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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

FERNANDO BRANT, O MENINO SENTINELA DAS ESQUINAS

by Rafael Senra (*) 
“Morte vela sentinela sou / do corpo desse meu irmão que já se vai / Revejo nessa hora tudo que ocorreu / memória não morrerá”.


Diante da perda de Fernando Brant, autor de algumas das mais emblemáticas canções do Clube da Esquina, me vem à mente uma de suas mais belas letras, “Sentinela”, e que uso aqui como metáfora para pensar a relevância e a perenidade do que ele e sua obra significam para a música popular brasileira.
“Sentinela” foi talvez a primeira letra em todo o lastro de canções do Clube a assumir um viés memorialista. De acordo com Brant:
“Sentinela” foi uma viagem imaginária, onde aproveitei uma referência pessoal para falar também da realidade política brasileira daquele momento, final dos anos 1960. A letra é um pouco anterior ao AI-5. Em princípio, eu tinha falado com o Bituca que iria fazer uma homenagem ao Seu Francisco, que servia café lá no Juizado de Menores, onde eu trabalhava. Para mim o Seu Francisco era um tipo de pessoa que significava um monte de coisas, um sábio. Era um cara do povo que estava vivo e forte, mas imaginei a história dele mais para frente, o dia de sua morte, o velório, e o que aquilo representava para mim. (…) Mas por isso mesmo, por ele ser esse irmão querido, eu tinha que continuar, ser fiel à memória dele (BRANT. Apud: VILARA, 2006, p.67).

Ainda no início do Clube da Esquina, um jovem Fernando Brant já se atentou para o fato de que a memória não é apenas algo estanque, cristalizada em livros de história e bustos de generais. Um dos mais fecundos legados da memória da humanidade está na oralidade, nas histórias passadas de geração por geração oralmente. Tanto é que mesmo culturas que não se amparam tanto na escrita quanto outras culturas ditas “civilizadas” tem também seu lastro de memória.

Um narrador de esquinas

Dentro do Clube da Esquina, acredito que as letras de Brant foram as que mais se propuseram ao dever de erigir mitos e documentos de seu universo (Minas Gerais). Ele acabou por encarnar o mesmo arquétipo de “narrador” que enxergara em Seu Francisco, personagem principal de “Sentinela”. Através do suporte da letra de canção popular, Brant se propôs a legar para as futuras gerações uma série de dados culturais de Minas Gerais que não poderiam se perder no tempo.

Essa figura do narrador foi muito bem descrita por Walter Benjamin, em seu ensaio Experiência e Pobreza:
“Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes com narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?” (BENJAMIN, 1993, p.114).

Documentos poéticos
Fernando Brant
Em 2008, quando entrei no mestrado em letras disposto a pesquisar as canções do Clube da Esquina, encontrei nas letras de Brant toda a profundidade que eu precisava. Como o mestrado da UFSJ se pautava pelo campo teórico conhecido como Estudos Culturais – que tratam de temas relacionados a memória, identidade, colonialismo, multiculturalismo, gêneros, etc. – , pude assim encontrar um viés bem adequado com a metodologia que iria aplicar.

Se fizermos um recorte das letras escritas por Fernando Brant, diversas delas apresentam um aspecto de narrativa, e, mesmo quando tratam de utopia, sempre partem do real (passado ou presente). Essa veia de “documentarista-poético” dos contextos vividos ou ouvidos guarda uma relação com o papel de um diretor de cinema, como nos relata o próprio Brant:
“Lembro-me que toda vez que saía de casa para ir a Biblioteca Pública, na praça da Liberdade, eu descia a Aimorés e subia a Brasil fazendo filmes, enquadrando tudo o que via. Meus olhos eram uma câmera. Na verdade, eu não tinha olhos, carregava o tempo todo uma câmera no rosto (BRANT, Fernando. In: VILARA, Paulo. Op.cit. pág.37).

Guardião da memória
O Clube da Esquina em Diamantina.
Da esq para a dir.: Lo Borges, Fernando Brant,
Juscelino Kubitschek, Márcio Borges
e Milton Nascimento.
O caminho estético que marcou Fernando Brant no Clube da Esquina teve similares na literatura. De acordo com Wander Melo Miranda, diversos escritores de Minas Gerais – como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes ou Pedro Nava – produziram textos memorialistas no período da ditadura militar. Sua intenção era a de evidenciar alguns traços valiosos da cultura que ameaçavam ser extintos através do projeto modernizador dos militares.

Diversas letras de Brant funcionam como rochas líricas que guardam estes monumentos perdidos da identidade mineira. Em Beco do Mota, ele fala de uma rua boêmia de Diamantina, e utiliza o fim dessa zona como metáfora para a repressão da ditadura.

