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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

CANTOS E ENCANTOS DE UMA PRAÇA

"Era o ponto de encontro para várias situações: a reunião após as aulas, o ajuntamento para as peladas, pescarias e os bailes no Clube Ferroviário, 
a escuta de programas de rádio, as rodas de viola, cantorias e, claro, 
serenatas regadas com muito vinho São Roque"

Praça Raul Ribeiro Gorgulho, a pracinha
Foto: Tadeu Oliveira

Por Tadeu Oliveira

Lá pelos idos anos 70 e 80 do século XX, havia um grupo de amigos em Corinto que ficou conhecido como a Turma da Pracinha. Constituído por adolescentes de ambos os sexos, com faixa etária girando entre 15 e 18 anos, a maioria de nós morava no entorno e adjacências da Praça Raul Ribeiro Gorgulho ou simplesmente Pracinha. Tratá-la no diminutivo, muito mais que referir-se ao seu pequeno tamanho em comparação com as outras três praças centrais da cidade, era também um tratamento carinhoso por aquele espaço ajardinado.

Em formato de triangulo retângulo, com área aproximada de noventa metros quadrados com ângulos arredondados é produto do cruzamento de três ruas: Expedicionários, cortada perpendicularmente pela Risoleta Lima e ambas cortadas concorrentemente pela Benedito Barbosa. Constitui-se de cinco canteiros, sendo um em cada vértice e dois maiores no lado da hipotenusa e no cateto oposto de maior medida com tamanhos proporcionais. Antes da recente reforma, possuía mais dois canteiros em forma de círculo que circundavam os seus postes telecônicos em curva dupla, um na parte mais larga e outro na parte mais estreita da praça. Oito bancos de concreto distribuídos em simetria bilateral eram os suportes para a boa prosa e as cantorias em qualquer hora do dia ou da noite ainda que em várias ocasiões a polícia militar, em suas constantes rondas, nos colocasse para dormir mais cedo. Era ainda o tempo da ditadura e de seus excessivos controles.

Meus sobrinhos Patrícia, Marcelo e Clóvis na pracinha florida
Foto: Acervo da Família Romão
Fora construída na segunda metade da década de 1960 pelo então prefeito Joel Bezerra, quando demoliram a casa do coveiro Levi Vitorino e suas irmãs Sebastiana e Dulce. Era lá em frente que ficava o ponto do ônibus Guaicuí, que vinha de Belo Horizonte rumo a Pirapora. Todos os dias, por volta das dez ou onze da manhã o Guaicuí promovia momentos de “encontros e despedidas”. Naquele tempo, quem cuidou dos seus jardins foi o Conrado e depois o “seu” Zé Conceição. Através das mãos zelosas destes servidores municipais flores de variadas cores brotavam de seus canteiros: rosas, margaridas, violetas, damas da noite, copos de leite, girassóis, cravos, azaleias, gérberas, palmas, lírios. 

A primeira geração a frequentá-la teve os meus manos Márcio, Berico e Fernando, os vizinhos Élcio e Hélio de Ismael, Duca de Salatiel e contou com nomes que fizeram história na música de Corinto: Mauredson, que cantava no Corintian's Boys, Tino Barbosa, Chicão de Paula, Zeínha e muitos outros. Essa turma fazia da pracinha o ponto de encontro para rodas musicais e concentração para serenatas. Enquanto eles cantavam, nós ainda com as calças curtas brincávamos à sua volta de amarelinha, caiu no poço, rouba bandeira, pegador de lata, bente-altas, par-a-par, mãe da rua, soltar papagaio, “camone bói”(*). E uma ou outra vez, algum casal arriscava namorar naquele pedaço de paraíso.

