontro descompromissado da juventude, dessa amizade que não pede nada em troca, que apenas celebra a vida de maneira pura e jovial.

Se Fernando Brant era um alquimista da pedra filosofal da mineiridade, ele encontraria nos vestígios moleculares dessa rocha algumas verdades fundamentais. Ali, ele pôde ler que um amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves. Ou que o medo de amar é o medo de ser livre.

O Brant que conheci
Pude perceber, no breve contato pessoal que tive com Fernando Brant, que seu compromisso com a amizade era não só um pressuposto de estilo de escrita, mas também uma ética de vida.

Entrei em contato com ele em meados de 2010, depois de saber que ele se interessou em ler minha dissertação de mestrado. Ao enviar meu trabalho, perguntei se ele teria disponibilidade e interesse em redigir um prefácio para um futuro livro que eu cogitava publicar.

Ele não só escreveu um texto fantástico para o livro, como compareceu pessoalmente ao lançamento, que aconteceria em 2013. Foi uma surpresa vê-lo entrar na Livraria Quixote, em BH, com seu jeito discreto e simples.

No alto de tudo que aquele homem representa para a cultura brasileira, fiquei muito honrado e admirado de perceber que ele se encontrava aberto para comungar seu saber com um jovem pesquisador que lançava seu primeiro livro. A coerência entre a vida e a obra de Brant é um valioso ensinamento que levo comigo.
Eu e minha família transbordando de alegria ao encontrar Fernando Brant. 2013.
O menino
Em 2004, falecia o escritor mineiro Fernando Sabino, que deixara instruções para o epitáfio escrito em sua lápide: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. Dentre as coincidências que ligam os Fernandos Sabino e Brant (ambos mineiros, artistas, e morreram de câncer de fígado), há também o olhar especial para a infância em suas obras.

Porém, diferente de Sabino, que alega ter rejuvenescido ao longo de toda a vida (para então constatar sua “meninice” apenas nos anos derradeiros), acho que Fernando Brant nunca deixou de preservar seu feitio de criança, no melhor sentido do termo.

Desde a primeira vez em que bati o olho numa foto do compositor do Clube da Esquina, pensei comigo que ele tinha cara de menino. Diversas letras suas tratam do universo infantil: Bola de Meia, Bola de Gude é, talvez, a mais famosa delas.

Em entrevista ao jornalista Paulo Vilara, Brant dissertou sobre a importância de se observar com os olhos da criança que foi. Para ele, o adulto deveria honrar a criança que foi um dia.
Nesse momento de tristeza, quando nos deparamos com a “travessia” final desse ser humano cuja obra é tão importante para tanta gente, acredito que seu objetivo se cumpriu de maneira exemplar. Os que ficam são capazes de enxergar na figura de Fernando Brant a criança, e também o sentinela. Diante desse nosso irmão que que já se vai, revemos nessa hora tudo que ocorreu, com a certeza de que a memória não morrerá.

Referências
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.
VILARA, Paulo. Palavras Musicais – Letras, processo de criação, visão de mundo de 4 compositores brasileiros: Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, Chico Amaral. Belo Horizonte: S.ed., 2006.

(*) Rafael Senra é natural de Congonhas (MG) e atualmente em São João Del Rei (MG). Graduado em Letras e mestre em Letras pela UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei); doutorando em Letras pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Atualmente, além da tese, desenvolve artigos e ministra cursos e palestras. Também se dedica à literatura (contos, romances, poemas), ilustrações e quadrinhos, composições musicais e gravações.

