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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O CANTO QUE VEIO DO FUNDO MAIS FUNDO DO VALE

"Ao perguntar ao maestro Lindomar Gomes o que o levou a apostar num coral desconhecido a ponto de convidá-lo para um evento tão grandioso tendo como referência apenas uma singela página de internet criada por mim, respondeu: 'a simplicidade e pureza'. E ao perguntá-lo novamente se isso por si só isso já seria suficiente para emocionar as pessoas a ponto de levá-las ao choro, ele novamente me respondeu:
'o coral de Veredinha toca o coração das pessoas porque canta com o fogo do amor'”.


 O coral em sua primeira apresentação no Museu Abílio Barreto/Bh em 2004.
Foto: Arquivo Canta Minas

Por Tadeu Oliveira

“Assim, se passaram dez anos”. Mas parece que foi ontem. Outro dia mesmo, o Coral Vozes das Veredas, dava os seus primeiros passos para cantar em outras plagas. Após três anos da sua fundação, eis que surgia uma oportunidade ímpar de participar do 2º Festival de Corais de Belo Horizonte, nos dias 26, 27 e 28 de novembro 2004, que homenageava o Clube da Esquina. O convite fora feito pelo idealizador e realizador do evento, o maestro Lindomar Gomes muito bem definido pelo poeta Fernando Brant como “um singelo encantador de notas musicais e de pessoas, que leva a vida sonhando e realizando sonhos”. O convite veio a calhar e nós audaciosa e despretensiosamente aceitamos. Afinal, desde a sua criação pela Adecave – Associação de Desenvolvimento da Criança e do Adolescente de Veredinha – em agosto de 2001, que o Coral cantava e encantava o Médio Jequitinhonha. As cidades de Capelinha, Turmalina, Minas Novas, Berilo e Francisco Badaró já haviam se embevecido com as melodias e harmonias emanadas pelas vozes de Veredinha.

A euforia e a ansiedade tomavam conta de nós naqueles dias. Eu e Mirinha, uma das coordenadoras do projeto da Adecave, cuidávamos dos preparativos para o grande evento buscando apoio e recursos para logística, escolhendo repertório, convidando músicos para acompanhar o coral, organizando ensaios e realizando oficinas com abordagens comportamentais e relações interpessoais com a psicóloga Lílian Murta. Até que chegou o dia de tomarmos o rumo da capital mineira para lá cantarmos pela primeira vez. Se para mim que apesar de já ter morado em Belo Horizonte nos anos de 1980 sentia-me como estivesse entrando num território desconhecido, imagine o que aquilo tudo poderia representar para aquelas crianças com idade entre sete e dez anos que mal conheciam os arredores de Veredinha!

A nossa primeira participação aconteceu na noite do dia 26 de novembro de 2004, sexta-feira, no museu Abílio Barreto após percorrermos por um dia inteiro os quase 500 km que separa Veredinha de Bh. Assim que chegamos com aquele bando de crianças com roupas em algodão cru, Mirinha e eu nos entreolhamos e sussurrei entredentes: – “Meu Deus do céu! O que viemos fazer aqui?” – acompanhado de um enorme frio na barriga e um aperto no coração. Mirinha corroborou meus sentimentos acrescentando que devíamos nos manter serenos para não transparecer qualquer insegurança. Não saberia precisar quanto tempo passou desde nossa chegada até a hora de nos apresentar. Foram momentos tensos e aflitivos. O ambiente tornara-se contraditoriamente inóspito apesar da beleza do Museu Abílio Barreto com seu casarão colonial e da recepção carinhosa e calorosa do maestro Lindomar Gomes e sua equipe. Nosso figurino, confeccionado em tecido próprios para sacos e com detalhes em chita colorida e totalmente diferente dos padrões adotados pelos corais que se via por ali, nos expunha ainda mais aos olhares curiosos. Outro fator altamente inibidor era o público presente, bem diferente daquele os quais já havíamos apresentado.