À medida que crescíamos, testemunhávamos as intervenções humanas em volta da praça. Vieram o asfalto, as demolições e as novas construções. A casa de “seu” Zé Três Metros deu lugar a um enorme galpão que abrigou supermercado, banco e comércio de exportações de cristais. A casa de Agripino e dona Flor deu lugar a uma loja de tintas. A venda de “seu” Ismael abrigou o supermercado da COBAL e a boutique de Lurdinha locomoveu-se pelos diversos cômodos daquele prédio. A venda de Joaquim Camilo transformou-se em açougue e depois num prédio de dois pavimentos. E a venda de papai serviu de feira de verduras, oficina de bicicletas e abrigou por muitos anos o bar do Luiz Meu Boi, o nosso “Empório Brasileiro”. Aliás, a oficina de bicicletas do Washington, a Ciclopeças Ferreira, ocupou em diferentes épocas as três esquinas do cruzamento da Expedicionários com a Risoleta Lima. Nas redondezas tinha também sacolão, a fábrica do picolé Sibéria, a sorveteria de Clemente Ávila, a vendinha de “seu” Vani e dona Zilda, o bar de dona Zezé e Joaquim Barbosa, a pensão Soares, local de inúmeras festas, e as casas residenciais de alguns de nós. Até igreja neopentecostal surgiu por ali.

Outra prazerosa vizinhança da pracinha foi o conjunto musical Corintian's Boys que ensaiava defronte minha casa. Assistir aos ensaios do repertório nacional e internacional com Beto Negrete, Joãozinho, Raimundo, Antônio, Odimar, Pedrinho de Alú, Goiaba e Niltinho não tinha preço.

Nossa cidade não herdou só o nome da metrópole grega. Herdou também a ágora. Aliás, muitas ágoras porque, se a Praça da Bandeira é o local das comemorações cívicas, a Praça da Fonte Luminosa o local da paquera e também da cultura, a Praça da Igreja o ponto dos aposentados da RFFSA, há pelo menos mais umas seis praças espalhadas pela cidade. E elas cumprem o mesmo fim da ágora grega que, em qualquer hora do dia, é o lugar de encontro onde se passeia ao ar livre, onde se fica sabendo das novidades, onde se discute política, onde se formam opiniões. Porém, não com todos os requisitos para servir às assembleias plenárias dos gregos e convocadas por um rei ou chefe da aristocracia para proclamações aos guerreiros ou administração da justiça. Não somente a ágora que serve de mercado aos comerciantes e sua clientela, mas a praça pública onde se misturam todos: transeuntes, curiosos e desocupados.

Foi nesse território público que nós, meninos e meninas de uma geração, vivemos momentos singulares. Ali naquele espaço dividimos sonhos e segredos. Foi na pracinha que se despertaram os primeiros amores. São tantas histórias vividas e perdidas nos porões das memórias de quem as viveu que decerto mereciam estar num livro se não tivesse outro lugar onde guardá-las.

Era o ponto de encontro para várias situações: a reunião após as aulas, o ajuntamento para as peladas, pescarias e os bailes no Clube Ferroviário, a escuta de programas de rádio, as rodas de viola, cantorias e, claro, serenatas regadas com muito vinho São Roque. Era lá que planejávamos os luaus na lagoa da Escola Agrícola, as galinhadas feitas com matéria prima subtraída dos nossos próprios quintais, as festas na Pensão Soares ou nas nossas próprias casas.

Encontro de amigos na pracinha: Cica, Eliana, Tié, Gilberto e eu
Foto: Acervo de Simone F. Cruz
O fio que nos unia era a amizade e o anseio de liberdade. Por causa disso, jovens de outras tribos vieram de vários lugares da cidade para se juntar à turma da pracinha: do Triângulo, da Vila Maciel, do Curralinho, da região da Cooperativa dos Fazendeiros, da Hospedaria. A maioria eram cantadores e músicos e o surgimento do FECOR (Festival da Canção de Corinto) ajudou a sedimentar amizades, ampliar a rede de conhecidos ao extrapolar as fronteiras municipais e a possibilidade de se criar muitos vínculos bacanas.

Muito mais que um local de encontro, foi também um lugar de aprendizado. Principalmente para mim, que sempre tive dificuldade de me enquadrar nas diversas ondas surgentes. A convivência com vários desses amigos ainda hoje me faz saborear o lado mais doce da vida.