Fonte: http://rafaelsenra.com/fernando-brant-o-menino-sentinela-das-esquinas/

sexta-feira, 12 de junho de 2015

TRIBUTO A MILTON NASCIMENTO

por Marcelo Costa, editor do site Scream & Yell

 

Carioca de certidão, mineiro de coração, Milton Nascimento integra o primeiro escalão dos nomes mais importantes da história da música brasileira. Seu disco de estreia, “Travessia”, foi lançado em 1967, um período de mudanças intensas (sociais, culturais e politicas). De cabeça aberta para o mundo, Milton experimentava. Se o primeiro disco trazia a bossa nova do Tamba Trio e no segundo, “Courage” (1968), os arranjos eram de Eumir Deodato e havia participação de Herbie Hancock, o quarto, “Milton” (1970), tinha acompanhamento do progressivo Som Imaginário (Wagner Tiso, Tavito, Zé Rodrix). O quinto disco foi lançado em 1972, dividido com Lô Borges, e recebeu o nome de “Clube da Esquina”.

“Era um coletivo, uma organização com cara da época. Eu vejo muito Beatles, rock progressivo, Crosby, Stills, Nash & Young naquele som. Mas é muito brasileiro e mineiro também”, resume Samuel Rosa, convidado a escrever sobre o Clube da Esquina para um especial sobre a história do rock brasileiro pela Superinteressante anos atrás. “Era uma molecada muito nova, sintonizada com o mundo. Vejo assuntos muito urbanos, como a solidão do garoto de rua, a repressão policial, a alienação das drogas. Era transgressor na atitude, mas era musicalmente radical também. Não era um tipo de música fácil. As guitarras tinham arestas, as harmonias eram difíceis. Era violão, mas era rock’n’roll”, ele resume.

Milton Nascimento seguiu produzindo clássicos nas décadas seguintes, e muitas dessas canções estão presentes no tributo duplo “Mil Tom”, que o Scream & Yell finalmente libera para audição online e download gratuito. Com produção assinada por Pedro Ferreira, “Mil Tom” traz artistas da nova geração da música brasileira recriando canções de vários períodos do repertório do Bituca. Dividido em duas partes, “Mil Tom” tem seu primeiro volume liberado no dia 10/06 e o segundo agendado para lançamento no dia 17/06. Há mais de cinco décadas, Milton encanta a todos com uma obra repleta de poesia e riqueza melódica, e “Mil Tom” é nossa forma de retribuir acompanhados do grande trabalho de artistas de 11 estados brasileiros.

Das 30 canções que compõe este tributo, nove são do “Clube da Esquina” (1972) e seis do “Clube da Esquina 2” (1978). “Minas”, de 1975, aparece com quatro canções. Do disco de estreia de 1967 saíram duas canções, assim como de “Caçador de Mim”, álbum de 1981. A canção mais recente é “Sereia”, parceria de Milton com Caetano, presente na trilha do filme “O Coronel e o Lobisomem”, de 2005. Há ainda faixas dos álbuns “Courage” (1968), “Milton” (1970) “Encontros e Despedidas” (1985), “A Barca dos Amantes” (1986), “Milton Nascimento” (1997) além de “Caxangá”, registrada no “Ao Vivo” de 1983, mas gravada por Elis Regina no álbum “Elis”, de 1977. Ouça o “Volume 1” abaixo ou baixe em MP3. Semana que vem tem mais!

Fonte: http://screamyell.com.br/site/2015/06/10/download-tributo-a-milton-nascimento/

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FAÇA O DOWNLOAD GRATUITO DE “MIL TOM - VOL 1” AQUI

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FAÇA O DOWNLOAD GRATUITO DE “MIL TOM - VOL 2” AQUI

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

MÚSICA NAS ESQUINAS E NAS PRAÇAS


Há exatamente dez anos, o poeta e cronista Fernando Brant escrevia esta crônica citando a participação do Coral Vozes das Veredas no 2º Festival de Corais de Belo Horizonte/2004. Esta crônica, que reproduzo abaixo, com certeza contribuiu imensamente para dar visibilidade ao trabalho junto à Adecave e abriu novas possibilidades para o coral de Veredinha. Confira:

