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Há mais 26 anos , apresento um programa de rádio intitulado "Canta Minas", na rádio Aranãs FM, de Capelinha MG, com enfoque para a música mineira em todas suas vertentes. Sempre fui apaixonado por música e rádio. Assim sendo, tomei a iniciativa de criar este blog com a finalidade de divagar um pouco sobre as minhas impressões durante os mais de 20 anos de programa. Além da música também sou apaixonado por História e Literatura. Aqui, publicarei crônicas, causos e outras lorotas a respeito de tudo que tenho vivido nesse pedaço de chão que é o Vale do Jequitinhonha. E como não pode deixar de ser, também escrevo sobre a minha querida terra natal, Corinto, e outras vivências pelo mundo afora que me ajudaram a construir uma história de gente comum, sem heroísmos, no entanto carregada pelos "sinais de humanidade"!!! Abraços Gerais!!!

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

FERNANDO BRANT, O MENINO SENTINELA DAS ESQUINAS

by Rafael Senra (*) 
“Morte vela sentinela sou / do corpo desse meu irmão que já se vai / Revejo nessa hora tudo que ocorreu / memória não morrerá”.


Diante da perda de Fernando Brant, autor de algumas das mais emblemáticas canções do Clube da Esquina, me vem à mente uma de suas mais belas letras, “Sentinela”, e que uso aqui como metáfora para pensar a relevância e a perenidade do que ele e sua obra significam para a música popular brasileira.
“Sentinela” foi talvez a primeira letra em todo o lastro de canções do Clube a assumir um viés memorialista. De acordo com Brant:
“Sentinela” foi uma viagem imaginária, onde aproveitei uma referência pessoal para falar também da realidade política brasileira daquele momento, final dos anos 1960. A letra é um pouco anterior ao AI-5. Em princípio, eu tinha falado com o Bituca que iria fazer uma homenagem ao Seu Francisco, que servia café lá no Juizado de Menores, onde eu trabalhava. Para mim o Seu Francisco era um tipo de pessoa que significava um monte de coisas, um sábio. Era um cara do povo que estava vivo e forte, mas imaginei a história dele mais para frente, o dia de sua morte, o velório, e o que aquilo representava para mim. (…) Mas por isso mesmo, por ele ser esse irmão querido, eu tinha que continuar, ser fiel à memória dele (BRANT. Apud: VILARA, 2006, p.67).

Ainda no início do Clube da Esquina, um jovem Fernando Brant já se atentou para o fato de que a memória não é apenas algo estanque, cristalizada em livros de história e bustos de generais. Um dos mais fecundos legados da memória da humanidade está na oralidade, nas histórias passadas de geração por geração oralmente. Tanto é que mesmo culturas que não se amparam tanto na escrita quanto outras culturas ditas “civilizadas” tem também seu lastro de memória.

Um narrador de esquinas

Dentro do Clube da Esquina, acredito que as letras de Brant foram as que mais se propuseram ao dever de erigir mitos e documentos de seu universo (Minas Gerais). Ele acabou por encarnar o mesmo arquétipo de “narrador” que enxergara em Seu Francisco, personagem principal de “Sentinela”. Através do suporte da letra de canção popular, Brant se propôs a legar para as futuras gerações uma série de dados culturais de Minas Gerais que não poderiam se perder no tempo.

Essa figura do narrador foi muito bem descrita por Walter Benjamin, em seu ensaio Experiência e Pobreza:
“Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes com narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?” (BENJAMIN, 1993, p.114).

Documentos poéticos
Fernando Brant
Em 2008, quando entrei no mestrado em letras disposto a pesquisar as canções do Clube da Esquina, encontrei nas letras de Brant toda a profundidade que eu precisava. Como o mestrado da UFSJ se pautava pelo campo teórico conhecido como Estudos Culturais – que tratam de temas relacionados a memória, identidade, colonialismo, multiculturalismo, gêneros, etc. – , pude assim encontrar um viés bem adequado com a metodologia que iria aplicar.