Porém, ela já não tem mais seus jardins floridos. Seus bancos não são mais os mesmos. Recentemente reformada, não conta com o mesmo glamour daquele tempo. No entanto, sempre que vou a Corinto faço questão de passar por lá, sentar num banco qualquer e, se possível, prosear com algum morador que resiste em viver no seu entorno.


(*) Camone bói: da frase “come on boy”, pronunciada nos filmes de cowboy.

domingo, 9 de dezembro de 2012

GRÊMIO ESTUDANTIL: UMA AULA DE CIDADANIA



Dentro das escolas pode existir um órgão muito importante para os estudantes: o Grêmio. Nesse espaço, os estudantes se unem em torno de causas comuns e buscam defender interesses coletivos.

O Grêmio Estudantil demonstra que é possível a construção de uma sociedade baseada no diálogo, no respeito pelas diferenças e na participação política consciente. Além disso, o Grêmio Estudantil pode ser um grande aliado na resolução de problemas que afetam a rotina de toda comunidade escolar. Nesse espaço, os participantes têm possibilidade de organizarem e promoverem oficinas, eventos culturais, festas, projetos comunitários e torneios esportivos.

O Grêmio Estudantil é uma entidade gerida exclusivamente pelos estudantes regularmente matriculados e frequentes na escola. Além de funcionar como espaço de acolhimento das questões da comunidade escolar, a partir do Grêmio o estudante tem a oportunidade de organizar suas primeiras manifestações políticas, de demarcar o seu lugar e começar a entender uma série de coisas que acontecem no meio social.

Para possibilitar que os estudantes de Capelinha tenham a experiência de participarem de um Grêmio, o Movimento Muda Capelinha (MMC) em parceria com o Instituto CriaSom resolveram incentivar a criação desses espaços nas escolas do município. O objetivo inicial é fazer com que já no início do ano que vem os Grêmios iniciem suas atividades.

Criar um Grêmio não é muito difícil, mas requer organização e trabalho coletivo. Para facilitar às escolas e estudantes interessados serão realizadas uma série de encontros, oficinas, palestras e outras atividades no esforço de explicar o funcionamento, estrutura e funções de um Grêmio.

No momento, o Movimento Muda Capelinha desenvolve uma cartilha que servirá para os estudantes se informarem sobre o funcionamento e as possibilidades de atuação de um Grêmio. O pessoal do Instituto CriaSom tem visitado as escolas para apresentar a proposta e formar o grupo inicial que irá semear a ideia em cada unidade escolar. Para seu pleno desenvolvimento, o projeto necessita do aval e apoio das direções e comunidades escolares.

Além dos proponentes, várias instituições e meios de comunicação de Capelinha serão parceiros na divulgação do projeto: Blog do Banu, Jornal Acontece, Programa Canta Minas, Rádio Aranãs, entre outras mídias impressas e virtuais.

E aí, vamos construir juntos um Grêmio na sua escola?


Comentário: Muito louvável esta iniciativa que nasceu dentro do MMC-Movimento Muda Capelinha e que ganhou a parceria do Instituto Cultural CriaSom, além de apoios importantes do Programa Canta Minas, Jornal Acontece e Blog do Banu. É notório o crescimento e desenvolvimento de Capelinha nos últimos anos. E esse crescimento não se restringe à área econômica. Hoje Capelinha vive uma efervescência cultural e a iminente instalação do campus da UFVJM-Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, o que credencia o município a se tornar um importante polo educacional. 

Se as oportunidades começam a descortinar no horizonte, mudanças significativas também começam a acontecer e  necessário se faz preparar-se para elas. Assim, a parceria entre o MMC-Movimento Muda Capelinha e o Instituto Cultural CriaSom vem em boa hora, pois o primeiro vem cumprindo brilhante papel no exercício da democracia ao propor profundas reflexões sobre o papel da sociedade civil organizada frente aos últimos acontecimentos ocorridos no Brasil e em especial, no município de Capelinha, no que concerne à política. 