Em Aqui Óh, ele fala dos nostálgicos “namorinhos de portão”, ao mesmo tempo em que discute também o caráter desconfiado e esquivo dos mineiros.

Em Nos Bailes da Vida, podemos sentir toda a emoção e a sinestesia da sofrida vida dos músicos que cumprem sua vocação, mesmo em condições pouco glamorosas.

Em Ponta de Areia, ele transforma em letra de canção uma matéria que fez quando era repórter da revista O Cruzeiro, sobre uma linha de trem que ligava os estados de Minas Gerais e Bahia. Em todo o circuito percorrido pelo trem, ele elenca diversos traços culturais que ameaçavam se perder em meio ao propósito militar (a começar pelo próprio transporte ferroviário).

Em Maria Maria, ele nos mostra a doída beleza da mulher humilde, da face feminina de um Brasil trabalhador, maternal, forjado na simplicidade.

Um sentinela no interior do Clube
É importante aqui pensar no que significa as letras de Fernando Brant dentro do Clube da Esquina. Se pegarmos o movimento como um todo, é possível notar um enfoque mais introspectivo da lírica geral. Há sempre um eu-lírico em primeira pessoa, que observa não só os fenômenos a seu redor, mas também narra seus próprios devaneios e utopias. As letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Murilo Antunes e outros se beneficiam bastante desse tipo de perspectiva. São fluidas, subjetivas, misteriosas.

O estilo de Brant guarda algumas diferenças com seus parceiros. É essa diversidade de panoramas (apesar de um ângulo lírico comum) que sedimentou a assinatura e a glória do Clube da Esquina. Porém, enquanto os outros letristas caminhavam de olho em nuvens ciganas, nascentes, ou mesmo girassóis da cor de cabelos, Brant mantinha o foco no chão.
Arriscando aqui um exercício metafórico, se eu fosse compor a paisagem lírica do Clube da Esquina, pensaria em Ronaldo Bastos como o vento, Márcio Borges como a água, e Fernando Brant como a pedra (não a toa, seu nome completo é Fernando Rocha Brant). É este último o mais atento na dimensão palpável e concreta do seu entorno.


Pedra mineira
Remetendo a Drummond, a letra de “Itamarandiba” (do disco de Milton Nascimento Sentinela (1980), diz: “No meio do meu caminho / sempre haverá uma pedra / Plantarei a minha casa / numa cidade de pedra”.

Ao buscar guardar a memória de Minas Gerais através das letras, Brant empreendeu um mergulho raical na própria essência desse alicerce cultural. Nesse movimento, creio que ele acabou se deparando com o universo da infância, com os valores primordiais da criança, sempre abertas para a amizade e o amor.

O próprio ethos do Clube da Esquina, já a partir do nome do movimento, trata exatamente desse encontro descompromissado da juventude, dessa amizade que não pede nada em troca, que apenas celebra a vida de maneira pura e jovial.

Se Fernando Brant era um alquimista da pedra filosofal da mineiridade, ele encontraria nos vestígios moleculares dessa rocha algumas verdades fundamentais. Ali, ele pôde ler que um amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves. Ou que o medo de amar é o medo de ser livre.

O Brant que conheci
Pude perceber, no breve contato pessoal que tive com Fernando Brant, que seu compromisso com a amizade era não só um pressuposto de estilo de escrita, mas também uma ética de vida.

Entrei em contato com ele em meados de 2010, depois de saber que ele se interessou em ler minha dissertação de mestrado. Ao enviar meu trabalho, perguntei se ele teria disponibilidade e interesse em redigir um prefácio para um futuro livro que eu cogitava publicar.

Ele não só escreveu um texto fantástico para o livro, como compareceu pessoalmente ao lançamento, que aconteceria em 2013. Foi uma surpresa vê-lo entrar na Livraria Quixote, em BH, com seu jeito discreto e simples.

No alto de tudo que aquele homem representa para a cultura brasileira, fiquei muito honrado e admirado de perceber que ele se encontrava aberto para comungar seu saber com um jovem pesquisador que lançava seu primeiro livro. A coerência entre a vida e a obra de Brant é um valioso ensinamento que levo comigo.
Eu e minha família transbordando de alegria ao encontrar Fernando Brant. 2013.
O menino
Em 2004, falecia o escritor mineiro Fernando Sabino, que deixara instruções para o epitáfio escrito em sua lápide: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. Dentre as coincidências que ligam os Fernandos Sabino e Brant (ambos mineiros, artistas, e morreram de câncer de fígado), há também o olhar especial para a infância em suas obras.