Logo que subimos ao palco, como um coro de anjos mestiços, o sublime cantar das meninas de Veredinha enfeitiçou os presentes.  Iniciamos com dois cânones que sempre abrem nossas apresentações: “Oração Indígena” e “Saudação Africana”. Como fumaça, os receios se dissiparam e logo seguida a gente cantou “Cantiga pra Lira” de Rubinho do Vale. Faltava ainda cantar uma música do Clube da Esquina e quando o coral cantou “Itamarandiba” de Milton Nascimento e Fernando Brant, a plateia já nos ovacionava. Plateia esta que contava com a presença do poeta e compositor Fernando Brant que naquela semana, mais precisamente no dia primeiro de dezembro de 2004, escreveria muitos elogios ao Coral de Veredinha na sua crônica semanal no jornal Estado de Minas, intitulada “Música nas esquinas e nas praças”, que mais tarde integraria o livro “Casa Aberta” pela editora Dubolsinho.

Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Toninho Horta
Vivenciamos ainda muitas outras emoções. Eu e o músico Fábio Cordeiro assistimos a um animado bate papo sobre o Clube da Esquina com Toninho Horta, Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, integrantes do movimento, no Espaço Cultural Phoenix da Universidade Fumec. E na companhia dos músicos Toninho Iglésias e César Loredo nos inebriamos aos sons do grupo carioca Equale, Affonsinho, Tavito, Telo Borges, Toninho Horta, 14Bis e Trio Amaranto na praça de Santa Tereza e na praça em frente a igrejinha da Pampulha.

Aliás, estas duas praças nos reservaram momentos jubilosos e extasiantes. Durante o dia, só se ouvia falar do coral e várias pessoas nos acompanhavam por onde fôssemos cantar. Na noite do dia de 27 de novembro o enorme público na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza, foi ao delírio na apresentação do Coral Vozes das Veredas. E lá, nos despedimos do Festival e agradecemos o carinho do público e dos organizadores, pois no dia seguinte o coral participaria do programa televisivo Dedo de Prosa, do capelinhense Juninho Elisiário, e faríamos um passeio com as meninas num shopping acatando sugestão de Rubinho do Vale. Para nossa surpresa, mal o programa terminou duas belas moças da organização do festival nos esperava e nos “intimou” a comparecer à praça da igrejinha da Pampulha por ordem do público presente. Não é preciso dizer que as crianças rejeitaram a ideia. Ao argumentar que, se nos propusemos a participar do Festival, deveríamos acatar o pedido, meu argumento as levou a irredutibilidade. Então, tive que apelar para os versos do poeta que diz que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.

Cantando na Pampulha
Mal descemos do ônibus na Pampulha e ouvimos o locutor anunciar entusiasticamente: “acaba de adentrar a praça o coral de Veredinha”. A praça foi ao delírio transformando as expressões carrancudas dos rostos infantis em largos sorrisos. Após o desfile de inúmeros corais pelo palco, antes do 14Bis fechar as cortinas do 2º Festival de Corais, as Vozes das Veredas incendiou o público. Surgia assim, para o cenário do canto coral de Minas Gerais, um canto novo do cantinho mais fundo do fundo do Vale do Jequitinhonha. 

Fernando Brant, Tadeu Oliveira e
o maestro Lindomar Gomes
Primeiro coral do Vale a cantar nesse evento, a história das Vozes das Veredas se entrelaçou à história do Festival de Corais de Belo Horizonte que se transformou no FIC - Festival Internacional de Corais. E minha trajetória pessoal no canto coral ganhou novos caminhos e experiências. Um dia, ao perguntar ao maestro Lindomar Gomes o que o levou a apostar num coral desconhecido a ponto de convidá-lo para um evento tão grandioso tendo como referência apenas uma singela página de internet criada por mim, respondeu: “a simplicidade e pureza”. E ao perguntá-lo novamente se isso por si só já seria suficiente para emocionar as pessoas a ponto de levá-las ao choro, ele novamente me respondeu: “o coral de Veredinha toca o coração das pessoas porque canta com o fogo do amor”. Isso explica a minha grande paixão por este grupo de meninas, pela cidade de Veredinha e pelo Vale do Jequitinhonha. E para finalizar, assim como iniciei esse texto com o primeiro verso de uma versão de Lourival Faissal para a composição de Rafael Hernández cantada pela baiana Gal Costa, encerro com o último verso da mesma canção: “E o resto desse romance só sabe Deus”.