Se fizermos um recorte das letras escritas por Fernando Brant, diversas delas apresentam um aspecto de narrativa, e, mesmo quando tratam de utopia, sempre partem do real (passado ou presente). Essa veia de “documentarista-poético” dos contextos vividos ou ouvidos guarda uma relação com o papel de um diretor de cinema, como nos relata o próprio Brant:
“Lembro-me que toda vez que saía de casa para ir a Biblioteca Pública, na praça da Liberdade, eu descia a Aimorés e subia a Brasil fazendo filmes, enquadrando tudo o que via. Meus olhos eram uma câmera. Na verdade, eu não tinha olhos, carregava o tempo todo uma câmera no rosto (BRANT, Fernando. In: VILARA, Paulo. Op.cit. pág.37).

Guardião da memória
O Clube da Esquina em Diamantina.
Da esq para a dir.: Lo Borges, Fernando Brant,
Juscelino Kubitschek, Márcio Borges
e Milton Nascimento.
O caminho estético que marcou Fernando Brant no Clube da Esquina teve similares na literatura. De acordo com Wander Melo Miranda, diversos escritores de Minas Gerais – como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes ou Pedro Nava – produziram textos memorialistas no período da ditadura militar. Sua intenção era a de evidenciar alguns traços valiosos da cultura que ameaçavam ser extintos através do projeto modernizador dos militares.

Diversas letras de Brant funcionam como rochas líricas que guardam estes monumentos perdidos da identidade mineira. Em Beco do Mota, ele fala de uma rua boêmia de Diamantina, e utiliza o fim dessa zona como metáfora para a repressão da ditadura.

Em Aqui Óh, ele fala dos nostálgicos “namorinhos de portão”, ao mesmo tempo em que discute também o caráter desconfiado e esquivo dos mineiros.

Em Nos Bailes da Vida, podemos sentir toda a emoção e a sinestesia da sofrida vida dos músicos que cumprem sua vocação, mesmo em condições pouco glamorosas.

Em Ponta de Areia, ele transforma em letra de canção uma matéria que fez quando era repórter da revista O Cruzeiro, sobre uma linha de trem que ligava os estados de Minas Gerais e Bahia. Em todo o circuito percorrido pelo trem, ele elenca diversos traços culturais que ameaçavam se perder em meio ao propósito militar (a começar pelo próprio transporte ferroviário).

Em Maria Maria, ele nos mostra a doída beleza da mulher humilde, da face feminina de um Brasil trabalhador, maternal, forjado na simplicidade.

Um sentinela no interior do Clube
É importante aqui pensar no que significa as letras de Fernando Brant dentro do Clube da Esquina. Se pegarmos o movimento como um todo, é possível notar um enfoque mais introspectivo da lírica geral. Há sempre um eu-lírico em primeira pessoa, que observa não só os fenômenos a seu redor, mas também narra seus próprios devaneios e utopias. As letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Murilo Antunes e outros se beneficiam bastante desse tipo de perspectiva. São fluidas, subjetivas, misteriosas.

O estilo de Brant guarda algumas diferenças com seus parceiros. É essa diversidade de panoramas (apesar de um ângulo lírico comum) que sedimentou a assinatura e a glória do Clube da Esquina. Porém, enquanto os outros letristas caminhavam de olho em nuvens ciganas, nascentes, ou mesmo girassóis da cor de cabelos, Brant mantinha o foco no chão.
Arriscando aqui um exercício metafórico, se eu fosse compor a paisagem lírica do Clube da Esquina, pensaria em Ronaldo Bastos como o vento, Márcio Borges como a água, e Fernando Brant como a pedra (não a toa, seu nome completo é Fernando Rocha Brant). É este último o mais atento na dimensão palpável e concreta do seu entorno.


Pedra mineira
Remetendo a Drummond, a letra de “Itamarandiba” (do disco de Milton Nascimento Sentinela (1980), diz: “No meio do meu caminho / sempre haverá uma pedra / Plantarei a minha casa / numa cidade de pedra”.

Ao buscar guardar a memória de Minas Gerais através das letras, Brant empreendeu um mergulho raical na própria essência desse alicerce cultural. Nesse movimento, creio que ele acabou se deparando com o universo da infância, com os valores primordiais da criança, sempre abertas para a amizade e o amor.