Porém, diferente de Sabino, que alega ter rejuvenescido ao longo de toda a vida (para então constatar sua “meninice” apenas nos anos derradeiros), acho que Fernando Brant nunca deixou de preservar seu feitio de criança, no melhor sentido do termo.

Desde a primeira vez em que bati o olho numa foto do compositor do Clube da Esquina, pensei comigo que ele tinha cara de menino. Diversas letras suas tratam do universo infantil: Bola de Meia, Bola de Gude é, talvez, a mais famosa delas.

Em entrevista ao jornalista Paulo Vilara, Brant dissertou sobre a importância de se observar com os olhos da criança que foi. Para ele, o adulto deveria honrar a criança que foi um dia.
Nesse momento de tristeza, quando nos deparamos com a “travessia” final desse ser humano cuja obra é tão importante para tanta gente, acredito que seu objetivo se cumpriu de maneira exemplar. Os que ficam são capazes de enxergar na figura de Fernando Brant a criança, e também o sentinela. Diante desse nosso irmão que que já se vai, revemos nessa hora tudo que ocorreu, com a certeza de que a memória não morrerá.

Referências
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.
VILARA, Paulo. Palavras Musicais – Letras, processo de criação, visão de mundo de 4 compositores brasileiros: Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, Chico Amaral. Belo Horizonte: S.ed., 2006.

(*) Rafael Senra é natural de Congonhas (MG) e atualmente em São João Del Rei (MG). Graduado em Letras e mestre em Letras pela UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei); doutorando em Letras pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Atualmente, além da tese, desenvolve artigos e ministra cursos e palestras. Também se dedica à literatura (contos, romances, poemas), ilustrações e quadrinhos, composições musicais e gravações.

Fonte: http://rafaelsenra.com/fernando-brant-o-menino-sentinela-das-esquinas/

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O CANTO QUE VEIO DO FUNDO MAIS FUNDO DO VALE

"Ao perguntar ao maestro Lindomar Gomes o que o levou a apostar num coral desconhecido a ponto de convidá-lo para um evento tão grandioso tendo como referência apenas uma singela página de internet criada por mim, respondeu: 'a simplicidade e pureza'. E ao perguntá-lo novamente se isso por si só isso já seria suficiente para emocionar as pessoas a ponto de levá-las ao choro, ele novamente me respondeu:
'o coral de Veredinha toca o coração das pessoas porque canta com o fogo do amor'”.


 O coral em sua primeira apresentação no Museu Abílio Barreto/Bh em 2004.
Foto: Arquivo Canta Minas

Por Tadeu Oliveira

“Assim, se passaram dez anos”. Mas parece que foi ontem. Outro dia mesmo, o Coral Vozes das Veredas, dava os seus primeiros passos para cantar em outras plagas. Após três anos da sua fundação, eis que surgia uma oportunidade ímpar de participar do 2º Festival de Corais de Belo Horizonte, nos dias 26, 27 e 28 de novembro 2004, que homenageava o Clube da Esquina. O convite fora feito pelo idealizador e realizador do evento, o maestro Lindomar Gomes muito bem definido pelo poeta Fernando Brant como “um singelo encantador de notas musicais e de pessoas, que leva a vida sonhando e realizando sonhos”. O convite veio a calhar e nós audaciosa e despretensiosamente aceitamos. Afinal, desde a sua criação pela Adecave – Associação de Desenvolvimento da Criança e do Adolescente de Veredinha – em agosto de 2001, que o Coral cantava e encantava o Médio Jequitinhonha. As cidades de Capelinha, Turmalina, Minas Novas, Berilo e Francisco Badaró já haviam se embevecido com as melodias e harmonias emanadas pelas vozes de Veredinha.

A euforia e a ansiedade tomavam conta de nós naqueles dias. Eu e Mirinha, uma das coordenadoras do projeto da Adecave, cuidávamos dos preparativos para o grande evento buscando apoio e recursos para logística, escolhendo repertório, convidando músicos para acompanhar o coral, organizando ensaios e realizando oficinas com abordagens comportamentais e relações interpessoais com a psicóloga Lílian Murta. Até que chegou o dia de tomarmos o rumo da capital mineira para lá cantarmos pela primeira vez. Se para mim que apesar de já ter morado em Belo Horizonte nos anos de 1980 sentia-me como estivesse entrando num território desconhecido, imagine o que aquilo tudo poderia representar para aquelas crianças com idade entre sete e dez anos que mal conheciam os arredores de Veredinha!