sábado, 12 de outubro de 2013

DESVELO: UMA CRÔNICA EM HOMENAGEM AO DIA DA CRIANÇA

Estou postando hoje, Dia da Criança, uma crônica que escrevi há alguns anos que retrata o universo infantil dos brinquedos e brincadeiras e a construção dos princípios éticos. Confira:

DESVELO
Por Tadeu Oliveira

O menino brinca no fundo do quintal envolto num mundo de sonhos, fantasias e mistérios...

Manguinhas verdes encravadas de pequenos gravetos formam a sua manada, que aboia pelas trilhas riscadas entre montinhos de mato e terra perto da horta infestada de borboletas a ziguezaguearem seus matizes. O buraquinho d’água, calçado com pedrinhas multicores serve-lhe como lago para o rebanho refrescar. Caixas de sapato vazias são casinhas de personagens moldados em barro. Vez em quando galos, galinhas e ninhadas de pintainhos aproximam-se do território trazendo perigo ao lugar.

Agora está a empunhar possante espingarda confeccionada  com a haste que sustenta a folha do mamoeiro. Montado no cabo da vassoura, transformada em alazão, luta contra inimigos saídos do seu fértil imaginário infantil, interpretando os heróis dos gibis de faroeste colecionados pelo irmão.

Assim são os dias do menino. O quintal é o espaço lúdico a embalar sonhos de moleque. Conforme a época do ano, vai-se transformando na arena livre onde vivencia experiências do que se vê, do que se comemora, do que se apreende. Lá é o seu mundo, onde é dono e senhor. É o rei que vence todas as batalhas imagináveis e inimagináveis. É o herói solitário no espaço restrito do terreiro, ora transformado em densa floresta onde é o caçador a derrotar sua presa, ora transformado num estádio de futebol onde subjuga adversários em homéricas vitórias. O quintal é tudo: fazenda, rio, castelo, ringue, picadeiro, estádio, estrada... 

A tristeza só o incomoda quando vê a desarmonia dos seus simples brinquedos com  brinquedos dos outros meninos. Na porta da rua, vendo-os brincar na calçada, sente as desigualdades impostas pelo mundo. Por que, enquanto brinca com seus rústicos brinquedos, construídos muitas vezes por suas próprias mãos, os outros brincam com carros à pilha, bolas de couro, aviões que voam de verdade e tantas outras modernas excentricida­des? A resposta mantém-se incógnita aos anseios infantis. O imponderável queima-lhe os recônditos da sua inocência. Interroga a mãe, sem resposta plausível para explicar-lhe as complexidades do mundo. O seu mundo é o das brincadeiras, o da mãe é só o esfregar de trouxas e mais trouxas de roupas para fora, garantindo o sustento do lar. Não bastasse as desproporções materiais, sofre na pele o preconceito da cor e da ilegitimidade paterna. Filho sem pai, filho da miséria, futuro marginal. O ferro do preconceito a predestinar-lhe o futuro. Que importam os valores? Vale-se pelo que se possui, não pelo que se é. 

Dia desses, o menino, cumprindo obrigação rotineira a nutrir-lhe o senso da responsabilidade, vai buscar o leite em casa de fornecedor, fazendeiro rico e pai de dois filhos que regulam a sua idade. Descobre, enquanto aguarda pelo atendimento, diversos brinquedos dos meninos abastados esparramados pela varanda. Olha um, aprecia outro, mexe daqui, remexe acolá, quando percebe, num canto, uma minúscula latinha de talco. Em meio a tantos brinquedos, justo aquela miniatura desperta-lhe a atenção. Tamanho é o enlevo que não percebe a empregada a roubar-lhe o sonho de posse. Vai-se com o leite, embebido no lirismo dos desejos. Se pudesse ter uma coisinha como aquela, para perfumar-se a caminho da escola, fazendo companhia à cheirosa filha do comerciante da esquina? Se levar consigo, no meio de tanta quinquilharias, ninguém dará por falta.