MÚSICA NAS ESQUINAS E NAS PRAÇAS(*)
Por Fernando Brant

"As vozes de Três Corações, Itabirito, Uberaba, Veredinha, Belo Horizonte e do grupo Equale, do Rio de Janeiro, soaram em várias praças de nossa cidade"

A cidade foi invadida por vozes de meninos e meninas, de moças e rapazes, homens e mulheres. É só questão de idade e sexo, pois eu poderia dizer, e estaria certo, que Belo Horizonte foi possuída pelo canto de brasileiros vindos do interior, de fora de Minas e da capital. Pelo segundo ano seguido, os corais tomaram conta de nossas praças e espalharam harmonia, melodia e poesia por nosso novembro. Não sei se os meios de comunicação se interessaram, como deveriam, pelo acontecimento, mas quem soube, e apareceu para ver e ouvir, teve a oportunidade de se emocionar com a diversidade e beleza do canto coletivo.

O canto que bateu aqui veio de lugares distantes; de Veredinha, por exemplo. Mais de 30 crianças, a maioria meninas, colocaram em estado de graça o público que assistiu ao som e aos gestos de sua apresentação. Não sei se vocês sabem de Veredinha. É uma pequena cidade fincada no meio do Vale do Jequitinhonha, que tem Diamantina como porta de entrada e desfila povoações com nomes singelos como Capelinha, Minas Novas, Turmalina e Carbonita. Pois foi de lá, do fundo mais fundo do vale, pobre materialmente e rico em cultura, que o maestro Tadeu Oliveira trouxe o sublime cantar de suas meninas e meninos. Ouvir Itamarandiba, minha e do Milton Nascimento, cantada e interpretada por pequenos anjos negros, foi de arrepiar.


São coisas de responsabilidade do maestro Lindomar Gomes, um singelo encantador de notas musicais e de pessoas, que leva a vida sonhando e realizando sonhos. As idéias, sempre boas, surgem em sua cabeça, ele se entusiasma e logo sai à luta para torná-las fatos concretos. Não é de hoje que ele espalha música popular brasileira pelas igrejas de Minas. Diante do altar da religiosidade, as pessoas simples do povo ouvem com devoção as canções dos criadores populares de sua terra. O lugar de orar vira o lugar de cantar e essa é uma reza que sabemos fazer muito bem.


Tem asas o nosso maestro. O engraçado é que sua calma e sua voz mansa não parecem combinar com o empreendedor que ele é. É que nos acostumamos a encontrar, no mundo amalucado em que vivemos, a competência empresarial ser associada a pessoas que berram, atropelam os semelhantes e desrespeitam todas as normas mínimas de educação. Lindomar é da delicadeza e da eficiência. Rege sua turma com a fineza do maestro que é. Sua equipe de produção funciona como um naipe de vozes afinadas. Por ser tranqüilo e por liderar com sabedoria, os moços e moças que trabalham ao seu redor estão sempre alegres, dispostos e, por isso, belos.

As vozes de Três Corações, Itabirito, Uberaba, Veredinha, Belo Horizonte e do grupo Equale, do Rio de Janeiro, soaram em várias praças de nossa cidade, no último fim de semana. A beleza vale a pena. Ano que vem tem mais.

(*) Fonte: Esta crônica foi originalmente publicada no caderno EM Cultura do Jornal Estado de Minas do dia 01/12/2004. 
Também o integra o livro "Casa Aberta", que reúne diversas crônicas de Fernando Brant, publicado pela Editora Edubolsinho, Sabará-MG, 2012.

Leia também: 

O CANTO QUE VEIO DO FUNDO MAIS FUNDO DO VALE

ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (1ª PARTE)


ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (2ª PARTE)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O CANTO QUE VEIO DO FUNDO MAIS FUNDO DO VALE

"Ao perguntar ao maestro Lindomar Gomes o que o levou a apostar num coral desconhecido a ponto de convidá-lo para um evento tão grandioso tendo como referência apenas uma singela página de internet criada por mim, respondeu: 'a simplicidade e pureza'. E ao perguntá-lo novamente se isso por si só isso já seria suficiente para emocionar as pessoas a ponto de levá-las ao choro, ele novamente me respondeu:
'o coral de Veredinha toca o coração das pessoas porque canta com o fogo do amor'”.