O próprio ethos do Clube da Esquina, já a partir do nome do movimento, trata exatamente desse encontro descompromissado da juventude, dessa amizade que não pede nada em troca, que apenas celebra a vida de maneira pura e jovial.

Se Fernando Brant era um alquimista da pedra filosofal da mineiridade, ele encontraria nos vestígios moleculares dessa rocha algumas verdades fundamentais. Ali, ele pôde ler que um amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves. Ou que o medo de amar é o medo de ser livre.

O Brant que conheci
Pude perceber, no breve contato pessoal que tive com Fernando Brant, que seu compromisso com a amizade era não só um pressuposto de estilo de escrita, mas também uma ética de vida.

Entrei em contato com ele em meados de 2010, depois de saber que ele se interessou em ler minha dissertação de mestrado. Ao enviar meu trabalho, perguntei se ele teria disponibilidade e interesse em redigir um prefácio para um futuro livro que eu cogitava publicar.

Ele não só escreveu um texto fantástico para o livro, como compareceu pessoalmente ao lançamento, que aconteceria em 2013. Foi uma surpresa vê-lo entrar na Livraria Quixote, em BH, com seu jeito discreto e simples.

No alto de tudo que aquele homem representa para a cultura brasileira, fiquei muito honrado e admirado de perceber que ele se encontrava aberto para comungar seu saber com um jovem pesquisador que lançava seu primeiro livro. A coerência entre a vida e a obra de Brant é um valioso ensinamento que levo comigo.
Eu e minha família transbordando de alegria ao encontrar Fernando Brant. 2013.
O menino
Em 2004, falecia o escritor mineiro Fernando Sabino, que deixara instruções para o epitáfio escrito em sua lápide: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. Dentre as coincidências que ligam os Fernandos Sabino e Brant (ambos mineiros, artistas, e morreram de câncer de fígado), há também o olhar especial para a infância em suas obras.

Porém, diferente de Sabino, que alega ter rejuvenescido ao longo de toda a vida (para então constatar sua “meninice” apenas nos anos derradeiros), acho que Fernando Brant nunca deixou de preservar seu feitio de criança, no melhor sentido do termo.

Desde a primeira vez em que bati o olho numa foto do compositor do Clube da Esquina, pensei comigo que ele tinha cara de menino. Diversas letras suas tratam do universo infantil: Bola de Meia, Bola de Gude é, talvez, a mais famosa delas.

Em entrevista ao jornalista Paulo Vilara, Brant dissertou sobre a importância de se observar com os olhos da criança que foi. Para ele, o adulto deveria honrar a criança que foi um dia.
Nesse momento de tristeza, quando nos deparamos com a “travessia” final desse ser humano cuja obra é tão importante para tanta gente, acredito que seu objetivo se cumpriu de maneira exemplar. Os que ficam são capazes de enxergar na figura de Fernando Brant a criança, e também o sentinela. Diante desse nosso irmão que que já se vai, revemos nessa hora tudo que ocorreu, com a certeza de que a memória não morrerá.

Referências
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.
VILARA, Paulo. Palavras Musicais – Letras, processo de criação, visão de mundo de 4 compositores brasileiros: Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, Chico Amaral. Belo Horizonte: S.ed., 2006.

(*) Rafael Senra é natural de Congonhas (MG) e atualmente em São João Del Rei (MG). Graduado em Letras e mestre em Letras pela UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei); doutorando em Letras pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Atualmente, além da tese, desenvolve artigos e ministra cursos e palestras. Também se dedica à literatura (contos, romances, poemas), ilustrações e quadrinhos, composições musicais e gravações.

Fonte: http://rafaelsenra.com/fernando-brant-o-menino-sentinela-das-esquinas/

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (2ª PARTE)



Por Fernando Brant(*)


Esse trabalho desenvolvido por Odete Ernest Dias precisa ser melhor conhecido e avaliado. É importante para que se tenha contato com a evolução da alma musical de Minas.