O MMC tem levantado bandeiras importantes ao propor a a participação democrática e popular, a transparência das instituições quanto ao destino e gastos dos recursos públicos entre outras.

Já o CriaSom tem revelado jovens talentosos através do empreendedorismo, da organização de coletivos que visam dinamizar o setor cultural. 

Ambas atitudes deveriam contagiar as escolas públicas de forma a ter nos grêmios estudantis não apenas um canal de voz para os estudantes, mas a participação dos mesmos na construção de uma educação cidadã, democrática e participativa. Desta forma, o exercício da cidadania tornar-se-á uma prática concreta e a valorização do ambiente escolar e da comunidade escolar só tem ganhar e com certeza a qualidade da educação terá ambiente favorável para a sua melhoria e elevação.



sábado, 31 de dezembro de 2011

DEMOCRACIA SEM POVO

"O uso da palavra não é prerrogativa do poder, mas instrumento necessário para sua limitação"

 Por João Paulo

O ano começou com protesto bem-humorado de artistas na Praça da Estação
(Marcos Vieira/EM/D.A Press-22/1/11)

Se fim de ano é época de avaliação, a semana passada se encarregou de sintetizar a concepção de democracia da Prefeitura de Belo Horizonte, sobretudo na área da cultura. No dia 22, durante a posse do Conselho Municipal de Cultura, o prefeito Marcio Lacerda mandou retirar do recinto o conselheiro eleito Alan Vinicius. O cidadão protestava, ecoando o movimento “Fora Lacerda”, contra o que chamou de “higienização” da administração municipal. Em vez de argumentos, o alcaide redarguiu com a força e convocou os seguranças. Alan foi retirado e só voltou para a posse – razão de ser da solenidade – porque era um dos eleitos ao cargo de conselheiro.

Há muitos fios carregados de tensão e desencapados nesse episódio. Em primeiro lugar, e talvez o mais grave de todos, está a concepção de democracia por trás do ato da autoridade municipal. Em discurso, Marcio Lacerda ainda tentou recuperar a racionalidade de sua atitude, propondo que a oposição tinha dois caminhos: pedir seu impeachment ou ganhar as eleições. Em outras palavras, a gramática de protesto do prefeito se resume a duas flexões, ambas marcadas pela posse do poder. Quem tem o poder fala, quem não tem ouve. O ato democrático de inspiração popular se exaure na eleição, a partir daí o poder se torna absoluto.

Seria ingênuo se não fosse perigoso. O que se viu na reunião, da parte das autoridades presentes, foi uma negação do direito de protesto em nome de certa etiqueta civil. Muitos falaram em respeito às regras (em outras palavras, ficar calado) como base da democracia, esquecendo que a liberdade não apenas vem antes como fundamenta todo o jogo. E, o mais importante, o uso da palavra não é prerrogativa do poder, mas instrumento necessário para sua limitação. Ao apontar como único espaço para a discordância as instâncias do Legislativo, o prefeito deixava entrever ainda a armadilha que vem sendo criada contra a democracia direta num cenário em que arranjos e coalizões criam uma barreira em relação ao descontentamento popular. O aumento dos salários dos vereadores, como se viu recentemente, é apenas um pálido sinal da paga pela obediência. O chumbo grosso não passa nem mesmo pelo plenário.

PORTAS FECHADAS
O segundo elemento que merece atenção é o fato de que toda essa confusão ocorreu exatamente no momento em que se dava posse a um órgão surgido da demanda por mais participação direta na gestão da cultura do município. O Conselho Municipal de Cultura, que tem caráter deliberativo, foi das últimas instâncias a ter sua atuação regulamentada em BH, mesmo estando presente em todas as deliberações e conferências do setor nos últimos 10 anos. Enquanto os conselhos de educação, saúde e assistência social já são realidade há muito tempo, só agora a regulamentação permitiu a efetiva criação do conselho de cultura. É sintomático que a posse de um órgão com representação popular expressiva seja saudada com manifestações de violência contra a liberdade de opinião. Tudo leva a crer que se apostava num conselho mudo, submisso e satisfeito em integrar o cronograma. O que é uma ilusão tão recorrente em quem “aceita” os conselhos como insciente da capacidade e da autonomia da mobilização popular.