 O coral em sua primeira apresentação no Museu Abílio Barreto/Bh em 2004.
Foto: Arquivo Canta Minas

Por Tadeu Oliveira

“Assim, se passaram dez anos”. Mas parece que foi ontem. Outro dia mesmo, o Coral Vozes das Veredas, dava os seus primeiros passos para cantar em outras plagas. Após três anos da sua fundação, eis que surgia uma oportunidade ímpar de participar do 2º Festival de Corais de Belo Horizonte, nos dias 26, 27 e 28 de novembro 2004, que homenageava o Clube da Esquina. O convite fora feito pelo idealizador e realizador do evento, o maestro Lindomar Gomes muito bem definido pelo poeta Fernando Brant como “um singelo encantador de notas musicais e de pessoas, que leva a vida sonhando e realizando sonhos”. O convite veio a calhar e nós audaciosa e despretensiosamente aceitamos. Afinal, desde a sua criação pela Adecave – Associação de Desenvolvimento da Criança e do Adolescente de Veredinha – em agosto de 2001, que o Coral cantava e encantava o Médio Jequitinhonha. As cidades de Capelinha, Turmalina, Minas Novas, Berilo e Francisco Badaró já haviam se embevecido com as melodias e harmonias emanadas pelas vozes de Veredinha.

A euforia e a ansiedade tomavam conta de nós naqueles dias. Eu e Mirinha, uma das coordenadoras do projeto da Adecave, cuidávamos dos preparativos para o grande evento buscando apoio e recursos para logística, escolhendo repertório, convidando músicos para acompanhar o coral, organizando ensaios e realizando oficinas com abordagens comportamentais e relações interpessoais com a psicóloga Lílian Murta. Até que chegou o dia de tomarmos o rumo da capital mineira para lá cantarmos pela primeira vez. Se para mim que apesar de já ter morado em Belo Horizonte nos anos de 1980 sentia-me como estivesse entrando num território desconhecido, imagine o que aquilo tudo poderia representar para aquelas crianças com idade entre sete e dez anos que mal conheciam os arredores de Veredinha!

A nossa primeira participação aconteceu na noite do dia 26 de novembro de 2004, sexta-feira, no museu Abílio Barreto após percorrermos por um dia inteiro os quase 500 km que separa Veredinha de Bh. Assim que chegamos com aquele bando de crianças com roupas em algodão cru, Mirinha e eu nos entreolhamos e sussurrei entredentes: – “Meu Deus do céu! O que viemos fazer aqui?” – acompanhado de um enorme frio na barriga e um aperto no coração. Mirinha corroborou meus sentimentos acrescentando que devíamos nos manter serenos para não transparecer qualquer insegurança. Não saberia precisar quanto tempo passou desde nossa chegada até a hora de nos apresentar. Foram momentos tensos e aflitivos. O ambiente tornara-se contraditoriamente inóspito apesar da beleza do Museu Abílio Barreto com seu casarão colonial e da recepção carinhosa e calorosa do maestro Lindomar Gomes e sua equipe. Nosso figurino, confeccionado em tecido próprios para sacos e com detalhes em chita colorida e totalmente diferente dos padrões adotados pelos corais que se via por ali, nos expunha ainda mais aos olhares curiosos. Outro fator altamente inibidor era o público presente, bem diferente daquele os quais já havíamos apresentado.