Os viajantes Spix e Martius, no início do século 19, andaram por essas Minas Gerais e tudo o que viram – em termos de humanidade, costumes, geografia, botânica, zoologia, flora- eles descreveram em livros. É interessante o relato que fazem de um fato ocorrido quando Martius esteve em Brejo dos Salgados, às margens do rio São Francisco, para prestar assistência médica à esposa de um Capitão. Ali, depois de cumprida a missão, ele assistiu a uma Festa da Rainha com missa, procissão e um lauto regalo, arranjada por uma rica fazendeira das proximidades. Eis o relato deles:
“Também encontramos aqui entretenimentos musicais, isto onde menos podíamos esperá-los. Um sertanejo, que habitava vinte léguas a oeste de Salgado, e casualmente tinha ouvido falar de nossa prática de amadores de música, mandou um mensageiro, para pedir-nos o prazer de tocar conosco um quarteto. Ao cabo de alguns dias, apareceu o moreno Orfeu das selvas, à frente da mais estranha caravana. Às costas da mula, trazia ele um rabecão, rabecas, trombetas, estantes para música, e, como provas de sua dedicação, a mulher e os filhos. Dois de seus vaqueiros tocaram as partes secundárias e, com jovial segurança, atacamos o mais antigo quarteto de Pleyel. Que mais alto triunfo podia celebrar o mestre do que a expressão de sua música ressoar aqui, no sertão americano? E, com efeito, o gênio musical pairava sobre a nossa tentativa, e tu, excelente melômano, João Raposo, viverás sempre na minha memória, com as tuas feições animadas por triunfante enlevo”. ( J.B. von Spix e C.F.P. von Martius- 1818).

ARTIGO: MÚSICA E MINEIRIDADE (1ª PARTE)


Por Fernando Brant(*)

Músicos brasileiros contemporâneos, chegando às nossas terras, costumam exclamar, de tanto ouvir a qualidade e sutileza das melodias e harmonias que ouvem por aqui, que Minas Gerais é “país da música”. Pode ser exagero, e é, se comparamos com outros territórios, no mundo, conhecidos pela grandiosidade de sua produção musical. Não queremos nos comparar aos grandes centros europeus de criação e difusão de concertos, sinfonias e tais, concebidos através dos séculos de cultura refinada. O velho mundo e sua bagagem são incomparáveis. Nossa idéia é mais modesta e se refere, essencialmente, aos sons criados e executados pelo nosso povo e que vêm desaguar no que conhecemos como música popular mineira e brasileira. É algo que corre no sangue de nossa gente e está presente em todas as situações de sua existência. O mineiro respira notas musicais e com elas torna mais amena sua batalha pela vida ao longo da História.

O conceito de música popular que hoje se reconhece não se confunde com o que se chama de folclore. O primeiro tem autor determinado e o segundo é de autoria coletiva ou desconhecida. Mas as duas são geradas no mesmo ventre, sua gênese se encontra na alma da população que veio aportar em nosso território. As duas vertentes, por terem a mesma origem, juntas, configuram o que pode ser percebido pelo viajante de hoje da mesma forma que o compreenderam os estrangeiros de ontem: a música, como ouro, corre nas veias de Minas Gerais.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

JORNAL GERAES: VEÍCULO DE RESISTÊNCIA, DENÚNCIA E CULTURA

Tadeu Oliveira (*)

Imagem cedida por José Caludionor
Em fins da década de 1970, o quadro político nacional permitiu o surgimento e fortalecimento da imprensa alternativa, possibilitando aos estudantes e trabalhadores do Vale do Jequitinhonha que migraram para Belo Horizonte e outros centros urbanos o contato com várias destas publicações. Alguns destes estudantes militavam nos movimentos de esquerda durante o período mais crítico da ditadura.  Influenciados pelas idéias dos movimentos sociais, estudantis, políticos e culturais emergentes veiculadas nas páginas da imprensa alternativa, idealizaram juntamente com outros jovens residentes no Vale, a criação de um jornal alternativo.

Assim, em março de 1978, nascia o jornal Geraes. Inicialmente, a idéia dos fundadores era que sua circulação fosse restrita à região de Pedra Azul, Araçuaí, Almenara, Padre Paraíso, Jequitinhonha, Itaobim e cidades circunvizinhas. Entretanto, uma reportagem feita no jornal O Estado de São Paulo[1], sobre o Vale do Jequitinhonha fez este grupo mudar de idéia, conforme consta em diversos estudos sobre o tema.