A nossa primeira participação aconteceu na noite do dia 26 de novembro de 2004, sexta-feira, no museu Abílio Barreto após percorrermos por um dia inteiro os quase 500 km que separa Veredinha de Bh. Assim que chegamos com aquele bando de crianças com roupas em algodão cru, Mirinha e eu nos entreolhamos e sussurrei entredentes: – “Meu Deus do céu! O que viemos fazer aqui?” – acompanhado de um enorme frio na barriga e um aperto no coração. Mirinha corroborou meus sentimentos acrescentando que devíamos nos manter serenos para não transparecer qualquer insegurança. Não saberia precisar quanto tempo passou desde nossa chegada até a hora de nos apresentar. Foram momentos tensos e aflitivos. O ambiente tornara-se contraditoriamente inóspito apesar da beleza do Museu Abílio Barreto com seu casarão colonial e da recepção carinhosa e calorosa do maestro Lindomar Gomes e sua equipe. Nosso figurino, confeccionado em tecido próprios para sacos e com detalhes em chita colorida e totalmente diferente dos padrões adotados pelos corais que se via por ali, nos expunha ainda mais aos olhares curiosos. Outro fator altamente inibidor era o público presente, bem diferente daquele os quais já havíamos apresentado.

Logo que subimos ao palco, como um coro de anjos mestiços, o sublime cantar das meninas de Veredinha enfeitiçou os presentes.  Iniciamos com dois cânones que sempre abrem nossas apresentações: “Oração Indígena” e “Saudação Africana”. Como fumaça, os receios se dissiparam e logo seguida a gente cantou “Cantiga pra Lira” de Rubinho do Vale. Faltava ainda cantar uma música do Clube da Esquina e quando o coral cantou “Itamarandiba” de Milton Nascimento e Fernando Brant, a plateia já nos ovacionava. Plateia esta que contava com a presença do poeta e compositor Fernando Brant que naquela semana, mais precisamente no dia primeiro de dezembro de 2004, escreveria muitos elogios ao Coral de Veredinha na sua crônica semanal no jornal Estado de Minas, intitulada “Música nas esquinas e nas praças”, que mais tarde integraria o livro “Casa Aberta” pela editora Dubolsinho.

Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Toninho Horta
Vivenciamos ainda muitas outras emoções. Eu e o músico Fábio Cordeiro assistimos a um animado bate papo sobre o Clube da Esquina com Toninho Horta, Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, integrantes do movimento, no Espaço Cultural Phoenix da Universidade Fumec. E na companhia dos músicos Toninho Iglésias e César Loredo nos inebriamos aos sons do grupo carioca Equale, Affonsinho, Tavito, Telo Borges, Toninho Horta, 14Bis e Trio Amaranto na praça de Santa Tereza e na praça em frente a igrejinha da Pampulha.

Aliás, estas duas praças nos reservaram momentos jubilosos e extasiantes. Durante o dia, só se ouvia falar do coral e várias pessoas nos acompanhavam por onde fôssemos cantar. Na noite do dia de 27 de novembro o enorme público na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza, foi ao delírio na apresentação do Coral Vozes das Veredas. E lá, nos despedimos do Festival e agradecemos o carinho do público e dos organizadores, pois no dia seguinte o coral participaria do programa televisivo Dedo de Prosa, do capelinhense Juninho Elisiário, e faríamos um passeio com as meninas num shopping acatando sugestão de Rubinho do Vale. Para nossa surpresa, mal o programa terminou duas belas moças da organização do festival nos esperava e nos “intimou” a comparecer à praça da igrejinha da Pampulha por ordem do público presente. Não é preciso dizer que as crianças rejeitaram a ideia. Ao argumentar que, se nos propusemos a participar do Festival, deveríamos acatar o pedido, meu argumento as levou a irredutibilidade. Então, tive que apelar para os versos do poeta que diz que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.

Cantando na Pampulha
Mal descemos do ônibus na Pampulha e ouvimos o locutor anunciar entusiasticamente: “acaba de adentrar a praça o coral de Veredinha”. A praça foi ao delírio transformando as expressões carrancudas dos rostos infantis em largos sorrisos. Após o desfile de inúmeros corais pelo palco, antes do 14Bis fechar as cortinas do 2º Festival de Corais, as Vozes das Veredas incendiou o público. Surgia assim, para o cenário do canto coral de Minas Gerais, um canto novo do cantinho mais fundo do fundo do Vale do Jequitinhonha. 