Logo que subimos ao palco, como um coro de anjos mestiços, o sublime cantar das meninas de Veredinha enfeitiçou os presentes.  Iniciamos com dois cânones que sempre abrem nossas apresentações: “Oração Indígena” e “Saudação Africana”. Como fumaça, os receios se dissiparam e logo seguida a gente cantou “Cantiga pra Lira” de Rubinho do Vale. Faltava ainda cantar uma música do Clube da Esquina e quando o coral cantou “Itamarandiba” de Milton Nascimento e Fernando Brant, a plateia já nos ovacionava. Plateia esta que contava com a presença do poeta e compositor Fernando Brant que naquela semana, mais precisamente no dia primeiro de dezembro de 2004, escreveria muitos elogios ao Coral de Veredinha na sua crônica semanal no jornal Estado de Minas, intitulada “Música nas esquinas e nas praças”, que mais tarde integraria o livro “Casa Aberta” pela editora Dubolsinho.

Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Toninho Horta
Vivenciamos ainda muitas outras emoções. Eu e o músico Fábio Cordeiro assistimos a um animado bate papo sobre o Clube da Esquina com Toninho Horta, Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, integrantes do movimento, no Espaço Cultural Phoenix da Universidade Fumec. E na companhia dos músicos Toninho Iglésias e César Loredo nos inebriamos aos sons do grupo carioca Equale, Affonsinho, Tavito, Telo Borges, Toninho Horta, 14Bis e Trio Amaranto na praça de Santa Tereza e na praça em frente a igrejinha da Pampulha.

Aliás, estas duas praças nos reservaram momentos jubilosos e extasiantes. Durante o dia, só se ouvia falar do coral e várias pessoas nos acompanhavam por onde fôssemos cantar. Na noite do dia de 27 de novembro o enorme público na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza, foi ao delírio na apresentação do Coral Vozes das Veredas. E lá, nos despedimos do Festival e agradecemos o carinho do público e dos organizadores, pois no dia seguinte o coral participaria do programa televisivo Dedo de Prosa, do capelinhense Juninho Elisiário, e faríamos um passeio com as meninas num shopping acatando sugestão de Rubinho do Vale. Para nossa surpresa, mal o programa terminou duas belas moças da organização do festival nos esperava e nos “intimou” a comparecer à praça da igrejinha da Pampulha por ordem do público presente. Não é preciso dizer que as crianças rejeitaram a ideia. Ao argumentar que, se nos propusemos a participar do Festival, deveríamos acatar o pedido, meu argumento as levou a irredutibilidade. Então, tive que apelar para os versos do poeta que diz que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.

Cantando na Pampulha
Mal descemos do ônibus na Pampulha e ouvimos o locutor anunciar entusiasticamente: “acaba de adentrar a praça o coral de Veredinha”. A praça foi ao delírio transformando as expressões carrancudas dos rostos infantis em largos sorrisos. Após o desfile de inúmeros corais pelo palco, antes do 14Bis fechar as cortinas do 2º Festival de Corais, as Vozes das Veredas incendiou o público. Surgia assim, para o cenário do canto coral de Minas Gerais, um canto novo do cantinho mais fundo do fundo do Vale do Jequitinhonha. 

Fernando Brant, Tadeu Oliveira e
o maestro Lindomar Gomes
Primeiro coral do Vale a cantar nesse evento, a história das Vozes das Veredas se entrelaçou à história do Festival de Corais de Belo Horizonte que se transformou no FIC - Festival Internacional de Corais. E minha trajetória pessoal no canto coral ganhou novos caminhos e experiências. Um dia, ao perguntar ao maestro Lindomar Gomes o que o levou a apostar num coral desconhecido a ponto de convidá-lo para um evento tão grandioso tendo como referência apenas uma singela página de internet criada por mim, respondeu: “a simplicidade e pureza”. E ao perguntá-lo novamente se isso por si só já seria suficiente para emocionar as pessoas a ponto de levá-las ao choro, ele novamente me respondeu: “o coral de Veredinha toca o coração das pessoas porque canta com o fogo do amor”. Isso explica a minha grande paixão por este grupo de meninas, pela cidade de Veredinha e pelo Vale do Jequitinhonha. E para finalizar, assim como iniciei esse texto com o primeiro verso de uma versão de Lourival Faissal para a composição de Rafael Hernández cantada pela baiana Gal Costa, encerro com o último verso da mesma canção: “E o resto desse romance só sabe Deus”.