O plano é executado no dia seguinte. E o põe em prática assim que chega. Antes de chamar pela empregada, enfia calçãozinho adentro o pequenino objeto. Toma o rumo de casa, mais feliz impossível. Só não contava que a felicidade lhe seria tão efêmera. A mãe percebe o pequeno objeto, inquire-o a respeito e ele tenta safar-se. Aperta o interrogatório e o menino confessa. Onde já se viu, filho meu, apropriar-se de coisas alheias? Que vá imediatamente repor ao devido lugar o que não lhe pertence. O menino chora, implora à mãe que ameaça surrá-lo. Como devolver agora? Deixasse para o outro dia quando a vergonha será menor, implora o menino em copioso pranto. Contanto que prometa nunca mais agir daquela forma, a mãe prorroga-lhe a devolução com um afago nos cabelos.

Dia seguinte, lá vai o menino cumprir a rotina levando dentro do calção um pedacinho do seu sonho. Enquanto a empregada aparece, balbucia um comentário qualquer sobre o sedutor objeto envolto nas mãos pequeninas. Entrega-lhe a latinha de talco, recebendo de volta a vasilha do leite. Dá meia volta com os olhinhos em lágrimas.

A pobreza e limitações agora estão acrescidas pela ética da vida. Preconceito algum apagará da memória o conhecimento dos limites da propriedade nem subtrairá do caráter as diferenças todas, impostas pela vida.

O menino brinca no fundo do quintal envolto num mundo de realidades e revelações...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MAESTRO QUER REUNIR 50 MIL VOZES NO MINEIRÃO DURANTE A COPA

Ontem, domingo (2), o grupo Cantos de Minas
se apresentou na escadaria da Prefeitura de BH
Fhoto: Flávio Tavares


O Festival Internacional de Corais – Edição de Natal (FIC) enche Belo Horizonte de música gratuita vinda de mais de mil vozes de 30 corais de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. A programação segue até o dia 23 deste mês em 20 lugares diferentes da capital.

Ontem, domingo (2), durante a Feira de Artesanato da Avenida Afonso Pena, o grupo Cantos de Minas se apresentou na escadaria da Prefeitura. Para realçar ainda mais a vocação mineira para o canto coral, o coordenador e idealizador do Festival, maestro Lindomar Gomes, planeja: "Quero reunir 50 mil vozes no Mineirão, durante a Copa de 2014, no Mineirão".

Nesta segunda-feira (3), no Conservatório UFMG, no Centro de BH, a partir das 18 horas, se apresentam o Coral de Alunos do Colégio Padre Eustáquio, o Coral e Banda Cantos de Minas, o Coral Alegria de Cantar e o Coral OAP UFMG. No repertório, músicas típicas da época e também música brasileira. "Queremos quebrar o paradigma de que coral canta apenas músicas sacras. Temos uma gama incrível de gêneros para cantar", garante.

No dia 12 de dezembro, data em que Belo Horizonte completa 115 anos, a Edição de Natal realiza uma homenagem à BH. Um grande coral de aproximadamente 300 vozes será formado no Palácio da Liberdade para cantar no aniversário de BH. O encontro é uma espécie degustação do grande sonho do maestro Lindomar Gomes, que é reunir 50 mil vozes no Mineirão, durante a Copa do Mundo. "Estamos desenvolvendo oficinas em
cidades-polo de Minas Gerais, para estimular a criação de mais corais", indica.

Gomes diz que a mega-apresentação está sendo negociada com os responsáveis pela programação do evento esportivo. "O maestro Villa-Lobos, em 7 de setembro de 1940, comandou um coral de quase 40 mil vozes, no estádio de São Januário, no Rio. Queremos bater este recorde", anuncia.