Fernando Brant, Tadeu Oliveira e
o maestro Lindomar Gomes
Primeiro coral do Vale a cantar nesse evento, a história das Vozes das Veredas se entrelaçou à história do Festival de Corais de Belo Horizonte que se transformou no FIC - Festival Internacional de Corais. E minha trajetória pessoal no canto coral ganhou novos caminhos e experiências. Um dia, ao perguntar ao maestro Lindomar Gomes o que o levou a apostar num coral desconhecido a ponto de convidá-lo para um evento tão grandioso tendo como referência apenas uma singela página de internet criada por mim, respondeu: “a simplicidade e pureza”. E ao perguntá-lo novamente se isso por si só já seria suficiente para emocionar as pessoas a ponto de levá-las ao choro, ele novamente me respondeu: “o coral de Veredinha toca o coração das pessoas porque canta com o fogo do amor”. Isso explica a minha grande paixão por este grupo de meninas, pela cidade de Veredinha e pelo Vale do Jequitinhonha. E para finalizar, assim como iniciei esse texto com o primeiro verso de uma versão de Lourival Faissal para a composição de Rafael Hernández cantada pela baiana Gal Costa, encerro com o último verso da mesma canção: “E o resto desse romance só sabe Deus”.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

CANTOS E ENCANTOS DE UMA PRAÇA

"Era o ponto de encontro para várias situações: a reunião após as aulas, o ajuntamento para as peladas, pescarias e os bailes no Clube Ferroviário, 
a escuta de programas de rádio, as rodas de viola, cantorias e, claro, 
serenatas regadas com muito vinho São Roque"

Praça Raul Ribeiro Gorgulho, a pracinha
Foto: Tadeu Oliveira

Por Tadeu Oliveira

Lá pelos idos anos 70 e 80 do século XX, havia um grupo de amigos em Corinto que ficou conhecido como a Turma da Pracinha. Constituído por adolescentes de ambos os sexos, com faixa etária girando entre 15 e 18 anos, a maioria de nós morava no entorno e adjacências da Praça Raul Ribeiro Gorgulho ou simplesmente Pracinha. Tratá-la no diminutivo, muito mais que referir-se ao seu pequeno tamanho em comparação com as outras três praças centrais da cidade, era também um tratamento carinhoso por aquele espaço ajardinado.

Em formato de triangulo retângulo, com área aproximada de noventa metros quadrados com ângulos arredondados é produto do cruzamento de três ruas: Expedicionários, cortada perpendicularmente pela Risoleta Lima e ambas cortadas concorrentemente pela Benedito Barbosa. Constitui-se de cinco canteiros, sendo um em cada vértice e dois maiores no lado da hipotenusa e no cateto oposto de maior medida com tamanhos proporcionais. Antes da recente reforma, possuía mais dois canteiros em forma de círculo que circundavam os seus postes telecônicos em curva dupla, um na parte mais larga e outro na parte mais estreita da praça. Oito bancos de concreto distribuídos em simetria bilateral eram os suportes para a boa prosa e as cantorias em qualquer hora do dia ou da noite ainda que em várias ocasiões a polícia militar, em suas constantes rondas, nos colocasse para dormir mais cedo. Era ainda o tempo da ditadura e de seus excessivos controles.

Meus sobrinhos Patrícia, Marcelo e Clóvis na pracinha florida
Foto: Acervo da Família Romão
Fora construída na segunda metade da década de 1960 pelo então prefeito Joel Bezerra, quando demoliram a casa do coveiro Levi Vitorino e suas irmãs Sebastiana e Dulce. Era lá em frente que ficava o ponto do ônibus Guaicuí, que vinha de Belo Horizonte rumo a Pirapora. Todos os dias, por volta das dez ou onze da manhã o Guaicuí promovia momentos de “encontros e despedidas”. Naquele tempo, quem cuidou dos seus jardins foi o Conrado e depois o “seu” Zé Conceição. Através das mãos zelosas destes servidores municipais flores de variadas cores brotavam de seus canteiros: rosas, margaridas, violetas, damas da noite, copos de leite, girassóis, cravos, azaleias, gérberas, palmas, lírios. 

A primeira geração a frequentá-la teve os meus manos Márcio, Berico e Fernando, os vizinhos Élcio e Hélio de Ismael, Duca de Salatiel e contou com nomes que fizeram história na música de Corinto: Mauredson, que cantava no Corintian's Boys, Tino Barbosa, Chicão de Paula, Zeínha e muitos outros. Essa turma fazia da pracinha o ponto de encontro para rodas musicais e concentração para serenatas. Enquanto eles cantavam, nós ainda com as calças curtas brincávamos à sua volta de amarelinha, caiu no poço, rouba bandeira, pegador de lata, bente-altas, par-a-par, mãe da rua, soltar papagaio, “camone bói”(*). E uma ou outra vez, algum casal arriscava namorar naquele pedaço de paraíso.