sábado, 3 de agosto de 2013

CONHEÇA A HISTÓRIA DO EXTINTO CABARÉ MINEIRO

Casa de shows aberta na Rua Gonçalves Dias, na capital, em 1985 fez parte 
da cena cultural mineira e foi palco para consagrar artistas como 
Marisa Monte, Ed Motta e Cássia Eller 


Felipe Canêdo


Turma de Wagner Tiso foi responsável por levantar a casa e levar para lá 
os agitos mais quentes de BH


Entre 1985 e 1992, na Rua Gonçalves Dias, número 54, uma casa de shows e espetáculos fervilhava como um dos pontos nevrálgicos da borbulhante cena cultural mineira e brasileira do período de abertura democrática: o Cabaré Mineiro. Pouca gente que passa hoje pela região do Bairro Funcionários, povoada de lojas e edifícios comerciais, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, imagina que o local onde há um prédio residencial foi palco de shows ontológicos de artistas que depois se consagraram no cenário nacional, como Marisa Monte, Ed Motta e Cássia Eller, e de medalhões do jazz internacional, como Wayne Shorter, Wynton Marsalis e Joe Pass.

“O Cabaré Mineiro marcou época pela sua pluralidade. Não só por causa dos artistas que se apresentavam lá, mas porque ele tinha atividades das mais variadas matrizes artísticas de segunda a segunda”, avalia Cláudio Rocha, um dos sócios fundadores do empreendimento. Com capacidade para 600 pessoas, 400 sentadas, o espaço foi especialmente projetado para receber os agitos mais quentes da capital mineira. “Era um prédio muito bonito. Ele era especial. O levantamos do chão.

Tinha um terreno baldio ali, a gente alugou e levantou o Cabaré, foi um negócio muito bonito, a gente tinha muita vontade”, conta o músico Wagner Tiso, que além de ter sido sócio da casa também se apresentava lá com frequência.

O projeto arquitetônico, assinado por Milton Reis, era inspirado no Teatro Municipal de Sabará, tinha palco italiano e mezanino e foi ornamentado pelos artistas Marcelo Xavier e Mário Valle. As garçonetes universitárias do Cabaré também chamavam atenção e atraíam clientela. “Foi um lugar extremamente pitoresco, a gente tinha uma programação variada com shows, teatro, cinema, literatura e discussões. Acho que o Brasil não tem hoje uma casa como o Cabaré”, afirma Tiso, com um tom de nostalgia na voz.

“Tinha leilão de quadros, muita coisa interessante, tinha um movimento político legal, acompanhando esse momento do país renascendo. Tenho uma lembrança de uma casa muito boa. Sinto saudades”, diz a produtora cultural Nely Rosa, que frequentava assiduamente o Cabaré Mineiro. O projeto Sempre um Papo, que até hoje promove discussões e palestras com personalidades da cena cultural brasileira em Belo Horizonte, também passou por lá.

Música

“A gente não tinha nenhuma experiência nessa área de casas noturnas, eu (Cláudio Rocha) e Wagner Tiso. O Tadeu Rodrigues (posteriormente substituído por Ramon Fiúza) entrou para nos ajudar. Talvez por isso tenha dado certo, nós tínhamos um olhar muito cultural, claro que um olhar financeiro também, mas muito cultural”, lembra Rocha. Segundo ele, um dos primeiros shows da carreira de Marisa Monte aconteceu no Cabaré Mineiro. “Ela tinha tocado em um lugar pequeno no Rio de Janeiro, nós ficávamos muito atentos à cena cultural brasileira, então fizemos um show dela aqui e foi um sucesso, lotou. Foram três noites”, conta. Rocha cita também Ed Motta “Ele era desconhecido quando tocou no Cabaré”, diz. As
bandas Veludo Cotelê e Ouro de Tolo também marcaram época no palco do casa.