A principal bandeira do Geraes era proporcionar ao povo do Vale um veículo onde se pudesse discutir os problemas da região, escutando e dando voz a todos que viviam em condições subumanas como forma de buscar “o melhor caminho para uma vida mais justa e humana”. Propunha ser uma “ferramenta de denúncia” frente à ditadura militar e desestruturar as organizações políticas instituídas com base no ranço coronelista. A estratégia era a divulgação das “formas de manifestações e organização” que surgiam “no Vale do Jequitinhonha (comunidades, associações, sindicatos)”. Outra estratégia utilizada era a interatividade com os leitores ao criar uma “rede de informações para construção e circulação do jornal” que contribuiu inclusive para cravar o conceito de homogeneidade à região.

Impresso em Belo Horizonte, o jornal era distribuído de forma gratuita. Jornal independente, posteriormente buscou se manter através de assinaturas de leitores residentes em algumas cidades do Vale e de patrocínios de algumas empresas e comerciantes regionais.  O período de vigência do jornal foi de 1978 até o ano de 1985, através de 23 edições (não havendo consenso sobre este número), o que compreende o fim do período ditatorial e início da abertura democrática da política brasileira.

Festivale: o Geraes na trilha da cultura

A partir de 1977, com a volta do movimento estudantil às ruas e, a partir de 1978, com o advento das grandes greves promovidas pelo movimento operário do ABC paulista, novos ventos sopraram sobre a discussão política e a luta pela democracia. No campo da cultura, entre os artistas e intelectuais de esquerda, renovou-se a vontade de uma participação política mais intensa, passando de uma fase de resistência para outra mais crítica e agressiva. Assim, os artistas tiveram participação decisiva junto aos movimentos de luta pela democracia. Por este período, a televisão já tinha se tornado um poderoso veículo de comunicação que, além de consolidar sua vocação para a teledramaturgia, promoveu a socialização e massificação da cultura.

Nesse contexto, muitos desses movimentos alternativos[2] influenciaram os editores e leitores do jornal Geraes, forjando o embrião do Festivale.  Era o que faltava para dar a forma do movimento cultural do Vale como um movimento alternativo.

 
Edição histórica do Jornal Geraes
Foto: Vilmar Oliveira

Cabe ressaltar dois fatos marcantes que antecederam ao surgimento do Festivale e que podem ser compreendidos como elementos catalisadores que impulsionou o jornal Geraes dar uma guinada estratégica para a cultura do Vale. Trata-se do lançamento do álbum Jequitinhonha – Notas de Viagem e o I Encontro de Compositores do Vale do Jequitinhonha. Com relação ao álbum, Luiz Santiago descreve, no seu livro O Vale dos Boqueirões – História do Vale do Jequitinhonha (1999), que ouviu-se falar “primeira vez em cultura do Vale do Jequitinhonha no fim de ’79. Estávamos no Palácio das Artes,. (...) Encontramos Leri, da dupla Leri e Melão. Ele contou que viajara pelas barrancas do Jequitinhonha, pesquisando música popular na região, que é fantástica – ele disse. Desde menino, já conhecíamos algumas cidades por ele mencionadas; a partir daí (...) a cultura do vale passou a nos interessar. Mais tarde, com o material reunido, mais alguma gravação em estúdio, a dupla Leri e Melão lançou o disco Notas de Viagem, que contou com a participação do Boi de Janeiro, de Itaobim, e dos tamborzeiros do Rosário, de Araçuaí” (pág. 325).

E ao promover, em 1979, o I Encontro de Compositores do Vale do Jequitinhonha, na cidade de Itaobim, que também sediou o primeiro Festivale em 1980, o movimento cultural usou da criatividade ao se apropriar de estratégias utilizadas pela ditadura militar para divulgar o evento. Para isso, fixaram cartazes em faculdades, bares e ruas do centro de Belo Horizonte, com cerca de quinze fotos três por quatro ampliadas e o título de “Procurados”, copiando o modelo das “peças de propaganda antiterroristas do regime militar”. Observando o cartaz de perto, percebia-se que os “procurados” eram “acusados de fazer música do Vale do Jequitinhonha e de serem desconhecidos do grande público (SANTIAGO, 1999)”. Em tempos marcados pela censura e pela perseguição política, o audacioso cartaz chamou a atenção da imprensa mineira, o que contribuiu para a divulgação do Encontro.