À medida que crescíamos, testemunhávamos as intervenções humanas em volta da praça. Vieram o asfalto, as demolições e as novas construções. A casa de “seu” Zé Três Metros deu lugar a um enorme galpão que abrigou supermercado, banco e comércio de exportações de cristais. A casa de Agripino e dona Flor deu lugar a uma loja de tintas. A venda de “seu” Ismael abrigou o supermercado da COBAL e a boutique de Lurdinha locomoveu-se pelos diversos cômodos daquele prédio. A venda de Joaquim Camilo transformou-se em açougue e depois num prédio de dois pavimentos. E a venda de papai serviu de feira de verduras, oficina de bicicletas e abrigou por muitos anos o bar do Luiz Meu Boi, o nosso “Empório Brasileiro”. Aliás, a oficina de bicicletas do Washington, a Ciclopeças Ferreira, ocupou em diferentes épocas as três esquinas do cruzamento da Expedicionários com a Risoleta Lima. Nas redondezas tinha também sacolão, a fábrica do picolé Sibéria, a sorveteria de Clemente Ávila, a vendinha de “seu” Vani e dona Zilda, o bar de dona Zezé e Joaquim Barbosa, a pensão Soares, local de inúmeras festas, e as casas residenciais de alguns de nós. Até igreja neopentecostal surgiu por ali.

Outra prazerosa vizinhança da pracinha foi o conjunto musical Corintian's Boys que ensaiava defronte minha casa. Assistir aos ensaios do repertório nacional e internacional com Beto Negrete, Joãozinho, Raimundo, Antônio, Odimar, Pedrinho de Alú, Goiaba e Niltinho não tinha preço.

Nossa cidade não herdou só o nome da metrópole grega. Herdou também a ágora. Aliás, muitas ágoras porque, se a Praça da Bandeira é o local das comemorações cívicas, a Praça da Fonte Luminosa o local da paquera e também da cultura, a Praça da Igreja o ponto dos aposentados da RFFSA, há pelo menos mais umas seis praças espalhadas pela cidade. E elas cumprem o mesmo fim da ágora grega que, em qualquer hora do dia, é o lugar de encontro onde se passeia ao ar livre, onde se fica sabendo das novidades, onde se discute política, onde se formam opiniões. Porém, não com todos os requisitos para servir às assembleias plenárias dos gregos e convocadas por um rei ou chefe da aristocracia para proclamações aos guerreiros ou administração da justiça. Não somente a ágora que serve de mercado aos comerciantes e sua clientela, mas a praça pública onde se misturam todos: transeuntes, curiosos e desocupados.

Foi nesse território público que nós, meninos e meninas de uma geração, vivemos momentos singulares. Ali naquele espaço dividimos sonhos e segredos. Foi na pracinha que se despertaram os primeiros amores. São tantas histórias vividas e perdidas nos porões das memórias de quem as viveu que decerto mereciam estar num livro se não tivesse outro lugar onde guardá-las.

Era o ponto de encontro para várias situações: a reunião após as aulas, o ajuntamento para as peladas, pescarias e os bailes no Clube Ferroviário, a escuta de programas de rádio, as rodas de viola, cantorias e, claro, serenatas regadas com muito vinho São Roque. Era lá que planejávamos os luaus na lagoa da Escola Agrícola, as galinhadas feitas com matéria prima subtraída dos nossos próprios quintais, as festas na Pensão Soares ou nas nossas próprias casas.

Encontro de amigos na pracinha: Cica, Eliana, Tié, Gilberto e eu
Foto: Acervo de Simone F. Cruz
O fio que nos unia era a amizade e o anseio de liberdade. Por causa disso, jovens de outras tribos vieram de vários lugares da cidade para se juntar à turma da pracinha: do Triângulo, da Vila Maciel, do Curralinho, da região da Cooperativa dos Fazendeiros, da Hospedaria. A maioria eram cantadores e músicos e o surgimento do FECOR (Festival da Canção de Corinto) ajudou a sedimentar amizades, ampliar a rede de conhecidos ao extrapolar as fronteiras municipais e a possibilidade de se criar muitos vínculos bacanas.

Muito mais que um local de encontro, foi também um lugar de aprendizado. Principalmente para mim, que sempre tive dificuldade de me enquadrar nas diversas ondas surgentes. A convivência com vários desses amigos ainda hoje me faz saborear o lado mais doce da vida.

Porém, ela já não tem mais seus jardins floridos. Seus bancos não são mais os mesmos. Recentemente reformada, não conta com o mesmo glamour daquele tempo. No entanto, sempre que vou a Corinto faço questão de passar por lá, sentar num banco qualquer e, se possível, prosear com algum morador que resiste em viver no seu entorno.


(*) Camone bói: da frase “come on boy”, pronunciada nos filmes de cowboy.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

RODA PIÃO, BAMBEIA PIÃO


Fernando Brant

Estou na cozinha da casa de Vera Brant, cercado, como é de hábito, por gente sensível, inteligente e criativa. Lá fora, na noite, o flamboyant impera. Tenho ao meu lado, no melhor lugar de todas as casas, o maestro Jobim e Gonzaguinha. Diante de quem tem o que dizer, e pensa com profundidade mesmo as coisas do cotidiano, prefiro falar pouco e ouvir.