A ideia do Cabaré Mineiro surgiu da necessidade de haver um palco onde alunos da Música de Minas Escola Livre pudessem se apresentar. O empreendimento tinha como sócios Wagner Tiso, Cláudio Rocha e Milton Nascimento e funcionou entre 1980 e 1986. “Foi a primeira escola de música livre de BH e formou uma geração de músicos”, afirma Cláudio. Samuel Rosa, do Skank, Maurício Tizumba e Flávio Henrique foram alunos. Entre os professores estão Juarez Moreira, Gilvan de Oliveira e Babaya. Segundo Rocha, mais de
50% dos alunos da escola eram carentes e muitos deles eram bolsistas.

O Cabaré Mineiro fechou as portas em 31 de março de 1992 pois o dono do terreno onde ficava a casa não quis renovar o contrato de aluguel. Entre os vários artistas que se apresentaram estava Paulinho Pedra Azul, que lançou um livro de sua autoria naquela noite.
Atrações de renome Muitos artistas de renome se apresentaram no Cabaré Mineiro, como Adriana Calcanhotto, Leila Pinheiro, Nara Leão, Nana Caymmi, Cauby Peixoto, Luiz Melodia, Eduardo Dusek, João Bosco, Cida Moreira, Belchior, Jorge Ben e Banda Zé Pretinho, Jane Duboc, Lúcio Alves, Amelinha, Ednardo, Sivuca, Taiguara, Dominguinhos, Grupo Rumo, Ná Ozzetti, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Eliete Negreiros, Boca Livre, Olívia Byington, Paulo Moura. Pratas da casa, agitaram o palco do Cabaré Milton Nascimento, Wagner Tiso, Toninho Horta, Tavinho Moura, Beto Guedes, Lô Borges, Marco Antônio Araújo, Grupo Uakti, Paula Santoro, Titane e Sylvia Klein. Entre as atrações internacionais que passaram por lá, além de Wayne Shorter, Wynton Marsalis e Joe Pass, também se apresentaram Toots Thielmans e Al Di Meola.

Linha do tempo

1980
Wagner Tiso, Cláudio Rocha e Milton Nascimento abrem a Música de Minas Escola Livre

1985
Abertura do Cabaré Mineiro com programação inusitada e intensa

1986
Show de Sérgio Sampaio lota a casa

1987
A então desconhecida Marisa Monte é um sucesso e faz três apresentações no Cabaré

1990
Bandas Ouro de Tolo, Veludo Cotelê e Hocus Pocus se tornam frequentes, assim como a Banda Buick 90, que tocava todas as quintas-feiras

1992

Contrato de aluguel termina e o Cabaré Mineiro é fechado com grande festa


Fonte: Portal Uai: EM.COM.BR Publicação: 03/08/2013 06:00 - Atualização: 03/08/2013 07:06

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RODA PIÃO, BAMBEIA PIÃO


Fernando Brant

Estou na cozinha da casa de Vera Brant, cercado, como é de hábito, por gente sensível, inteligente e criativa. Lá fora, na noite, o flamboyant impera. Tenho ao meu lado, no melhor lugar de todas as casas, o maestro Jobim e Gonzaguinha. Diante de quem tem o que dizer, e pensa com profundidade mesmo as coisas do cotidiano, prefiro falar pouco e ouvir.

A cerveja molha as gargantas e os bolinhos de feijão nos alimentam. A música, a poesia, as pessoas e o mundo eram nossos assuntos e o tempo parecia não existir. Mas estou agora ouvindo uma seresta à frente de nossa casa, em Caldas, Minas Gerais, na véspera do dia em que meu pai, juiz da comarca, se despedia da cidade para assumir o mesmo cargo em Diamantina. As imagens são nubladas quando me lembro do ocorrido. Não tinha completado 5 anos. Ficaram os sons da saudade dos que ficavam e da gratidão dos que partiam.