A demora na instalação do conselho não foi casual. O setor vem sofrendo processo de esvaziamento durante a atual administração, com ameaças que quase se cumpriram de cancelar eventos com história na cidade, como o Festival Internacional de Teatro e o Festival de Arte Negra, que só foram levados adiante em razão da mobilização da categoria artística e, em seguida, de vários setores da sociedade.

O mesmo pode ser dito sobre a tentativa de manietar as manifestações em praças e espaços públicos, pretensamente em nome da segurança e do patrimônio, mas que na verdade atendia a interesses localizados de instituições privadas e até mesmo de certo preconceito de culto, nitidamente localizado nas religiões populares. O mesmo se viu com a tentativa segregacionista de circunscrever as manifestações de periferia na periferia, como se a cidade tivesse sido loteada a partir das classes sociais.

CONSERVADORISMO O terceiro aspecto envolvido no quiproquó – depois da concepção autoritária de democracia e da visão preconceituosa de participação popular – é a forma de conceber a cultura propriamente dita. Tem ficado nítido que não é área de eleição da administração municipal. Além de ser setor antípoda da visão empresarial da coisa pública que fundamenta a atual gestão, foi na cultura que se ergueu o principal anteparo crítico (legítimo) às pretensões (legítimas) de continuidade do projeto político em andamento. Além de desprestigiada, a cultura tem sido vista apenas como manifestação artística ou realização de eventos, sem preocupação com a dimensão de cidadania cultural que tem feito parte de vários projetos em todo o mundo.

Mais que pensar o lado externo da cultura, há hoje um movimento mundial pela ampliação de seu potencial interno, ou seja, da capacidade de produzir e distribuir cultura, que vai muito além das manifestações hegemônicas de mercado ou dos centros tradicionais de difusão. O papel do poder público, como agente político de aglutinação e financiamento, precisa romper o ciclo da continuidade para permitir a experimentação, a inovação, a livre circulação de ideias, a regionalização, o fortalecimento dos coletivos e a viabilização técnica dos produtores.

A mesma lógica de primazia do espetacular e do cânone conservador ganha eco na concepção de cultura do estado, com seu equivocado projeto de circuito cultural centralizador, submisso aos interesses empresariais, distante da regulação pública e interditado à participação popular. Nesse aspecto se entende a razão da aliança entre os dois níveis de governo nas duas últimas eleições para a prefeitura e o governo do estado: pelo menos em matéria de cultura, eles pensam igual. E pensam mal.

BOM COMEÇO O novo Conselho Municipal de Cultura tem muitas tarefas pela frente. Sua composição paritária (metade indicada pelo governo, metade pela sociedade civil) mescla representantes das regionais com atores do movimento cultural, que deverão se unir em propostas a serem negociadas com os indicados pelo Executivo municipal. Geralmente, os conselhos se concentram na crítica dos rumos das políticas setoriais, mas podem avançar para a formulação de novos modelos de gestão, para a transferência de recursos e para a democratização do setor.

A crítica aos conselhos quase sempre parte dos que têm alergia a povo e a política, apontando nas instâncias de participação o vício de muitas reuniões e poucas atitudes. Num cenário como o da cultura em Belo Horizonte, a primeira tarefa vai ser organizar o conselho para dar conta da terra arrasada que vai encontrar em termos de políticas públicas. Nessa hora, sua maior arma vai ser mesmo a capacidade de fazer política, ainda que o prefeito não goste. E é por iniciar fazendo política (o protesto e a palavra são instrumentos clássicos) que o Conselho Municipal de Cultura começou bem. Graças ao Alan.

Fonte: Caderno Pensar, Jornal Estado de Minas - Publicação:
31/12/2011