Os coros participantes tanto da Edição de Natal, quanto na edição tradicional do FIC são formados por crianças, adolescentes, adultos e idosos. "Os corais atingem todos os segmentos sociais e faixas etárias, temos participantes de 4 a 90 anos".

O FIC é realizado há dez anos no mês de setembro. Na última edição, BH e várias cidades mineiras acompanharam as apresentações de 170 corais nacionais e internacionais. "Foram mais de 5 mil vozes que cantaram para 100 mil pessoas em todo Estado", calcula o maestro.

Programação completa: www.festivaldecorais.com.br

Fonte: Jornal Hoje em Dia - on line - 02/12/2012 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 2


Somos frutos das brincadeiras e dos jogos da nossa meninice

Por Fernando Brant

Eu estava ali, avô, entre as prateleiras da loja de brinquedos. Tinha um objetivo: comprar algo que fosse do agrado da Clara e do Lucas. Mas viajei pra longe no tempo, indo parar na contemplação de jogos que nem existem mais. Olhando as novidades de hoje, antes de me afastar mentalmente para época tão distante, eu quis mesmo foi refletir sobre minha entrada no mundo dos pais, quando se deixa de ser recebedor passando a comprador de presentes.

Uma matéria em um jornal falava de um museu de brinquedos, de pessoas que colecionam e consertam o que se brincava nos anos 70 e 80 do século passado. Fiquei com uma vontade forte de saber a localização de tais lugares.

Principalmente por querer rever uma usina de ritmo e alegria que um dia dei para minhas filhas. Era um carrinho a pilha, com um palhaço tocando um bumbo. Ao ser ligado, o carro se movimentava livremente pelo ambiente, o palhaço tocava e o som ritmado era uma festa para a criançada. As meninas dançavam e pulavam, sorrisos abertos. E o pai vibrava.

Várias vezes tentei comprá-lo para presentear outras crianças. Mas ele sumiu do mercado. Elas certamente se divertiram mais com as bonecas, os cadernos e os lápis coloridos, as massas para modelar e a diversidade de jogos que as fábricas inventam para a felicidade da meninada. Mas eu me lembro mesmo é dele, do “tatac”, nome que recebeu em nossa casa.

Voltando à realidade, naquele universo de ofertas, eu deveria escolher algo que agradasse minhas crianças de hoje. Não pode ser muito barulhento, para não encher o saco dos pais. Não pode ter peças pequenas, para que o veloz garoto de um ano e meio não ponha na boca e engula. Tem que ter o selo que indica que o produto não é tóxico. Mas tem de ser algo que seja bom para eles. A sensibilidade de avô pede ajuda ao menino que fui para poder me desempenhar bem da tarefa. Claro que com a ajuda da avó, que reclama que eu não tenha falado no dia dela, na primeira parte desta crônica, quando me referi às varias datas comemorativas que o comércio e a tradição criaram.

Vida de criança tem de ser brincadeira. Brincando, elas aproveitando o melhor de suas vidas e alegram a nossa. Essa manobra imaginária que fiz, esse ir e vir no tempo, de minha infância à das minhas filhas e delas para os dias de Clara e Lucas, me ajudou a me esmerar nas escolhas.

Não foi, no fim, difícil encontrar o que procurava, sem saber antes exatamente o que seria. A prova do acerto é que desconfio que o presente foi amado pelos pequenos, mas não só por eles. Vi interesse nos olhos dos adultos. Pois, enfim, somos frutos das brincadeiras e dos jogos que marcaram nossa meninice. E quem brincou está sempre disposto a voltar a brincar, o que torna mais suportável contemplar o lado cruel do nosso mundo.

“Há um menino, há um moleque, morando sempre em meu coração.”

Fonte: Caderno EM Cultura - Jornal Estado de Minas - 24/10/2012

LEIA TAMBÉM: A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 1

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 1


Fernando Brant

Dia das crianças, dias das mães e dos pais, dia do índio, dia da mulher, dia do negro. Uns foram criados pelo comércio, ávido de aumentar seu faturamento. Outros lembram lutas centenárias. Mas confesso não assimilar bem essas efemérides. Todo dia é dia da criança, da mãe e do pai. Todo dia é dia do índio, da mulher e do negro. Todo dia é dia de todo mundo. Para que inventaram isso? – eu me pergunto.