E agora estou, de calças curtas e mirando o presente, pisando nas pedras capistranas do Tijuco com minhas sandálias de sola de pneu, que nunca acabam. Vou comprar a revista O Cruzeiro para meus pais e aproveito e adquiro o primeiro exemplar brasileiro da Luluzinha e sua turma.

O Zé Aparecido me leva para jantar com ele no Palácio dos Buritis. Eu e o Hildebrando Pontes nos surpreendemos com a presença iluminada e bem-humorada do Oscar Niemeyer. Foi uma alegria sem precedentes, dessas que só o Zé tinha capacidade e generosidade de oferecer aos amigos.

No Bar Scotelaro, em Belo Horizonte, rompo a madrugada bebendo cerveja com Dedé, Caetano Veloso e minhas irmãs Vina e Ana. Ali mesmo iniciara, numa noite de novembro, a comemoração pelo nascimento de minha primeira filha e, mais tarde, da segunda.

Com paletó do Toninho Horta, calça preta minha e gravata borboleta de não sei quem, subo ao palco do Maracanãzinho entupido de gente para, a seu lado, assistir ao meu parceiro, Milton Bituca do Nascimento, cantar a nossa Travessia, que abria todos os horizontes para nós.

No meio de todo esse rodopio temporal e geográfico, a memória me leva e traz pelos caminhos de minha existência. Não me lembro como começou nem sei como se encerrará. Mas aprendi muito, disso tenho certeza. Quando olho para os que me cercam, a vontade que tenho é de gritar ao mundo que é com afeto, compreensão, carinho que seremos saudáveis parceiros na construção de um mundo mais justo.

A consciência de que podemos conviver em harmonia e a sede de beleza que só a amizade, o amor e a cultura podem nos ofertar me embala a fazer rodar o pião que vai encantar as crianças do mundo.

Fonte: EM Cultura - Jornal Estado de Minas, 12/12/2012

SHOW NA IGREJA EM SANTA TEREZA


Gabriel Guedes lança o segundo disco de sua carreira
Foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
O cantor, compositor e instrumentista Gabriel Guedes escolheu um local inusitado para lançar seu segundo disco, batizado com o próprio nome. Ele vai fazer show hoje à noite, na Igreja de Santa Tereza, que fica no coração do bairro mais musical de BH.

Gabriel explica que a opção tem motivo para lá de sagrado: a acústica. “A igreja é revestida com sonex, espuma que abafa o som. Quando visitei a Holanda, assisti a vários concertos dentro de igrejas e resolvi trazer essa ideia para BH. Espero que o primeiro projeto com a curadoria da Igreja de Santa Tereza abra espaço para outras apresentações”, informa Gabriel.

O show desta noite contará com vários convidados: Rodrigo Borges, Marina Machado, Vladimir Magalhães, Jasmin Godoy, Daniel Romano, Bárbara Barcellos, Eduardo Sangy e Arthur Pádua. O grupo que o acompanhará foi especialmente montado para o espetáculo. A Orquestra Estratossônica de Minas Gerais reunirá Chico Amaral (saxofone), Neném (bateria), Magno Alexandre, (guitarra), Bruno Malagutti (piano e teclados) e Adriano Campagnani.

O novo CD traz a faixa Estrela cadente (com participação do pai de Gabriel, Beto Guedes, além de Lô Borges, Milton Nascimento, Toninho Horta, Flávio Venturini e Tavinho Moura). O primeiro disco do artista foi dedicado ao cancioneiro de seu avô Godofredo Guedes.

GABRIEL GUEDES
Igreja de Santa Tereza. Praça Duque de Caxias, s/nº, Santa Tereza. Hoje, às 20h30. R$ 40. Informações: (31) 3483-6341 e (31) 9811-6193.

Fonte: EM Cultura - Jornal Estado de Minas, 12/12/2012