O sucesso do encontro de compositores serviu para que os artistas participantes “excursionassem” por diversas cidades do Vale do Jequitinhonha e Mucuri e também por Belo Horizonte. O mais importante foi que nesse encontro definiu-se o nascimento do I Festivale como um evento cultural anual e itinerante, com participação restrita a compositores nascidos ou residentes no Vale. Outro fato importante nesse encontro foi a criação do CCVJ - Centro Cultural do Vale do Jequitinhonha que, juntamente com o jornal Geraes se encarregaram de organizar o movimento cultural do Vale. Porém, movimentos de dissidência provocaram a criação de outras entidades representativas. Mas isso é uma outra história.

[1] Trata-se da reportagem O progresso chegando ao Vale da fome, assinada por Ricardo Kotscho e publicada no jornal O Estado de São Paulo, no dia 28 de agosto de 1977, p. 28. Esta informação foi retirada do livro de Luís Santiago, “Vale dos Boqueirões: História do Vale do Jequitinhonha”, Edições Boca das Caatingas (1999) e a citação da reportagem, inclusive com parte do trecho da mesma, pode ser lida no livro  de Dalva M. Oliveira, “A Arte de Viver: Riqueza e Pobreza no Médio Jequitinhonha. 1970-1990”, Editora da PUC-SP – EDUC (2007).

[2] Desses movimentos, os de maiores destaques foram: a vanguarda paulista, em São Paulo; grupos e músicos individuais com o Boca Livre, Luli e Lucina, Jacques Morelembaum, no Rio de Janeiro; Antônio Nóbrega e o Movimento Armorial proposto por Ariano Suassuna, em Pernambuco e Paraíba; a cultura serteneza proposta por Elomar e Xangai, na Bahia; e em Minas Gerais nomes como Titane, Dorothy e Dércio Marques, o próprio movimento cultural do Vale entre outros. Os movimentos dos estados nordestinos foram os que mais influenciaram o movimento cultural do Vale do Jequitinhonha. Nomes de MPB como Chico Buarque, Geraldo Vandré, João Bosco, Luiz Gonzaga dentre outros, também influciaram os artistas do movimento. NAPOLITANO (2008, pág. 125).

 
(*) Este texto é uma adaptação do capítulo 2 que integra a minha monografia, conforme indicação bibliográfica abaixo:

SANTOS, Geraldo Tadeu de Oliveira. Movimento Cultural do Vale do Jequitinhonha: imprensa alternativa e cultura popular na formação da identidade regional (1978-1990). FAFIDIA/FEVALE/UEMG. Capelinha, 2009. Sem publicação.


Para saber mais sobre o assunto indico alguns livros e textos listados abaixo:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARAÚJO, Maria Paula Nascimento. A utopia fragmentada: as novas esquerdas no Brasil e no mundo na década de 1970. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000.

GERAES. Belo Horizonte, ano I, n. 1, maio 1978, p. 2. In LANA, Jonas Soares. Os FESTIVALEs e os movimentos sociais do Vale do Jequitinhonha: canção, mediação cultural e identidade regional (1978-1989). Belo Horizonte, 2008.



RAMALHO, Juliana Pereira & DOULA, Sheila Maria. O Jequitinhonha nas páginas do jornal Geraes: cultura e territorialidade. Contemporâneos: Revista de Artes e Humanidades (Online), v. 4, p. 1-20, 2009.

SANTIAGO. Luís. O Vale dos Boqueirões – História do Vale do Jequitinhonha. Almenara: Edições Boca das Caatingas, 1999.

SILVA, Dalva M. Oliveira. . A Arte de Viver: Riqueza e Pobreza no Médio Jequitinhonha. 1970-1990. São Paulo: Editora da PUC-SP - EDUC, 2007. v. 1.

NAPOLITANO, Marcos. Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950-1980). São Paulo: Contexto, 2008.