Começo com a data em que as crianças são festejadas. Penso nos brinquedos que já comprei e nos que comprarei. No tempo em que minhas filhas eram pequenos amores a enfeitar a minha vida, eu dedicava a elas todo o meu calendário. Beijos, abraços e carinhos. Presença, muita presença, o que era bom para elas e para mim. Minha profissão, sem burocracia nem horários rígidos, ajudava. E assim, estamos aqui, respirando uma cumplicidade que é fonte para a minha existência.

Comprei para elas brinquedos que nunca imaginara ter. Quando eu era a criança, tudo era mais artesanal. Já existiam, ó modernos, bicicletas, velocípedes e os melhores jogos de mesa. Nem sonhava com os aparatos tecnológicos de hoje. Mas o que eu gostava mesmo era de brincar na rua com os amigos. Futebol, bente altas, finca, bolinha de gude. Fora as doideiras, quem não malucou quando criança? Ficava horas em frente à basculante da janela de casa imaginando que era motorneiro de bonde.

Percorria em pensamento todo o percurso, rua após rua, parando a cada ponto de embarque e desembarque, que eram chamados de abrigos, apesar de serem descobertos e não proteger os passageiros nem do sol nem da chuva. Como eu viajei pelas ruas de Belo Horizonte na imaginação. Imitava a cada movimento todos os barulhos que a máquina fazia. Pois eu era um conhecedor daquele veículo, amigo dos que trabalhavam na minha linha.

Anos mais tarde, a lembrança forte do que foi o meu maior amigo entre os que conduziam o bonde do Bairro da Serra, me deu a ideia de escrever uma das minhas canções que mais me agradam: Saudades dos aviões da Panair – Conversando no bar.

Ao lado do Zé Motorneiro, admirando os movimentos de acelerar e frear que ele executava, eu ouvia suas histórias sobre a 2ª Guerra Mundial. O frio da Itália, as batalhas e perigos que viu e enfrentou, o tiro que ele não levou.

O que eu sou hoje devo muito aos Zés motorneiro, açougueiro, barbeiro e sapateiro. Os zés e as marias que povoaram minha infância me ajudaram a acreditar na simplicidade, no trabalho, na honestidade, no carinho e na alegria diante da vida, esse presente que recebemos para compartilhar com muito amor.

Fonte: EM Cultura, Jornal Estado de Minas -17/10/2012

LEIA TAMBÉM: A CRIANÇA E O BRINQUEDO - PARTE 2

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

HOMENAGEM DO CANTA MINAS AO DIA DO IDOSO

Hoje comemora-se o Dia Internacional da Terceira Idade. Ainda que as novas gerações têm mudado o conceito de envelhecer é necessário que essa etapa natural na vida de todo ser humano seja encarada com serenidade e, acima de tudo, sabedoria.

Publico o texto abaixo, de autoria do ítalo-americano Leo Buscaglia, um dos maiores escritores acerca do amor nos últimos tempos, em homenagem aos idosos. E que este texto e vídeo abaixo sirva de alerta aos mais jovens que ainda não se conscientizaram de que um dia eles também envelhecerão.

Tadeu Oliveira




A HISTÓRIA DE UMA FOLHA

Leo Buscaglia

Era uma vez uma folha, que crescera muito. Surgira na primavera, como um pequeno broto num galho grande, perto do topo de uma árvore alta. A folha estava cercada por centenas de outras folhas, iguais a ela. Ou pelo menos parecia. Mas não demorou muito pra que descobrisse que não havia duas folhas iguais, apesar de estarem na mesma árvore.

Todas haviam crescido juntas. Aprenderam a dançar à brisa da primavera, a se esquentar ao sol de verão, a se lavar na chuva fresca… Os passarinhos vinham pousar nos galhos e cantar, havia sol, lua, estrelas, tudo…. As pessoas iam ao parque, sentar à sombra da árvore, no verão. E esse é o propósito da árvore – uma razão para existir!