A cerveja molha as gargantas e os bolinhos de feijão nos alimentam. A música, a poesia, as pessoas e o mundo eram nossos assuntos e o tempo parecia não existir. Mas estou agora ouvindo uma seresta à frente de nossa casa, em Caldas, Minas Gerais, na véspera do dia em que meu pai, juiz da comarca, se despedia da cidade para assumir o mesmo cargo em Diamantina. As imagens são nubladas quando me lembro do ocorrido. Não tinha completado 5 anos. Ficaram os sons da saudade dos que ficavam e da gratidão dos que partiam.

E agora estou, de calças curtas e mirando o presente, pisando nas pedras capistranas do Tijuco com minhas sandálias de sola de pneu, que nunca acabam. Vou comprar a revista O Cruzeiro para meus pais e aproveito e adquiro o primeiro exemplar brasileiro da Luluzinha e sua turma.

O Zé Aparecido me leva para jantar com ele no Palácio dos Buritis. Eu e o Hildebrando Pontes nos surpreendemos com a presença iluminada e bem-humorada do Oscar Niemeyer. Foi uma alegria sem precedentes, dessas que só o Zé tinha capacidade e generosidade de oferecer aos amigos.

No Bar Scotelaro, em Belo Horizonte, rompo a madrugada bebendo cerveja com Dedé, Caetano Veloso e minhas irmãs Vina e Ana. Ali mesmo iniciara, numa noite de novembro, a comemoração pelo nascimento de minha primeira filha e, mais tarde, da segunda.

Com paletó do Toninho Horta, calça preta minha e gravata borboleta de não sei quem, subo ao palco do Maracanãzinho entupido de gente para, a seu lado, assistir ao meu parceiro, Milton Bituca do Nascimento, cantar a nossa Travessia, que abria todos os horizontes para nós.

No meio de todo esse rodopio temporal e geográfico, a memória me leva e traz pelos caminhos de minha existência. Não me lembro como começou nem sei como se encerrará. Mas aprendi muito, disso tenho certeza. Quando olho para os que me cercam, a vontade que tenho é de gritar ao mundo que é com afeto, compreensão, carinho que seremos saudáveis parceiros na construção de um mundo mais justo.

A consciência de que podemos conviver em harmonia e a sede de beleza que só a amizade, o amor e a cultura podem nos ofertar me embala a fazer rodar o pião que vai encantar as crianças do mundo.

Fonte: EM Cultura - Jornal Estado de Minas, 12/12/2012

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (2ª PARTE)



Por Fernando Brant(*)


Esse trabalho desenvolvido por Odete Ernest Dias precisa ser melhor conhecido e avaliado. É importante para que se tenha contato com a evolução da alma musical de Minas.

Os viajantes Spix e Martius, no início do século 19, andaram por essas Minas Gerais e tudo o que viram – em termos de humanidade, costumes, geografia, botânica, zoologia, flora- eles descreveram em livros. É interessante o relato que fazem de um fato ocorrido quando Martius esteve em Brejo dos Salgados, às margens do rio São Francisco, para prestar assistência médica à esposa de um Capitão. Ali, depois de cumprida a missão, ele assistiu a uma Festa da Rainha com missa, procissão e um lauto regalo, arranjada por uma rica fazendeira das proximidades. Eis o relato deles:
“Também encontramos aqui entretenimentos musicais, isto onde menos podíamos esperá-los. Um sertanejo, que habitava vinte léguas a oeste de Salgado, e casualmente tinha ouvido falar de nossa prática de amadores de música, mandou um mensageiro, para pedir-nos o prazer de tocar conosco um quarteto. Ao cabo de alguns dias, apareceu o moreno Orfeu das selvas, à frente da mais estranha caravana. Às costas da mula, trazia ele um rabecão, rabecas, trombetas, estantes para música, e, como provas de sua dedicação, a mulher e os filhos. Dois de seus vaqueiros tocaram as partes secundárias e, com jovial segurança, atacamos o mais antigo quarteto de Pleyel. Que mais alto triunfo podia celebrar o mestre do que a expressão de sua música ressoar aqui, no sertão americano? E, com efeito, o gênio musical pairava sobre a nossa tentativa, e tu, excelente melômano, João Raposo, viverás sempre na minha memória, com as tuas feições animadas por triunfante enlevo”. ( J.B. von Spix e C.F.P. von Martius- 1818).

ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (1ª PARTE)


Por Fernando Brant(*)

Músicos brasileiros contemporâneos, chegando às nossas terras, costumam exclamar, de tanto ouvir a qualidade e sutileza das melodias e harmonias que ouvem por aqui, que Minas Gerais é “país da música”. Pode ser exagero, e é, se comparamos com outros territórios, no mundo, conhecidos pela grandiosidade de sua produção musical. Não queremos nos comparar aos grandes centros europeus de criação e difusão de concertos, sinfonias e tais, concebidos através dos séculos de cultura refinada. O velho mundo e sua bagagem são incomparáveis. Nossa idéia é mais modesta e se refere, essencialmente, aos sons criados e executados pelo nosso povo e que vêm desaguar no que conhecemos como música popular mineira e brasileira. É algo que corre no sangue de nossa gente e está presente em todas as situações de sua existência. O mineiro respira notas musicais e com elas torna mais amena sua batalha pela vida ao longo da História.

O conceito de música popular que hoje se reconhece não se confunde com o que se chama de folclore. O primeiro tem autor determinado e o segundo é de autoria coletiva ou desconhecida. Mas as duas são geradas no mesmo ventre, sua gênese se encontra na alma da população que veio aportar em nosso território. As duas vertentes, por terem a mesma origem, juntas, configuram o que pode ser percebido pelo viajante de hoje da mesma forma que o compreenderam os estrangeiros de ontem: a música, como ouro, corre nas veias de Minas Gerais.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

CARTA DO SR. ULISSES BATISTA AO CANTA MINAS



Ao Sr. Tadeu Oliveira – Programa “Canta Minas”

Hoje, à mesa da cozinha, saboreando o almoço em companhia de minha família, ouvimos a transmissão da entrevista que dei ao programa “Canta Minas” - Rádio Aranãs FM, conduzida pelo Sr. Tadeu Oliveira.

Agradeço pela homenagem, por toda a atenção a mim dispensada, e pelo respeito com que foi transmitida a nossa conversa.

Aproveito para desejar mais sucesso ao Programa “Canta Minas”, deixando aqui o meu estímulo para que continue a conversar com as pessoas de nossa cidade, especialmente com aquelas que vivenciaram muitas experiências e conhecem esta terra desde os tempos mais antigos.

Em meu nome, de minha esposa Luzia e de toda a minha família, desejo que outras famílias passem muitos domingos agradáveis, embalados pelas histórias de vida de nossa gente, com a certeza de que muitos capelinhenses trazem importantes relatos de vida e lembranças bastante significativas.

Meus agradecimentos a todos, desejando saúde e muita música em suas vidas.

Ulisses Batista

Capelinha, 30 de setembro de 2012.

Comentário: Sou eu que tenho a obrigação de agradecer à família Batista, em especial à Luciana Justus, por me conceder a honrosa oportunidade de entrevista o Sr. Ulisses Batista, patrimônio humano/histórico/cultural/musical de Capelinha.

Infelizmente, devido à limitação do tempo do programa, não pude transmití-la na íntegra. No entanto, na medida do possível, escreverei crônicas sobre os assuntos que o Sr. Ulisses abordou como por exemplo, o ofício de guardador de fios junto aos Correios & Telégrafos, profissão que ele herdou do seu tio de criação, dos giros pelos bares e "butecos" de Capelinha na companhia do inseparável bandolim e de outros músicos históricos da cidade.

Há uma passagem interessante, que não foi ao ar: o Sr. Ulisses fala do bar Chora Viola, do meu amigo "Seu" Geraldo da Viola. Ele lembra (e até cantarola "Maria Helena és tu a minha inspiração") que a música "Maria Helena", composição de Lorenzo Barcelata, Russel e Haroldo Barbosa foi cantada diversas vezes nos encontros das tardes de domingo no referido bar, numa cortesia à Dona Helena (Maria Helena), esposa de Seu Geraldo. Sr. Ulisses recorda que o Seu Geraldo sempre dizia que "ela gosta de cantar essa música".

 E o senhor Ulisses pode ter certeza que seguirei o seus conselho na íntegra, qual seja, o de entrevistar pessoas que "vivenciaram muitas experiências e conhecem esta terra desde os tempos mais antigos."

Muito obrigado à esposa, filhos e filhas, genros, noras, netos e netas do Sr. Ulisses Batista pelo carinho e consideração com a qual me receberam para a entrevista.

Ao Sr. Ulisses eu desejo que continue ainda por muito tempo no meio de nós, nos ensinando que a vida, embora seja de muita luta, não se resume apenas labuta do dia-a-dia. É necessário celebrar, divertir, cantar, confraternizar para tornar nosso fardo e nossa alma mais leve. Como dizia o poeta: "Há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e frutos".

Muito obrigado a todos da Família Batista.

Tadeu Oliveira