Tornar as coisas mais agradáveis para os outros é uma razão de existir. Proporcionar sombra aos velhinhos, oferecer um lugar fresco para as crianças brincarem. Abanar as folhas como brisa…

E assim o verão foi passando. A folha admirava tudo, olhava tudo… E chegou o frio. A folha ficou assustada, nunca sentira frio, e todas as outras folhas estremeceram com o frio, ficaram todas cobertas por uma camada fina de branco, que num instante derreteu e deixou-as encharcadas de orvalho, faiscando ao sol. Foi a primeira geada… O inverno viria em breve.

Quase que imediatamente, toda a árvore se transformou num esplendor de cores. Quase não restava nenhuma folha verde. Amarelo, laranja intenso, vermelho ardente, dourada. Um arco íris de folhas!

E porque ficaram diferentes?

Por que tiveram experiências diferentes, receberam o sol de maneira diferente, projetaram sombras de maneira diferente. Era o outono chegando…

E a mesma brisa que, no passado as fazia dançar, começou a empurrar e puxar suas hastes, quase como se estivesse zangada. Isso fez com que algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela brisa, reviradas pelo ar, antes de caírem suavemente ao solo. E é isso que acontece no outono, algumas pessoas chamam de morrer…

E a cada folha que caía, a árvore ia ficando despida. Como se cada folha fosse morrendo… E elas voltam na outra primavera? Mistério… Talvez não, mas a vida volta. E qual a razão para tudo isso? A razão das folhas é dar sombra, brisa… e quando caem, elas dão força para as árvores, como se entrassem em suas raízes. As folhas “voltam” dando vida novamente.

A folha caiu… não sabia que se juntaria com a água e serviria para tornar a árvore mais forte.
E, principalmente, não sabia que ali, na árvore e no solo, já havia planos para novas folhas na primavera.



domingo, 13 de maio de 2012

HOMENAGEM AO DIA DAS MÃES


Essa é a dona Josefa, conhecida por muitos como Dona Zefa. Ela nasceu numa região entre os rios Bicudo e São Francisco, o dito Gerais, região que foi pano de fundo de muitos livros do escritor mineiro Guimarães Rosa, inclusive o mais famoso deles: Grande Sertão: Veredas. O ano de seu nascimento: 1919. O ano do seu desenlace espiritual: 1986.

Dona Zefa foi dona de casa, benzedeira, costureira, cozinheira, doceira, quitandeira, artesã, desenhista, bordadeira e mãe de 13 filhos. Eu sou o derradeiro deles.

 Dela herdei a alma sertaneja, o amor pela simplicidade, pela música, pela culinária, pelos “causos”,  pelas crendices e tantas outras peculiaridades mineiras.

Talvez a maior lição aprendida com ela tenha sido, quando ainda menino me levando nas visitas dominicais em asilos e abrigos de Corinto, o exercício da caridade, o olhar alteridade para com as pessoas de necessidades especiais e os miseráveis. Nessas visitas, geralmente junto com a sua prima/irmã Guiomar, ela levava o alento aos necessitados. Aliás, dona Zefa visitava enfermos, ajudava a cuidar deles e era uma pessoa de um desprendimento fora do comum.

Uma característica que jamais esquecerei era a sua capacidade crítica, às vezes um tanto ácida. Dona Zefa tinha muita facilidade em forjar caricaturas de variadas situações.

Todos os dias da minha vida eu me lembro do gosto e do cheiro do seu tempero, do seu olhar inquiridor e às vezes reprovador, como me lembro também da sua solidariedade nos momentos difíceis e, principalmente, do seu silêncio repleto de cumplicidade nas dores da vida.

Uma frase que ela me disse uma vez e que jamais esquecerei: “Na vida não há mal que sempre dure nem bem que se perdure. Tudo no mundo é frágil, tudo passa”.

Onde ela estiver, desejo de todo coração um Feliz Dia das Mães!!!

Saudade enorme do seu amor!!!